Páscoa e o nosso renascimento.

 

Seja para os católicos ou para os judeus, Páscoa tem sentido de vida nova. Para os primeiros significa que Jesus ressuscitou libertando-se assim da morte três dias após sua crucificação. No judaísmo é a comemoração da libertação do povo hebreu adquirida pelo êxodo do Egito onde viviam como escravos, tornando-se então um povo livre. Em ambas as religiões celebra-se a vida, a superação, a libertação e o renascimento diante de uma nova possibilidade.

 

O simbolismo desta data me faz pensar sobre nossas vidas aqui neste planeta e em todas as mortes que vivenciamos ao longo da existência. Ciclos terminam, pessoas vão embora ou somos nós quem partimos; ou não partimos e ficamos aprisionados em situações  de escravidão disfarçadas muitas vezes de zona de conforto, de relações estáveis, sejam essas afetivas ou profissionais. Escravos da rotina, da repetição, da roda da fortuna e do azar, das obrigações impostas, dos deveres sem fim, da culpa que pesa nos ombros feito cruz, que arrastamos pela via dolorosa que cada um esboça para si e percorre.

 

A simbologia da Páscoa sugere que podemos “morrer” e renascer quantas vezes forem necessárias dentro da mesma existência, assim como podemos abandonar o que nos aprisiona e sufoca, partir para outras experiências apesar do medo, do risco, do que  temos que abrir mão ou “perder” para ganhar lá na frente em movimento, liberdade, livre escolha. Para tanto é preciso não só coragem e desapego mas também fé, no sentido de acreditar que a abundancia do Universo está disponível para quem busca viver de acordo com o seu coração, para quem se mantem integro e fiel aquilo que acredita ser seu propósito.

 

 

Mudar de rota, de trabalho, de casa, de parceiro, mudar de opinião (por que não?). Mudar a percepção, a compreensão, a resposta. Abandonar velhos padrões e hábitos, desenraizar-se, fazer o caminho de volta. Ressuscitar o que permitimos que morresse em nós, sonhar novos sonhos ou reeditar algum sonho antigo que continue valendo, encaminhar-se rumo à terra prometida que nada mais é do que estar no mundo de uma maneira que nos faça feliz.

Feliz Páscoa, feliz despertar, feliz recomeço!!                                                                 Que possamos fazer a passagem de uma vida limitante para uma vida onde o céu seja o limite! Onde cada um de nós possa caminhar por onde escolher e sentir-se em casa onde quer que esteja porque está vivendo de acordo com o que é e acredita. Porque está em paz e, portanto, está em casa.

 

Toda tristeza será perdoada

Não gosto do pessimismo, nem nos outros nem em mim. Sair do presente, antecipar-se aos acontecimentos e fazer previsões sombrias é uma péssima viagem. Também não simpatizo com a ideia de curtir mágoas, desilusões ou qualquer coisa desse tipo, voltar o filme sempre na mesma cena e repetir o sofrimento, reeditar a dor. Isso nos torna prisioneiros do que não deu certo, ou do que consideramos que não deu certo porque a expectativa era outra. Colocar-se na posição da vítima também é um furo n’água uma vez que distorce a percepção, nos isenta da responsabilidade que também temos no desenrolar daquela situação e mais do que isso, divide o mundo entre inocentes e culpados, bons e maus e mergulhamos na armadilha da separatividade, que infelizmente anda muito em moda nos dias de hoje. Não é disso que se trata esta postagem.

Refiro-me à tristeza, aquela tão conhecida emoção que nos toma de assalto mesmo quando tudo parece bem; que entra em casa sem ser convidada e logo encontra um canto para ficar. Que aperta o nosso peito, mareja os olhos, dá um tom acinzentado em tudo sobre o que pousamos o olhar. Ela nos afasta temporariamente do mundo exterior e nos induz a voltar para dentro, a percorrer nossos labirintos, becos, ruelas e buscar pela compreensão e aceitação dos fantasmas que lá se escondem e que fingimos não ver. Mas que nem por isso deixam de nos assustar, costumam nos roubar o sono e os sonhos, e quanto mais os ignoramos mais se fazem presentes.

A tristeza é um aviso e um lembrete de que se faz necessário parar um pouco e cuidar da nossa sombra, traze-la para perto, iluminá-la com a luz da consciência para reintegrá-la no todo que somos. Desta forma não mais ouviremos o choro dos excluídos ou o passo dos fantasmas nos porões do inconsciente, e assim nosso caminhar será mais inteiro.

Que possamos tomar cuidado com a ditadura da felicidade que é imposta diariamente, como se alguém pudesse sentir-se feliz por decreto, como se fosse obrigação estar radiante todos os dias. Parece que entristecer-se é doença que logo precisa ser medicada, ou é frescura de quem não é grato por tudo que tem e a pessoa que está triste muitas vezes carrega vergonha e culpa por sentir-se assim.

