Madonna e os 60

Nesta semana que passou Madonna atingiu os 60 anos. Figura pública que é, vive da imagem. Assume a idade, mas não o envelhecimento no sentido literal da palavra; seus cabelos continuam loiros, seu rosto traz poucas rugas e seu corpo mantém-se bem delineado e sarado. O que mostra que ela optou em manter as tintas sobre os fios de cabelo, deve recorrer a vários procedimentos estéticos assim como à assiduidade dos exercícios físicos. Ou seja, está envelhecendo da mesma forma como viveu. Sempre se diferenciou pela ousadia, e dela não abre mão. Segue sendo uma mulher sexy, desafiadora dos padrões estabelecidos, namora rapazes e assume seus romances, trabalha muito e não se acomoda no sucesso conquistado. Em termos musicais, uma das suas características é que continua fazendo novas músicas e shows para apresentá-las, não vive exclusivamente do sucesso do passado.

Independente de gostarmos dela ou não, Madonna traz uma coerência interessante no seu comportamento ao longo da vida e durante o envelhecimento, ou seja, ela não ficou velha, apenas envelhece. E não é assim que deveria ser? Os anos passam, esse é o processo natural. O corpo físico tem perdas importantes que necessitam de cuidados, há mudanças sim que precisam ser reconhecidas para serem respeitadas. Há que se cuidar da alimentação, do sono, do ritmo da vida, da atividade física e mental mais e melhor do que fizemos ao longo do tempo. É preciso estar atenta aos sinais que o corpo nos envia, ele sinaliza o que necessita.

Mas o corpo físico também responde ao corpo emocional, e o que pensamos e sentimos sobre nós mesmas exerce influência direta sobre a saúde; tenho para mim que esse é o pulo do gato! Se envelhecer é obrigatório enquanto estamos vivas, ficar velho é opcional, depende das escolhas que fizemos e que continuamos fazendo.

Acho que ficar velho é abandonar a vida e seus atrativos, e é, na verdade, abandonar a si mesmo. É acreditar na obrigatoriedade da juventude e em todas as restrições que nos são impostas quando já saímos dela. Como se só pudéssemos ser felizes enquanto jovens, e só tivéssemos direito a uma série de escolhas até os 30 anos.

Felizmente temos acordado dessa hipnose que a sociedade tende a exercer sobre nós. Conheço várias mulheres que, passados os 50, resolveram mudar o rumo de suas vidas. Há as que se divorciaram por perceberem que a antiga relação já havia se esgotado e não tiveram medo de separar mesmo não sendo tão jovens. Há as que se apaixonaram novamente, e se entregam a essa paixão sem receios. Há as que descobrem o prazer de estarem com elas mesmas, e não há aqui sentimentos de solidão. Há as que foram fazer um curso fora do país, se permitiram viver uma experiência que foi sonhada no passado e não pode ser concretizada em função dos inúmeros deveres de mãe e esposa. Há as que abandonaram as tintas do cabelo e assumem seus brancos sem perder a vaidade. E há aquelas que continuam casadas, desenvolvendo as mesmas atividades.

Ou seja, a idade não é um empecilho para mudanças nem tão pouco uma exigência para que elas aconteçam, depende do desejo de cada uma de nós. O que nos limita não é a idade, mas o sistema de crenças que incorporamos e repetimos; a jovialidade é uma conquista que implica em abrir mão dos preconceitos, da rigidez, dos julgamentos, e jamais da alegria e dos prazeres. Da vontade de aproveitar a vida e aprender com ela, da curiosidade que não morre. Há um grande privilégio em envelhecer, que possamos honrá-lo devidamente!

