Encerrando a semana da Princesa

Vocês, que acompanham este blog, perceberam que esta semana escrevemos três textos que convergem para a mesma direção, embora abordando aspectos diferentes. A Escola de Princesas deu o que falar…

Não é para menos: as mulheres, ao longo da história da humanidade, travam uma luta sem trégua em busca de um lugar de equiparação em relação ao universo masculino. Um lugar de reconhecimento e aceitação das diferenças, afinal somos sim diferente dos homens. E ser diferente não implica em superioridade nem em inferioridade, implica apenas em não ser igual. A diferença vai desde a anatomia e constituição física até o funcionamento cerebral, ou seja, a maneira pela qual o cérebro de homens e mulheres processam a linguagem, as informações, as emoções, o conhecimento, etc.

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Na nossa cultura patriarcal e machista essas diferenças tendem a serem vistas como sintomas de inferioridade, o que nos coloca constantemente em situações de subserviência, seja no aspecto pessoal ou profissional. Vocês tem ideia de quantas mulheres foram queimadas em fogueiras na Idade Média? A “caça às bruxas” durou mais de quatro séculos!! E quem eram as “bruxas” em questão? Na maioria dos casos eram parteiras, enfermeiras e assistentes que possuíam vasto conhecimento a respeito da utilização de ervas medicinais na cura de doenças e epidemias e que, portanto, detinham um elevado poder social. Esse conhecimento era passado de geração a geração pelas mulheres da família. As bruxas foram resultado de uma campanha de terror provocada pela classe dominante, de tal maneira que muitas das mulheres acusadas acreditavam serem, de fato, bruxas e possuírem um pacto com o diabo, segundo nos contam alguns historiadores.

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Claro que estamos distantes da Idade Média, mas a história nos descortina uma realidade macabra e medonha! E não podemos negar que, até hoje, sobra um ranço disso tudo em quase todas as culturas, e que aqui no nosso país há diferenças salariais entre homens e mulheres que ocupam a mesma posição, há assédio sexual nos transportes públicos, há maníacos esparramados pelas ruas das cidades, há assédio moral de chefes para subalternas, há maridos que espancam as mulheres e assim por diante.

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Ou seja, não há príncipes nem princesas. Então, para que devemos educar nossas crianças? Ainda acredito que a melhor educação é aquela que ajuda cada ser a tornar-se aquilo que ele é, a extrair o melhor de si mesmo, a encontrar sua vocação e, através da realização nela pautada, encontrar a possibilidade de ser feliz, produtivo e generoso com toda a sociedade. Uma educação para a felicidade, onde a historia vivida possa ser escrita sem nenhum tipo de violação dos direitos e da dignidade que cada ser humano possui, independente do gênero, da preferencia sexual, da cor da pele, da religião, da conta bancária, e de tantas outras situações que nos fazem ser únicos e especiais.

Quando partimos uma laranja ao meio ficamos com dois pedaços separados, e se os juntarmos novamente, isso vai configurar uma laranja inteira. Até onde minha percepção alcança, sei que não somos fruta ou qualquer outra coisa que o valha para procurarmos pela nossa metade.

Somos indivíduos completos em si mesmo, ou, pelo menos, deveríamos pautar nossa busca em função dessa completude; assim sendo poderíamos encontrar um companheiro ou companheira que também fosse um ser humano em busca de si mesmo, e não do outro. Certamente nossas relações afetivas seriam mais saudáveis, as famílias seriam mais equilibradas e não precisaríamos nos preocupar em passar valores para nossos filhos, eles respirariam isso desde a primeira inspiração.

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Formar uma “princesa” pressupõe que ela deva esperar pela chegada do príncipe, e no afã de encontrá-lo pode se atrapalhar e acolher um sapo, e imaginá-lo príncipe. Mas um sapo continua sendo sapo, a despeito do desejo do outro.

Fernando Pessoa, além de ser um dos melhores poetas que já conhecemos, também foi extremamente feliz ao escrever em “Eros e Psique” a seguinte estrofe:

“E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.”
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Princesa ou Mulher Maravilha?

O mundo anda mesmo muito louco. De repente, resolvemos ressuscitar personagens da ficção e tratá-los como seres reais.