Na verdade a tristeza é boa aliada na elaboração de tudo que não digerimos até então e que só deixamos para trás, abandonado, como se fosse possível viver e largar aspectos nossos pelo caminho. É ela que nos faz voltar e recolher essas partes rejeitadas, é ela que nos mostra o espelho no qual vemos nossa imagem refletida. Só a partir desse olhar e dessa vivência temos a oportunidade de corrigir a rota e aí sim nos tornarmos pessoas mais felizes!

Reinventar-se, palavra chave!

Muito bem, chegamos até aqui! Meio século já se passou desde que aportamos neste planeta e construímos uma história e tanto, não é mesmo? Dê uma espiadinha rápida no seu percurso e veja quantas coisas você fez, viveu, ganhou, perdeu, trocou, construiu. Há quem tenha estudado muito, se especializado e trilhado um caminho de sucesso profissional. Há quem tenha feito escolhas diferentes, se dedicado à formação de uma família com mais tempo para o companheiro, os filhos, a casa. Há quem tenha viajado, perambulado por esse mundão de meu Deus, livre, leve e solta. Há quem tenha feito de tudo isso um pouco. Há quem tenha tido um casamento, há quem já está no segundo ou terceiro e há quem escolheu não casar. Há quem teve filhos e há quem tem gato, cachorro, papagaio. Há quem fale várias línguas e quem ainda está aprendendo a se comunicar… Há quem goste de viver cercada de gente e há quem priorize a própria companhia. Há quem tenha grandes planos para o futuro, mas há também quem esteja se perguntando “e agora”?

Pois é, e agora Maria, e agora José? O que é que vamos fazer pelo resto de nossas vidas, com o tempo que temos para viver? Já cumprimos vários papéis, funções, assumimos personagens diversos e agora? Com a aposentadoria ou próxima dela, com os filhos fora de casa ou quase isso, com os pais que já partiram ou estão se despedindo, com os amores que ficaram pelo caminho ou com o companheiro que segue junto e vivencia algo muito parecido e agora, como ressignificar a própria vida?

Não há mais receitas, isso é claro; há sugestões de uma sociedade que não se cansa de ditar regras, mas será que vamos continuar nessa?? Será que não é este o melhor momento de olhar para dentro e fazer uma faxina emocional ampla, geral e irrestrita?  Que tal começarmos por tirar as mágoas das gavetas, dos compartimentos e colocá-las sob a luz da consciência? Olhar para cada uma delas, lavá-las mesmo que seja com as águas do nosso choro, tristeza, raiva ou arrependimento, e depois exorcizá-las com o perdão e o desapego? E quem sabe podemos fazer o mesmo com os conceitos, com as ideias pré concebidas, com todas as definições que colecionamos ao longo da vida? Que tal reduzir a bagagem pela metade?

E aí minhas amigas, hashtag #partiu. Para o novo, para o que ainda não foi vivido ou que já foi, mas de maneira diferente. Para o que não tivemos tempo ou coragem de viver. Para o que abrimos mão com receio da crítica alheia e do fracasso, ou também porque a auto imagem e a auto estima boicotaram. Agora é hora de nós boicotarmos os sabotadores internos e os externos também se preciso for. 

Reinventar, ressignificar, “bora” brincar de viver!! Somos capazes de fazer deste momento um tempo de prazer, de divertimento, de novas descobertas. Ouse, afinal de alguma maneira você já fez isso antes…

Mulheres, buscadoras incansáveis

Vocês já perceberam que as mulheres costumam ser maioria em atividades voltadas para o autoconhecimento? De abordagens terapêuticas e holísticas, passando por grupos de autoajuda, reuniões espiritualistas, cursos sobre assuntos ligados à metafísica, rodas de conversa…  Tudo o que acena com a possibilidade de mergulhar em si mesmo atrai o público feminino.                       

E não é para menos; apesar da dura jornada de trabalho, da inserção cada vez maior no mercado, do acúmulo dos papéis de companheira, mãe, filha, profissional, organizadora das atividades domésticas, ainda assim há uma inquietação que não se rende à escassez do tempo nem se dobra ao cansaço diário. Há uma busca incessante pela compreensão da natureza humana, pelo conhecimento que ficou adormecido e que foi sepultado em algum lugar desse complexo psiquismo feminino através de séculos de domesticação e silêncio.

