Movimento e mudança

Por que será que nós, seres humanos, temos dificuldade em nos movimentar no decorrer da vida? Já perceberam quantas fases de estagnação vivenciamos? Fazemos escolhas e nos enraizamos nelas, via de regra. O tempo passa, o prazo de validade vence, e nos mantemos firmes, mesmo quando a situação torna-se desconfortável; tememos a mudança. Vale lembrar que o Universo move-se o tempo todo; a Terra se desloca assim como o Sol, o Sistema Solar, a Via Láctea e todas as galáxias, em uma espécie de balé espacial, em decorrência do Universo estar em constante expansão.

Para expandir é preciso mover-se, alguém duvida? Há fases em que a vida parece estreitar-se, perdemos de vista a amplidão que trazemos em nós, nos sentimos limitados e acuados. É um momento onde tudo nos consome e só conseguimos enxergar os limites do espaço interno ao qual estamos confinados. O que fazer quando nosso olhar já não consegue mais perceber as cores da vida? Aqui há uma escolha: entregar-se ou mover-se para provocar uma mudança.

De um lado vem o medo, o grande antagonista a ser enfrentado; se não o fazemos, ele nos paralisa, torna-se o comandante da situação a tal ponto que é capaz de nos roubar os sonhos. Do outro lado vem o desafio do desapego, do soltar o que temos carregado agarrado em nós, a estória até aqui vivida dentro dos parâmetros conhecidos. O convite a derrubar as cercas que nos separam do novo e do ainda não vivido, de um horizonte que se abre cheio de possibilidades e de dúvidas.

Não se engane acreditando que o período das grandes mudanças ficou para trás, que isso só é possível quando somos muito jovens; essa é mais uma armadilha do medo. Na verdade, a ausência de movimento nos envelhece, nos engessa fazendo com que a rigidez nos envolva feito mortalha. Podemos mudar sim, para isto é preciso estar disponível para a vida.

Reveja suas escolhas, atualize seus planos. A pessoa que você era já não existe da mesma maneira, porque assim como o Universo, estamos em constante expansão. Observe-se sempre, veja se há brilho no seus olhos, se há entusiasmo na sua forma de agir. Se perceber que a vida está muito chata, mude! O mundo é aquilo que projetamos nele, um mundo novo se cria através de novos sonhos, arrisque-se! Regue sua alma, solte sua criança interior. Deixe-a brincar, experimentar, criar, liberte-a do pesadelo do mundo. Ressignifique sua existência sempre que for preciso, afinal, estamos aqui também para aprender como ser feliz.

ELAS – O caminho dos desafios

Vamos voltar à jornada da Heroína, através de um mito aborígene.

As irmãs Wawilaks se encontravam na chácara sagrada da Serpente Arco-íris, Yurlungur, quando acidentalmente contaminaram seu solo com uma única gota de sangue menstrual. Esse insulto não passou despercebido e a serpente Yurlungur, furiosa, fez com que as chuvas caissem incessantemente até inundarem a chácara.

Para apaziguar Yurlungur, as irmãs decidem cantar. Mas, nada acalma a serpente que emerge das águas e engole as Wawilaks e seus bebês recém-nascidos.

No interior da serpente, as irmãs sentem culpa e medo. No entanto, nada poderia fazer com que desistissem de sobreviver, pois o amor por seus filhos era inabalável. Elas resistem e choram muito até que são regurgitadas pela serpente. Graças à persistência, elas voltam à luz.

Como as Wawilaks, toda pessoa atravessa períodos de dificuldades, desafios. Por vezes, a perda da alegria e da esperança  faz com que nos sintamos enclausurados, na escuridão.

Como sair de uma situação desesperadora?
Usar o poder do guerreiro, nessa luta eterna, ou usar o poder interior do Espírito e a convicção para abrir o campo dos milagres a partir de uma receptividade pacífica e feminina?

As Wawilaks nos apontam um  caminho de retorno, de não desistência, de convicção íntima.

Mães

A maternidade é uma experiência individual, e por esta razão não cabe em nenhuma definição. Na data comemorativa de hoje não faltam narrativas sobre o que é ser mãe, cheias de adjetivos, “julgamentos”, explicações, poesia. A figura da mãe é de tal forma valorizada que parece tratar-se de um personagem mítico, saído de um conto sobre deusas e heroínas. E fica também subentendido que é impossível habitar o “Olimpo”, ao lado dos deuses, sem passar pela maternidade. Será?

A sociedade e a cultura não são justas com os indivíduos, principalmente com as mulheres. Há uma expectativa de que as mães sejam uma mistura de Mulher Maravilha com madre Teresa de Calcutá. A maternidade é abordada como um contínuo estado de graça, onde não há lugar para o cansaço, a decepção, o desgaste, o tédio. E as mães que se sentem assim, vez por outra ou com frequência, carregam a culpa por não se parecerem com as mães dos comerciais de TV, dos anúncios de eletrodomésticos, com a ideia que nos é transmitida desde o dia em que ganhamos a primeira boneca, a primeira filhinha. E as mulheres que declaram abertamente a escolha de não terem filhos são vistas com desconfiança, como se tivessem algum defeito.

Acredito que estamos aqui como seres encarnados em busca de aprendizado e evolução, e há vários caminhos que podem ser percorridos para que esse objetivo se cumpra, a maternidade é só um deles. A trilha da aquisição de consciência e aperfeiçoamento interno, de acolhimento para as dores próprias e alheias, do cuidado consigo mesmo e com o outro, implica no desenvolvimento da amorosidade, da generosidade e do perdão. Há homens e mulheres que percorrem esse caminho sem terem tido filhos, e há também mulheres que geraram crianças e que desconhecem essa possibilidade. Ser mãe não nos torna melhores nem mais dignas.

