Excessos e desvios

Vandana Shiva é uma mulher indiana formada em Física, Filosofia, ativista pelo meio ambiente e fundadora da Navdanya ONG, que realiza um belíssimo trabalho de promover a biodiversidade das sementes, plantações orgânicas e preservação das florestas da India.

Dela empresto um pensamento para o texto de hoje: o maior desafio da época que estamos vivendo é a luta contra nossa própria estupidez.

Ela refere-se ao processo gradual de destruição da natureza pela contaminação da água, modificação das sementes e mudanças climáticas provocadas pelo mau uso dos recursos naturais. Mas o ser humano consegue escorregar pela estupidez em diversos níveis e de diferentes maneiras, algumas que podem levar ao extermínio da raça humana sobre o planeta, e outras, mais sutis, que colocam em risco a liberdade de expressão, a democracia e a manutenção do estado laico.

Como psicóloga e filiada ao Conselho Regional de Psicologia, tomei conhecimento do crescente número de profissionais que se intitulam praticantes da “Psicologia Cristã”. O CRP-RJ soltou uma nota de esclarecimento, após a nomeação do novo secretário municipal da Casa Civil da Prefeitura do Rio de Janeiro autointitulado “psicólogo cristão”. Basta dar um google para identificar que também há profissionais que se apresentam como psicólogos evangélicos. Ou seja, seguimos a passos largos fatiando o todo.

Nos dividimos em guetos, entre posições políticas de direita ou esquerda, entre os que são politicamente corretos e beiram o radicalismo (como a condenação, no carnaval, de alegorias com cocar sob a alegação de ferir a nação indígena), e os que carregam o preconceito como se fosse um estandarte. Entre ricos e pobres, cultos e ignorantes, crentes e não crentes, gordos e magros, homens e mulheres, agressores e vítimas, e a lista que divide o que considera-se uma categoria de outra, não tem fim.

A quem interessa esse modelo cindido onde o homem deixa de ser compreendido em sua totalidade? A quem interessa a redução de sua grandeza? Quem lucra com a disputa que se estabelece entre as “facções”, com os conflitos e os confrontos entre grupos que se percebem antagônicos? Quem ganha com o desmanche da raça humana ? Quem se alimenta de nós? Muitas perguntas, poucas respostas.

É preciso estar atento e forte, diz o refrão da música. É preciso estar desperto. Não existe psicólogo cristão, evangélico, umbandista; existe psicólogo. A pessoa que o psicólogo é pode ser o que quiser, mas a sua crença não pode sobrepor-se à crença do outro que está ali, no lugar de paciente, de ser humano que busca entender sua dor. Empatia é conexão, sem filtros, sem julgamentos, sem ideologias. Vandana tem razão, que baita desafio lutar contra a nossa própria estupidez!

“Não podemos ensinar nossas crianças a competir com as máquinas, pois estas são mais inteligentes.”

 Você tem a sensação de não acompanhar o ritmo de mudança que ocorre na tecnologia? É uma situação compartilhada por todos aqueles que são meramente usuários, e não criadores, dos instrumentos, máquinas e recursos que vão progressivamente sendo colocados à nossa disposição: internet das coisas, assistente pessoal, casa inteligente… Enquanto escrevo este texto o que mais já terá sido inventado? Tenho certeza que estou defasada. Toda essa nova infraestrutura altera nossa forma de estar no mundo.

Há algumas semanas, no World Economic Forum em Davos, isso foi debatido. De acordo com o McKinsey Global Institute, robôs poderão ocupar 800 milhões de postos de trabalho por volta de 2030, isto é, dentro de 12 anos. A automação e a inteligência artificial tornarão o trabalho manual e repetitivo obsoleto.  Diante desse quadro, o que fazer?

Passo a palavra para Jack Ma é um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, fundador e chefe do Grupo Alibaba, conglomerado tecnológico multinacional.

“Educação é um grande desafio agora. Se nós não mudarmos nossa maneira de ensinar, dentro de 30 anos nós estaremos com um grande problema. A base do que ensinamos se refere aos últimos 200 anos. Nós não podemos ensinar nossas crianças a competir com as máquinas, pois estas são mais inteligentes. Os professores precisam parar de ensinar conhecimento. Temos que ensinar algo único, algo que uma máquina não possa jamais alcançar. Valores, crenças, pensamento independente, trabalho de equipe, atenção e cuidado para com os outros. O conhecimento informativo não pode ensinar isso. Eu acho que nós deveríamos ensinar esportes, música, pintura, arte. Dessa forma, garantir que os seres humanos sejam diferentes. Tudo o que ensinamos deve ser diferente das máquinas. Se uma máquina pode fazer algo melhor do que um ser humano, temos que levar isso em consideração.”

