Amigas

Tivemos nesta semana a celebração do dia do amigo, como se amigos precisassem de um dia especial para serem lembrados. Como canta Milton Nascimento, amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração… e acaso não é aí que os amigos moram?

Por estes dias reencontrei uma grande amiga do passado, não nos víamos há mais de vinte anos! Ela casou, mudou de cidade, perdemos o contato. Graças às redes sociais marcamos um almoço. Brincamos que colocaríamos um crachá para nos reconhecer, mas por mais que tivéssemos mudado fisicamente, nos reconhecemos. Conversamos como se tivéssemos nos visto na semana passada, como se tivéssemos convivido diariamente durante todo esse tempo que passou, e a razão é clara! Somos amigas, moramos no coração uma da outra.

Amizade é vínculo feito, laço dado, costura que o tempo não desfaz. Depois que acontece eterniza-se, se de fato for amizade. Uma alma mergulha na outra e a magia se faz presente. Neste mundão de meu Deus duas almas afins se cruzam, não por acaso, mas por sincronicidade, por relação de significado. É como se fios invisíveis nos conectassem com o outro e fôssemos atraídos para o encontro, e quando esse acontece, nos transformamos.

A vida ganha leveza, porque aprendemos a compartilhar; ganha cores que só o afeto é capaz de produzir. Quando atingimos a maturidade percebemos que a vida é circular, que as pessoas importantes voltam, seja na lembrança, seja nos reencontros, e já que trazemos os amigos dentro de nós, é impossível perdê-los.

Nós, mulheres, sabemos bem disso. Quando já percorremos metade do circulo, desenvolvemos um sentimento de irmandade com nossas amigas, estabelecemos parcerias livres de competição ou inveja. Nos tornamos aliadas, companheiras de risadas intermináveis e choros incontroláveis. Nos amparamos mutuamente, dividimos alegrias e dores. Sabemos pelo olhar ou pelo tom de voz como ela está, e aprendemos a respeitar seus humores, assim como nos sentimos respeitadas em nossas esquisitices.

Quando sentamos com as amigas em torno de uma mesa estamos revivendo a história de nossas ancestrais que reuniam-se em torno do fogo; ou de nossas avós que se reuniam na calçada das casas, contando estórias, trocando receitas, dando o ombro e abrindo o coração para ouvir e acolher a outra. Sentimos que a força do feminino desperta e se propaga, transforma-se em alimento que nutre a todas nós.

Benditos sejam os amigos e amigas que colhemos e acolhemos no decorrer da vida, que partilham conosco essa aventura, que se empatizam com nossa dor e se alegram com nossa alegria. Benditas sejam as mulheres que nos incentivam a nos tornarmos seres humanos melhores, que nos apontam nuances novas e diferentes das que somos capazes de perceber.

A todas elas, gratidão!

Maturidade e aprendizado

É claro para todas nós que o envelhecimento não traz, por si só, sabedoria. A vantagem única da passagem do tempo está na diversidade de experiências que podemos ter, na possibilidade de observação de nós mesmas, dos eventos, das nossas respostas em relação a eles. O tempo pode ser um grande mestre, na medida em que nos coloca frente a frente com a vida em suas inúmeras faces, mas tudo depende da disponibilidade interna de aprendizado de cada uma de nós.

Se pudermos desenvolver uma postura de humildade frente a este vasto Universo, no sentido de nos colocarmos como eternas aprendizes dos mistérios da vida, teremos muito mais chances de compreender a natureza humana e tudo o que está a ela relacionado. Essa compreensão está ligada à esfera intuitiva, uma vez que entender racionalmente alguma questão está longe de significar elaboração interna; para tanto precisamos de um insight, aquele click que faz com que tudo se encaixe em nós como um quebra cabeças perfeito.

De insight em insight construímos uma percepção dos processos, que nos auxilia a navegar pelas águas das emoções sem naufragar. De vez em quando tomamos “um caldo”, e nem poderia ser diferente, pois continuamos aprendizes, mas já com alguma expertise que nos permite por a cabeça para fora e respirar.