Depois de descobrir (espantadíssima) a existência de uma “Escola de Princesas”, leio a notícia de que a “Mulher Maravilha” foi nomeada embaixadora da ONU para promover os direitos das mulheres. Hein? Dá para repetir?

É isso mesmo. A personagem é a embaixadora honorária das Nações Unidas para a autodeterminação de mulheres e meninas, anunciou a Organização no dia 21 deste mês. A razão dessa escolha? A Mulher Maravilha representaria o empoderamento feminino, por ser forte, atuante, inteligente, poderosa…

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Foi uma boa escolha? Em que medida a Mulher Maravilha, de corpo irreal e poderes idem, representa o esforço e a luta por mais direitos e menos violações? Por que não uma mulher de carne e osso, como tantas que trabalham, cuidam da família, têm uma atuação importante no mundo? Mistério.

Do outro lado da moeda, temos uma escola que quer formar “princesas” e considera a virgindade como um “valor” a ser preservado. Mais uma vez, volto à mesma nota: não existe bem que provenha da ausência de escolha. Ser obrigada a “se guardar” para o príncipe, desconsiderando o próprio julgamento, é se exilar de si mesma. Nesse sentido, a garota não é mais dona do seu desejo, não possui mais seu corpo. Este passa a ser um bem a ser usufruído pelo futuro esposo. Medo!

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Será que estamos tão descrentes do mundo e das possibilidades das pessoas reais que resolvemos debandar para um universo paralelo? Por que a princesa ou a mulher com superpoderes? E se, na verdade, não estamos buscando uma “mitologia” que oriente a nossa vida, já que temos dentro de nós todos esses arquétipos femininos?

Somos, ao mesmo tempo, a heroína, que se supera para realizar seu ideal e vencer as adversidades; a princesa, que busca o verdadeiro amor e romance; a feiticeira, sensual e poderosa, detentora de poderes e mistérios; e finalmente, a mãe/curandeira que acolhe, reconforta, cuida, protege. Todas elas morando no mesmo corpo. Só que esse corpo não pode ser aprisionado e limitado a apenas um papel. Ser saudável é poder transitar por todos eles.

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Sapato de Princesa

Falando em princesas, já pensou em ter um sapatinho de cristal para chamar de seu? Porque, aparentemente, “toda garota sonha em ser princesa” – logo, ao crescermos e virarmos sapatólatras, não pode faltar esse icônico modelo em nosso armário.

E tem para todos os gostos pois os gigantes do shoe design criaram várias versões, olha só:

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Há muitos outros… Estes são: Jimmy Choo, Charlotte Olympia e Christian Louboutin, na sequência. Qual você escolheria? [preço médio: U$4.600]

Ok. Chega de brincadeira . Estes sapatos foram criados quando do lançamento do filme Cinderela, em 2015, e veja o que o site O Globo disse a respeito:

Para a Disney, a retomada de “Cinderela” é a uma estratégia arriscada num conto defasado de uma menina subserviente e infeliz salva pela magia e por um príncipe benevolente, em um país que clama cada vez mais por fortes lideranças femininas.

Não poderiam ter escrito com mais perfeição! Depois de tantos anos de lutas pela igualdade, pelo respeito, por deixar de ser tratada como mercadoria masculina, agora estamos novamente querendo nos espelhar nesse conto de fadas às avessas? Sim, porque “ser salva” não é algo que deveria nos atrair hoje. Atualmente deveríamos ambicionar independência, agilidade de movimento e de ação. E nada disso é possível nos equilibrando em saltos 12cm e estruturas que precisam de cuidados ao caminhar.

Hoje, sapato bom é sapato confortável. Sabia que pela primeira vez os calçados de salto baixo e médio estão vendendo mais que os de salto alto? As mulheres antenadas com Moda estão usando tênis, alpargatas baixinhas, sapatinhas, oxfords e slipper no dia a dia, só para citar alguns dos mais frequentes. Nada mais lógico: para caminharmos com nossos próprios pés e gerirmos nossas vidas conforme o que quisermos fazer, precisamos pisar em base sólida.

Esqueça o sapatinho de cristal. Esqueça a vida de princesa: é tudo uma balela, uma história que poderia fazer sentido no meio do século passado mas que hoje não tem cabimento. Pés no chão, garotas!

 

PS: E nesta quinta-feira, 03/nov, fecharemos o assunto com o post “Princesa ou Mulher Maravilha?”

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