O silêncio

Sempre fui uma pessoa notívaga, adoro dormir tarde, circular pela casa de madrugada, espiar pela janela a rua vazia, espichar o olho até o céu e procurar estrelas; mas principalmente, gosto do silêncio.

Cada som que ouvimos é um estímulo, e a junção deles todos no decorrer do dia produz um barulho ensandecido, como se fosse um cruzamento de impulsos dissonantes que nos levam a um estado constante de stress. Nas cidades já estamos tão acostumados a ele que mal nos damos conta de sua presença; o incorporamos na nossa vida como fazendo parte de nós. Entretanto, isso não significa que ficamos imune aos seus efeitos, muito pelo contrário.

A dificuldade na concentração, a sensação de permanente cansaço, a intolerância frente a coisas tão pequenas, a respiração curta, a musculatura rígida e tantos outros indícios de que estamos sob stress se fazem presentes no nosso cotidiano. Os barulhos internos e externos nos bombardeiam numa batalha sem fim.

Mas, na medida em que a noite avança e as luzes de nossas casas se apagam, um som diferente surge e nos envolve, o silêncio! Isso me remete à histórica apresentação de Simon and Garfunkel no Central Park , na década de 80, cantando “The sound of silence”.

O silêncio é uma trégua, um momento precioso onde as manifestações do mundo externo parecem cessar. Me transporta a um lugar sagrado dentro de mim, um vale tranquilo cortado por um riacho, onde me sinto alforriada das amarras que me mantem refém de um mundo apressado e barulhento.

Mas o silêncio, para ser benção, precisa vir principalmente de dentro. Nossos pensamentos parecem gralhas, são incessantes e repetitivos; nos inundam feito água de enxurrada, vão tirando tudo do lugar, incitam emoções e vícios, preocupações e cismas.

Silenciar os pensamentos é abrir uma porta para outro mundo, é a possibilidade de entrar em contato com um universo diferente, muito mais amplo e mágico. O lugar onde habita quem de fato somos, a alma que pulsa para muito além do racional e do concreto, dos zumbidos e das limitações desta suposta realidade.

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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