Já temos algum conhecimento dos ventos do tempo, somos capazes de discriminar que no olho do furacão a atitude possível é aquietar-se e abrigar-se, ou seja, saber esperar com paciência que o furacão passe para depois colocar cada coisa em seu devido lugar. O aprendizado nos torna aptas a avaliar as diferentes intensidades de força, e fazer escolhas apropriadas que não apenas nos livre dos riscos desnecessários, como também nos permita desenvolver estratégias para termos sucesso no que desejamos empreender.

Talvez o amadurecimento esteja mais vinculado a escolhas do que a impulsos, a gestar ideias e planos de como realizá-las, no lugar de sair fazendo qualquer coisa de qualquer jeito. Qualquer coisa já não serve mais, há um refinamento dos paladares pela vida. Não há interesse em qualquer filme, qualquer livro, qualquer pessoa. As luzes do mundo interno se acendem, parece que é um tempo propício para nos aproximarmos da nossa essência, e ela se torna a referencia para as escolhas.

Isso não significa que a maturidade seja melhor que a juventude, ou vice-versa. Não dá para dizer que a primavera é melhor que o outono, ou o inverno pior que o verão. Cada estação do ano e da vida tem seu propósito e seu encanto, e todas são necessárias para que a natureza se expresse em toda sua beleza e exuberância.

Que possamos honrar a nós mesmas em cada uma de nossas estações, aproveitar o que elas têm de melhor e trabalhar para que possamos sempre crescer e aprender, mesmo que isso signifique deixar cair as folhas mortas, deixar ir o que não agrega mais, para poder mais pra frente florescer de novo, e sempre!

Férias

Estou de férias, fora da cidade e da rotina, fora das preocupações e do trabalho. Estar em férias é fazer um rasgo no tempo e viver a atemporalidade, é despir-se dos personagens e mergulhar no ócio criativo.

Mas gostaria de deixar para vocês um poema de Mia Couto, autor que gosto muito.

Semana que vem estou de volta!

                   Mudança de Idade

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

No livro “Tradutor de chuvas”

Maturidade e mudanças

Segundo o IBGE a expectativa de vida da população aumentou 41,7 anos em pouco mais de um século. Em 1900 a expectativa era de 33,7 anos. Ou seja, houve um tempo que era esperado morrer por volta dos 33 anos!!

  • Com o passar dos anos esse número foi subindo:
  • em 1970 havia crescido para 52,6 anos;
  • em 1980, a probabilidade era viver cerca de 62,7 anos;
  • em 2014 já estávamos com uma expectativa de vida de 75,4 anos, e ela não para de crescer.

Talvez esses números possam justificar porque a maioria das pessoas fazia suas escolhas profissionais e afetivas na juventude, e com elas permaneciam até a velhice. A velhice chegava rápido, era o tempo de engrenar na profissão, casar (ou não), ter filhos, vê-los crescerem e terem seus próprios filhos, e morrer. Mudanças significativas no meio do caminho pareciam ousadas, e, via de regra, só aconteciam perante o imprevisto. Era comum as mulheres fecharem os olhos para as traições do marido e ficarem casadas até que a morte os separasse. Também era comum homens insatisfeitos com suas escolhas profissionais e mesmo assim, aposentarem-se na mesma empresa em que começaram a trabalhar.

Felizmente vivemos em outros tempos, demoramos para envelhecer, e não apenas porque vivemos mais, mas principalmente porque vivemos diferente. Mesmo assim precisamos tomar muito cuidado para não repetirmos o comportamento dos nossos antepassados, e não nos acomodarmos porque já estamos nos 50. Ainda vejo, tanto no consultório quanto na vida, mulheres insatisfeitas com suas escolhas pregressas e que sentem-se “velhas” demais para mudar, e tenho que tomar esse cuidado comigo também, afinal já aprendemos a pilotar esse modo de viver, e já nos acostumamos com ele.