O Pai

Princípio masculino, tronco que propicia estrutura para a criança/copa expandir-se, senhor do tempo, o que interdita a relação simbiótica entre a mãe e o filho. O que comunica a lei, coloca os limites, exala o princípio da realidade e da autoridade. Traz o mundo exterior para dentro de casa e o representa. Provedor maior do senso de responsabilidade, presença que sugere outros caminhos para a manifestação do afeto. Assim como apresenta a possibilidade de outro olhar para o mundo, a vida, as relações. Parceiro da mãe na arte de educar, pondera com a racionalidade que nos auxilia a não naufragar nas águas da emoção. Exemplo, modelo a ser seguido ou evitado. Antagonista dos filhos no sentido de provocar seu crescimento e encorajá-los na superação de seus medos com a assertividade do masculino. Às vezes herói, às vezes “bandido”. Às vezes, como filhos e filhas, corremos em sua direção em busca de um lugar seguro para se estar; às vezes corremos dele, por receio, vergonha, raiva.

Mas um dia crescemos e nosso olhar para ele se modifica, assim como modifica o lugar que ele ocupa em nossas vidas. Já podemos nos aproximar sem receio, e ele, o pai, pode abandonar os personagens que representou e tornar-se apenas o homem que é. Já nos educou, já nos interditou, já nos empurrou quando empacamos, já nos inspirou coragem e força. Essa figura paterna já está introjetada, mora dentro. Está tudo certo. E ele, o pai, pode voltar a ser o sr. Fernando, Luiz, Paulo, Pedro. Pode compartilhar conosco seus receios, pode mostrar sua fragilidade. Não precisamos mais do mito, aprendemos, como filhos e filhas, a amar o homem, com todos os senãos, os defeitos, as limitações. Reconhecê-los nos autoriza, inclusive, a reconhecer em nós os próprios limites e virtudes, aprendizado duplo de aceitação e perdão.

Hoje comemora-se o dia dele, e novamente enquanto família nos reunimos em torno de uma mesa, rendemos a ele nosso respeito, nosso amor, nossa gratidão. Pode ser que ele esteja fisicamente presente, pode ser que não. Mas como ele está dentro de nós, está vivo. É atemporal. Seu rastro percorre em nosso sangue, parte de nossas células herdamos dele. Então não teria como ele não estar em nós. E sempre estará. Pai e mãe, duas pessoas que doaram parte da sua energia para que pudéssemos estar aqui. Cada um do seu jeito, com seu cheiro, sua linguagem, sua maneira de ser e de amar. O masculino e o feminino juntos para prover a vida de um outro ser.

“Pai e mãe, ouro de mina.

Coração, desejo e sina.

Tudo o mais, pura rotina, jazz.”

Agosto

Minha avó dizia que Agosto era mês de cachorro louco… E tem muitas pessoas que não simpatizam com ele, isto é fato, como se houvesse, no calendário, um mês destinado a causar desconforto ou não trazer sorte. Sabiam que é o mês mais evitado para casamentos? Isso traz vantagens para quem não é supersticioso, porque segundo li, casar-se nesse mês acaba saindo mais barato. Por que será que a maioria das pessoas olha para ele com desconfiança, o que ele suscita em nós que eriça os pelos do corpo?

O inverno é a estação do recolhimento, faz frio, a intensidade da luz é menor, os dias escurecem mais cedo, a vontade de sair por aí diminui. Começa no dia 21 de junho, mas a expectativa das férias nos mantêm no clima do Outono. Para quem viaja para o hemisfério norte não há inverno, para quem gosta de frio, neve, baixas temperaturas nas serras, o inverno é bem vindo, e de um jeito ou de outro, parte-se para as férias. Quando estamos em férias penduramos problemas e pendências no varal do tempo, abandonamos a rotina de obrigações e deveres e mergulhamos no principio do prazer! Julho pode ser considerado como um mês da estação “festa”.

Mas Julho acaba e Agosto chega, trazendo o céu nublado, a garoa fina e gelada, o retorno à rotina; e lá vamos nós, recolher do varal o que nele havíamos pendurado, problemas e pendências saem do quintal e voltam para dentro de casa; o princípio do prazer é substituído pelo princípio da realidade. E o que é realidade? Aquilo que os olhos veem e a mente decodifica?