Ainda hoje vivemos sob o signo da repressão e do submetimento à ordem patriarcal e machista que impera em nossas sociedades pseudo modernas. A mulher ainda está preocupada com a sua sobrevivência, seja esta física, emocional, mental, econômica. Ainda luta todos os dias para manter sua integridade frente a tantas ameaças explícitas ou implícitas, que ativam o medo da não aceitação, da não valorização, e em casos extremos e infelizmente frequentes, o medo da morte anunciada pela violência e pelo assédio masculino.

Ainda assim a inquietação permanece, o desejo por um conhecimento ou entendimento que nos permita adentrar no reino do oculto e do não revelado, do inconsciente e dos mistérios. A busca pelo que nos ajude a dar sentido à vida além deste que está institucionalizado, pelo que nos instrumentalize a vasculhar na atemporalidade desse inconsciente até encontrarmos indícios, fragmentos, vivências, traumas represados, enfim, retalhos que possamos olhar, recolher e costurar na formação de um tecido maior, com a arte de quem transforma os retalhos no patchwork.

Grandes escritoras e poetisas traduziram essa inquietação feminina na literatura, como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Simone de Beauvoir entre outras. E nós mulheres vivemos isso o tempo todo, há sempre uma intuição, um comichão, um desejo de ir além, de se debruçar sobre a cerca e espiar o que há do lado de lá.

“Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse e eu concordo que tempo cura, que a mágoa passa, que decepção não mata. E que a vida sempre, sempre continua.”

Simone de Beauvoir

Dançar para envelhecer bem

O jornal Frontiers in Human Neuroscience publicou um artigo onde cientistas alemães afirmam que a dança pode ser um exercício ainda mais completo que os outros no combate a qualquer tipo de demência senil.

Já está comprovado que a atividade física funciona como um antídoto para o envelhecimento do cérebro, e que exercícios regulares garantem maior longevidade com saúde, o que é fundamental. A vantagem da dança, segundo esse estudo, está relacionada com o desafio em movimentar-se de forma ritmada no aprendizado de novas coreografias ou formações através dos diferentes estilos de dança, que difere da proposta de qualquer outra atividade física onde a repetição é uma constante. Além da pessoa ganhar flexibilidade e aprimorar o equilíbrio, há a ativação das funções sensório-motoras, como a junção dos estímulos visuais e movimentos, no trabalho simultâneo de ritmo e velocidade, além dos benefícios da música sobre o cérebro, já bem conhecidos.

Dançar para não envelhecer soa poético e simbólico; extrapolado o conhecimento científico que fala em aumento do volume do hipocampo, que é a central da memória cerebral, também podemos pensar na ideia mais sutil que é o aprendizado de ter flexibilidade e leveza para atravessar esse período desafiador da vida. A necessidade de aprendermos a nos mover em outros ritmos, diferentes dos que conhecemos até aqui; de desenvolver outras estratégias, de não perder o passo, de não endurecer para não “quebrar”. De deixar-se levar pelos sons dessa nova estação da vida e encontrar prazeres até então desconhecidos.

Envelhecer bem não é fácil, até porque estamos enraizados na fantasia da eterna juventude, da manutenção da forma, na crença de que tudo posso quando vislumbro uma vasta vida pela frente, anos a perder de vista. Dar-se conta de que essa quantidade de tempo não reside mais no futuro mas sim no passado, de que a sensação de onipotência esvai-se frente aos dados de realidade e de que a responsabilidade da vida é de cada um de nós (lembram-se daquelas falas do tipo “como o tempo passa”…) e reconhecer as limitações, é tarefa pra gente grande, pra quem tem coragem.

Coragem para nem negar as evidências nem entregar-se a elas. Coragem para aceitar os novos ritmos e aprender os novos passos, para encantar-se com a possibilidade de dançar, de deslizar sobre essa nova etapa com graça e alegria. Coragem para cuidar de si mesma muito mais do que dos outros, o oposto do que fizemos até aqui; para entender que com o tempo só o tempo passa, e que portanto precisamos agir.

Lembram-se de onde vem a palavra coragem? Vem do latim “coraticum”, derivado de cor [diz-se cór], coração. Talvez coragem seja a união da ação e do coração, o olhar para si mesma amorosamente, o acolher-se e cuidar-se para promover a saúde em todos os níveis, o amor próprio que tantas vezes na vida nos faltou. Podemos sim envelhecer bem, mas isso depende de nós e das escolhas que fazemos e faremos a partir daqui.

Que possamos fazer boas escolhas e desenvolver bons cuidados em relação a nós, e tudo o mais que vem de fora é lucro. A expectativa precisa mudar de lugar, de domicílio. Não esperar do outro, seja ele o companheiro, os filhos, os amigos. Contar conosco, fazer por nós, essa é a grande mudança!!

Este vídeo mostra essas lindas senhoras dançando e dando depoimentos.
Não percam!