Nada melhor do que este momento de experiências acumuladas para revisar a própria vida, e buscar novas aspirações para que nosso coração bata com entusiasmo através dos muitos anos que vislumbramos à frente. Somos mulheres inteiras, trazemos em nós vasta bagagem de conhecimentos, percepções, emoções e aprendizados que foram conquistados ao longo desta jornada. Trazemos também coragem e determinação por tudo que superamos, resiliência pelos fracassos e frustrações, e sonhos pela menina que habita em cada uma de nós.

Fizemos escolhas, vivemos, mas quantas delas ainda valem, e quantas já perderam o prazo de validade? Toda experiência valeu a pena, nada é desperdiçado no Universo, nada é jogado fora se tivermos a sabedoria de transformar nossas vivências em experiências de crescimento e aprendizado. Mas está na hora de revisar e escolher tudo de novo. Certamente algumas escolhas seguem as mesmas, e ótimo se não caducaram… mas outras talvez precisem ser abandonadas, dadas por encerrado, não porque desistimos, mas porque não têm mais significado.

Manter-se jovem apesar da idade é resultado de cuidados com o corpo, a mente e o espírito. O sonho, como já escrevi em outra postagem, é o fio condutor da vida. Sonhar é reinventar-se, dar rumo novo e fresco aos passos que iremos fazer. É colorir o que já está em branco e preto, substituir pelo que tem apelo e sentido à nossa alma.

Simone de Beauvoir

Mulher, francesa, escritora, ativista política, feminista e companheira de Jean- Paul Sartre, que se destacou pela inteligência e perspicácia intelectual, é dela a frase:

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.”

Esse é um pensamento grande, vasto e complexo como o próprio universo feminino, e talvez represente a busca interminável de todas as mulheres, o desejo mais sincero que reside no coração de todas nós. O mundo, assim como o conhecemos, ainda não é um lugar onde esse sonho possa ser acalentado. O mundo, assim como o conhecemos, prossegue sendo machista, separatista, castrador e opressor para todas as criaturas, e mais especialmente para as mulheres. A todo momento somos surpreendidas por definições e sujeições onde a liberdade, feito pássaro selvagem, bate asas para longe da realidade do cotidiano feminino.

Seja onde for, seja na classe social que for, a ignorância e o preconceito ficam estampados no comportamento masculino que guarda cheiro de mofo e naftalina, que insiste em atravessar décadas, séculos sem grandes revisões, que não sabe se reinventar, que tem dificuldade em mover-se na espiral da consciência humana. É evidente que não me refiro aos homens de modo geral, há muitos que merecem admiração e respeito pela integridade que perseguem no decorrer da vida, pelo esforço que fazem junto às mulheres de criar uma nova maneira de estar no mundo e de se relacionar. Assim como também há mulheres que reproduzem o comportamento masculino do início da história da humanidade e que não me representam.

Me refiro aqueles a quem falta discernimento e respeito às próprias origens, às mães e outras tantas mulheres (avós, tias, primas, madrinhas) que os acolheram quando aportaram neste mundo e cuidaram para que crescessem, às mulheres professoras que os guiaram na jornada da aprendizagem, às mulheres ajudantes nas tarefas domésticas, que lavaram suas roupas, cozinharam sua comida, limparam o lugar onde vivem.

Porque esse grupo de homens brasileiros que estão na Rússia assistindo a Copa do Mundo provavelmente tiveram tudo isso, e muito mais. E mesmo assim, reproduzem a violência contra as mulheres através do assédio moral, e postam nas redes sociais como se fosse um grande feito, fazendo questão de mostrar seus rostos com o riso de quem triunfou, sem nenhum constrangimento. Não me refiro a um único grupo, o primeiro cujas postagens causaram repercussão, mas há outros que também surgem agora, e parecem funcionar como uma rede solidária aos primeiros agressores.

A desaprovação desse comportamento é geral, mas ainda há quem considere isso apenas molecagem. Não senhores, moleques devem ser mantidos sob a tutela de seus responsáveis, moleques não embarcam sozinhos em aviões, não transitam desacompanhados pelas ruas. Isso não é molecagem, é agressividade, é perversidade, é violência; tão pouco é humor, porque envolve humilhação. Se alguém se diverte às custas da dor e da humilhação do outro, isso é sadismo.