A descrição do mundo é, para muitos, a realidade. Não é a toa que há quem grude olhos e ouvidos nos noticiários e se convença que o mundo vai de mal a pior, notícia boa tem pouco Ibope! Isso não significa negar a escassa capacidade humana de harmonizar-se consigo mesma, com os outros, com o planeta. Mas o que nossos olhos veem não é tudo que existe, longe disso!

Estamos treinados a olhar para as árvores desfolhadas e percebê-las quase mortas, nos falta sensibilidade para sentir que dentro deles começa o rebuliço do próximo florescer. Estamos treinados para avaliar o quanto a temperatura está baixa e o tanto de frio que faz lá fora, mas nos falta a percepção do quanto podemos aquecer os corações em torno de uma mesa, junto a pessoas queridas, com um bom copo de vinho ou com um prato de sopa quentinho. Temos receio da própria tristeza, não nos damos conta do quanto senti-la é imprescindível para poder buscar a alegria.

Que Agosto nos ensine a aceitar que é preciso anoitecer para raiar um novo dia, que o escuro antecede a luz, que o frio dos ventos internos que nos cortam faz com que possamos reconhecer que o amor nos aquece. Amor próprio e pelo outro, pela natureza, pelas estações do ano. Sem recolhimento não há expansão, sem dor não há crescimento. Sem o tempo de preparação que o inverno propicia não haveria Primaveras; precisamos “invernar” para podermos também florescer!

Criatividade, vida e prazer

Vida é movimento, concorda? Tudo que está vivo pulsa, respira, cresce, expande, manifesta-se. Quando somos jovens sabemos bem disso, os jovens movimentam-se até não poder mais, o dia é curto (e a noite também…) para tudo o que se quer fazer, peca-se pelo excesso. Excesso de atividades, compromissos, ideias, desejos, criações, encontros, sonhos, tudo que nos liga à vida transborda, quanto mais, melhor. É claro que há muita energia disponível nessa fase, e ela é o combustível para alimentar tantos movimentos.

Como costuma-se dizer, envelhecer é inevitável, mas ficar velho é opcional. Infelizmente, dentro desta estrutura de sociedade na qual vivemos, não há suficiente conscientização da necessidade de ressignificar a vida com a passagem dos anos. Vivemos como se fôssemos imortais, procrastinar virou hábito, deixamos tudo para um dia que nunca chega. E mal percebemos que, de tanto adiar a própria vida, nossos movimentos tornam-se mais lentos e escassos, tanto os internos como os externos.

É preciso estar atento para não permitir que nossos conceitos e percepções se cristalizem, para não entrarmos na zona de conforto e lá estacionarmos para todo o sempre. Ficar velho é escorregar no tempo e mergulhar no poço das certezas e das limitações; as primeiras impedem o aprendizado, as segundas nos convencem que não somos capazes de fazê-lo.

Meditating At Home

Permanecer jovem implica em flexibilidade, abertura, criatividade, ação. É trabalhoso porque demanda desplugar-se do passado e ater-se ao momento presente, na busca incessante dos recursos que estão adormecidos dentro de nós, das potencialidades que permanecem virgens ou foram pouco exploradas, das realizações que nos negamos e das vivências que roubamos de nós mesmos sob pretextos diversos. Certamente, ao dobrar a curva do meio século de vida, não podemos reeditar tudo que fizemos ou que gostaríamos de ter feito nos primeiros 30 anos de existência, porque há um tempo para todas as coisas acontecerem. A questão não é voltar ao passado, seja para lembrá-lo com saudades, seja para lamentar o que deixamos de fazer. A questão é ter a coragem de mergulhar em si mesmo e descobrir o que desejamos agora, sim, porque o desejo permanece, a vontade permanece, o apetite pela vida não diminui com a idade. Se isso ocorre significa que nos deixamos convencer de que a vida só acontece em uma determinada fase da jornada sobre esse planeta, o que não é absolutamente verdade.