Entretanto, dispor-se a abandonar o aspecto narcisista e caminhar em direção ao outro, mesmo que ele, o outro, nos frustre nas nossas expectativas, transforma qualquer ser humano. Nesse aspecto, a maternidade oferece uma grande oportunidade, que pode ou não ser aproveitada. É a oportunidade da transformação, do aprendizado amoroso, de migrar de escolhas egoístas para escolhas mais altruístas. Como eu coloquei no começo do texto, a maternidade é uma experiência pessoal.

Eu tenho dois filhos, dois meninos que vi crescer; neste ano, um faz 22 e o outro 17. Desejei cada um deles muito antes de terem nascido. Não dormi boa parte dos últimos 22 anos, e ainda agora o sono é entrecortado. Um olho fecha e o outro se mantem aberto até o contorno deles aparecer no corredor, já madrugada adentro. Eu, como todas as outras mães que se renderam a essa experiência, tenho o cheiro deles bebês guardado nas minhas lembranças, assim como os sorrisos, os choros, os primeiros passos, todos os sustos, as idas ao pronto socorro com aquele corpo ardendo em febre. Tenho a lembrança do primeiro dia na primeira escola, a dor da separação, a expectativa de que o tempo passasse depressa para chegar a hora de ir buscá-los.

Também guardo feito tesouro cada conquista, cada superação, gesto amoroso, olhar derretido. Essas lembranças dividem espaço com os gritos acompanhados das birras, o som das portas batidas, as palavras que não esperava ouvir. Hoje já traçam seu próprio caminho, fazem escolhas onde não estou incluída. Mas nem eles nem eu dispensamos a convivência, pelo contrário. Os abraços são mais escassos porém muito mais longos, os olhares se buscam quando estamos juntos. E na verdade estamos sempre juntos, porque estar junto é estar dentro, é um morar dentro do outro. Assim como, tenho certeza, moro em minha mãe e ela mora em mim.

Bert Hellinger, psicoterapeuta alemão e criador das Constelações Familiares, diz que uma pessoa está em paz quando todas as pessoas que pertencem à sua família têm um lugar no seu coração. Que nossas mães possam estar em nossos corações, e que nós, mães, possamos estar no coração dos nossos filhos!

Sonho: o fio conector com a vida

Você já sonhou hoje? Não estou me referindo aos sonhos noturnos, que acontecem enquanto dormimos, aos sonhos que são mensagens do nosso inconsciente; me refiro à capacidade de sonhar, de desejar algo melhor para nós mesmas. A busca pelo novo, pelo que está além da realidade do cotidiano, aquele algo a mais que faz toda a diferença na qualidade de vida. Muitos confundem o sonho com a utopia, e embora eles tenham semelhança, não representam a mesma coisa. Segundo o dicionário, utopia é um lugar ou estado ideal, de completa harmonia e felicidade entre os indivíduos. Já o sonho é um pontapé inicial no processo de buscar a realização pessoal em algum aspecto da vida; nele estão inseridos a possibilidade de imaginar para além das cercas que nos são impostas e que nós mesmas criamos. Implica em confiança, esperança, determinação e ação. Se não houver ação, o sonho não passa do estágio da fantasia.

Somos muito condicionadas pelo sistema de crenças que rege a sociedade na qual vivemos; essas crenças são restritivas e estão a serviço de manter a humanidade no patamar da subserviência e da limitação. Do tempo de nossas avós para agora, poucas coisas, de fato, mudaram. Do ponto de vista quantitativo, o número é mais expressivo. Mas do ponto de vista qualitativo, temos muito o que sonhar!

Fomos domesticadas a nos contentar com pouco, e esse pouco é visto como se fosse muito. Sobreviver já parece muito, mas não é. A quem basta sobreviver? Depois de passado meio século de existência, não aceito ter apenas superado as dificuldades, ter vencido os obstáculos e ter sobrevivido a todas as dores. Claro que reconheço minha força e sou grata por cada superação, mas isso não é suficiente para eu me aquietar. Continuo sonhando com uma vida feliz, cada vez mais feliz. Não a felicidade utópica, que exclui o conflito, a frustração, as emoções menos nobres. Mas a felicidade possível porque sonhada, a ampliação do bem estar, a intensificação dos momentos felizes, o prazer como algo que está inserido no cotidiano, dividindo o espaço com todo o desconforto que faz parte do jogo da vida.

Essa felicidade não é um presente, mas uma conquista, e depende menos da sorte e mais do afinco em sonhar. Depende do intento, que pode ser compreendido como a energia proveniente do propósito, da vontade de realizar algo, e disso se transformar em uma bússola existencial que vai nortear a emoção, o pensamento e a ação. Sonhar não é para amadores, é coisa de gente grande, de gente que, vira e mexe, resvala na sua essência ou alma, ou como quer que a chamem. De pessoas que começam a desconfiar que o Universo é muito maior do que aprendemos a acreditar, e que nós, criaturas humanas, somos tecidas com o fio do divino, do Criador, e que também podemos criar uma outra realidade, maior e melhor, para nós mesmas e para o mundo no qual vivemos. E onde tudo começa? Na arte de sonhar….

Dia de Poesia

Affonso Romano é mineiro, escritor, poeta, e na década de 60 participou do movimento de vanguarda literária. É autor do livro “A Mulher Madura”, de onde foi extraído o texto abaixo.

O olho da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

(15.9.85) Affonso Romano de Sant’Anna