Adorei essas palavras, vindas de alguém que vive em meio à tecnologia. Ele nos diz: vamos lembrar o que nos faz Humanos! Diante do avanço da informática, diante da nossa incapacidade de produzir no mesmo ritmo que as máquinas, temos que lembrar da nossa humanidade, nossa capacidade de nos conectarmos uns aos outros, de sermos solidários, de expressarmos nossas angústias e nossas alegrias através da escrita, da dança, do desenho, da fotografia, da escultura, da culinária, entre outras formas. Lembrarmos da nossa fragilidade e da nossa filosofia. Recordarmos nossa capacidade de sonhar e de sermos únicos. Aquilo que nos distingue das máquinas não está no plano do fazer, mas do Ser. Sejamos!

Carnaval

Finalmente chegou (e continua) o Carnaval!!! Para dizer a verdade, não sou nem nunca fui fã do Carnaval, não tenho sangue de folião, tampouco me sinto atraída pelo sambódromo. O que eu comemoro é a possibilidade de 2018 finalmente estar valendo a partir da quarta feira de Cinzas, dele “pegar no tranco” e desenvolver seu ritmo.

Mas também não tenho nada contra essa folia, e talvez sinta até uma pitadinha de inveja dessa multidão de pessoas que conta os dias para a sua chegada. Admiro aqueles que juntam dinheiro durante o ano para a compra da fantasia, os que se deliciam em sambar na avenida viver seus minutinhos de fama, os que sabem de cor e salteado o samba enredo da sua escola, os que pulam atrás do trio elétrico, e agora mais recentemente, os que ocupam as ruas da cidade integrando os blocos de Carnaval.

Bem sei que para algumas cidades sisudas como a nossa é difícil conviver com essa bagunça desorganizada. No pré Carnaval, São Paulo foi tomada pelos blocos e a juventude em peso apropriou-se do espaço público, assim como famílias com crianças e pessoas de todas as idades.Ruas e avenidas foram interditadas, o trânsito ficou mais caótico do que de costume, o transporte público não deu conta da demanda, e muitos moradores tiveram seu sossego roubado. Choveram críticas e reclamações variadas, não faltou discurso político nem desaprovação pela constatação de que um número muito maior de pessoas se dispôs a ir para as ruas brincar do que se dispõem para lutar contra governos corruptos e oportunistas…

É, talvez isso seja verdade, assim também como é verdadeiro que a falta do exercício de cidadania faz com que muitos se comportem como se a cidade não fosse sua, como se o patrimônio público não lhe pertencesse, como se o cheiro da urina despejada fora dos banheiros químicos não fosse sentido pelo seu nariz. É o bloco dos excluídos, dos que não se apropriam da sociedade em que vivem, dos que não se sentem pertencentes a ela e ao lugar onde moram, e portanto, não se vêem responsáveis nem por cuidar, nem por lutar por ela.

Mas, felizmente essas pessoas não são a maioria nem a representam. Diante da multidão que ocupou as ruas e continua ocupando, o resultado me parece positivo. Há uma disposição em brincar, em unir-se a outras pessoas, em viver o coletivo em seu aspecto mais saudável. Quem sabe se isso não é um começo, se o resgate do lúdico possa despertar a consciência de que tanto a sociedade quanto a cidade, o país, a nação pertencem a todos nós, e portanto somos todos responsáveis por ela. Quem sabe possamos olhar as ruas como a continuação de nossas casas, e desenvolver um sentimento de apreço e cuidado.

Se somos capazes de cuidar da nossa casa, somos capazes de cuidar do nosso bairro, e depois da nossa cidade. E então estaremos desenvolvendo a cidadania, que nos tornará mais fortes e conscientes como grupo, com condições de intervir em assuntos políticos e econômicos que sentiremos como verdadeiramente nossos. Será que estou sonhando e isso é só fantasia? Se for, tudo bem. Afinal, é Carnaval!

Sonhos de uma tarde de verão

Hoje, vou contar alguns sonhos. Sabe o que eu quero?