Quanto mais vivemos conscientes dos processos que atravessamos, mais nos tornamos inteiros para buscar a vida na sua inteireza também, na sua diversidade, complexidade e beleza. A ampliação da percepção e da consciência nos coloca em vantagem, porque nos torna capazes de intuir o que os olhos não veem, o que não consta da descrição do mundo mas está impregnado na sua alma e na nossa. Isso abre a possibilidade de escolhas mais verdadeiras, de assertividade nos movimentos, de determinação porque temos um prazo para vivenciar o que desejamos, e agora nos apropriamos disso.

Teoricamente temos menos tempo para viver do que já tivemos, mas se soubermos lidar com ele de maneira diferente, teremos a oportunidade de vivê-lo como jamais fizemos, com arte, com graça, com sabedoria, com vivencias profundas e transformadoras, nos permitindo as alegrias, grandes e pequenas, que a intensidade da juventude nos impediu de saborear!

Amigas

Tivemos nesta semana a celebração do dia do amigo, como se amigos precisassem de um dia especial para serem lembrados. Como canta Milton Nascimento, amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração… e acaso não é aí que os amigos moram?

Por estes dias reencontrei uma grande amiga do passado, não nos víamos há mais de vinte anos! Ela casou, mudou de cidade, perdemos o contato. Graças às redes sociais marcamos um almoço. Brincamos que colocaríamos um crachá para nos reconhecer, mas por mais que tivéssemos mudado fisicamente, nos reconhecemos. Conversamos como se tivéssemos nos visto na semana passada, como se tivéssemos convivido diariamente durante todo esse tempo que passou, e a razão é clara! Somos amigas, moramos no coração uma da outra.

Amizade é vínculo feito, laço dado, costura que o tempo não desfaz. Depois que acontece eterniza-se, se de fato for amizade. Uma alma mergulha na outra e a magia se faz presente. Neste mundão de meu Deus duas almas afins se cruzam, não por acaso, mas por sincronicidade, por relação de significado. É como se fios invisíveis nos conectassem com o outro e fôssemos atraídos para o encontro, e quando esse acontece, nos transformamos.

A vida ganha leveza, porque aprendemos a compartilhar; ganha cores que só o afeto é capaz de produzir. Quando atingimos a maturidade percebemos que a vida é circular, que as pessoas importantes voltam, seja na lembrança, seja nos reencontros, e já que trazemos os amigos dentro de nós, é impossível perdê-los.

Nós, mulheres, sabemos bem disso. Quando já percorremos metade do circulo, desenvolvemos um sentimento de irmandade com nossas amigas, estabelecemos parcerias livres de competição ou inveja. Nos tornamos aliadas, companheiras de risadas intermináveis e choros incontroláveis. Nos amparamos mutuamente, dividimos alegrias e dores. Sabemos pelo olhar ou pelo tom de voz como ela está, e aprendemos a respeitar seus humores, assim como nos sentimos respeitadas em nossas esquisitices.

Quando sentamos com as amigas em torno de uma mesa estamos revivendo a história de nossas ancestrais que reuniam-se em torno do fogo; ou de nossas avós que se reuniam na calçada das casas, contando estórias, trocando receitas, dando o ombro e abrindo o coração para ouvir e acolher a outra. Sentimos que a força do feminino desperta e se propaga, transforma-se em alimento que nutre a todas nós.

Benditos sejam os amigos e amigas que colhemos e acolhemos no decorrer da vida, que partilham conosco essa aventura, que se empatizam com nossa dor e se alegram com nossa alegria. Benditas sejam as mulheres que nos incentivam a nos tornarmos seres humanos melhores, que nos apontam nuances novas e diferentes das que somos capazes de perceber.

A todas elas, gratidão!