Viajar a um lugar tão exótico que a rotina e os deveres da vida desapareçam da memória. Nele, vou estar atenta às minhas próprias necessidades, sem cuidar da casa, da família, do trabalho, pois, neste sonho, tudo está em perfeita sintonia.

Vou dar uma festa, reunir pessoas queridas que saibam rir e contar piadas, que conheçam a arte da sutileza e que saibam quando é hora de partir. Serviço impecável, comida gostosa. Zero esforço!

Vou dançar a noite toda com música, luzes e espaço perfeitos, no ambiente ideal para deixar o corpo se expressar. E então, às 6 da manhã, tomar um breakfast no último andar de um hotel com vista panorâmica. Degustar pães, bolos, chocolate belga, vinho francês. Comer à vontade sem a remota preocupação de engordar!

Vou encontrar um momento para ler recostada em uma poltrona confortável, à sobra de uma grande árvore, ouvindo os sons da natureza. E do alto de uma montanha, observar a beleza de um vale imenso.

Então, de madrugada, vou caminhar de mãos dadas pela praia, molhando os pés e o vestido no mar, esperando os primeiros raios do sol, em clima de romance.

Por fim, vou descansar até não poder mais e brincar de ouvir o silêncio.

A Força do Grupo

Vivemos em uma sociedade onde o individualismo tem grande importância, e ensinamos as nossas crianças, desde cedo, a desenvolverem autonomia e independência. Valorizamos as pessoas que “se viram” por conta própria, que são descoladas, que se colocam como prioridade; não sei se vocês já tiveram a oportunidade de ver, nas redes sociais, cerimônias de casamento que estão sendo feitas onde não existe o casal, mas uma única pessoa que se casa consigo mesma!

Acredito que a maturidade, fruto da experiência adquirida ao longo da vida, abre uma possibilidade de sermos mais cautelosos no julgamento que fazemos a respeito do mundo, e de diminuirmos a distância entre o que considera-se certo e errado.

Eu tenho muita dificuldade atualmente em classificar o comportamento humano dentro dessa categoria, uma vez que isso pressupõe verdades absolutas e conceitos engessados. Entendo que há valores que sustentam, como pilares, a convivência em sociedade, e que nos ajudam a organizar o caos interno e a buscar pelo aprimoramento da condição humana, e esses não têm prazo de validade. Porém, além deles, existem conceitos, definições e interpretações que demandam por revisão constante.

Ontem vivi uma experiência muito interessante; faço parte de um grupo de mulheres que reúnem-se uma vez por mês e têm como proposta trabalhar o feminino em seu aspecto mais sagrado. A cada mês fazemos uma vivência diferente e, após um ano e meio de encontros, estamos cada vez mais afinadas. Desenvolvemos um vínculo de profundo respeito e companheirismo, e vamos descobrindo que a irmandade feminina é poderosa, e que o grupo nos impulsiona a mergulhar em nós mesmas e resgatar o poder pessoal, que por tantas vezes anda esquecido em algum lugar onde não somos capazes de acessá-lo.

A experiência de ontem fez com que nos déssemos conta que a maneira como cada pessoa percebe o mundo é restrita, fruto de um conjunto de crenças herdados da família de origem, dos relacionamentos estabelecidos, do processo de aprendizagem e da “lavagem cerebral” a que somos todos submetidos diariamente, pelo fato de não estarmos despertos. Quando nos fechamos em nossas “verdades”, quando nos colocamos como seres independentes, que prescindem do outro, empobrecemos.

Isso não significa que a autonomia, a capacidade de discriminação, a apropriação de si mesmo não sejam importantes. Mas há uma grande diferença entre estabelecer relações de dependência e estabelecer relações de troca, de compartilhamento.

Os grupos têm uma força incrível, e dependendo do propósito e do uso que se faz dessa força, podemos crescer em consciência e amorosidade. A sensação de pertencimento é uma bênção, e a possibilidade de comungarmos ideias, percepções, emoções com o outro é, sem dúvida, um caminho onde há alegria, apoio mútuo e estímulos variados que nos conduzem a um universo muito mais amplo e rico. O outro sempre representa um aspecto meu que está asilado, um insight que não tive, uma percepção que abre novos horizontes.

É a tal historia, o tópico da era de Aquário para o qual precisamos atentar: “Nenhum de nós é melhor que todos nós, ninguém sozinho é capaz de fazer o que, com o grupo, conseguimos.”