Outono

Nos últimos dias, não por mera coincidência mas por pura sincronicidade, li algumas entrevistas sobre pessoas idosas, prá lá dos 90, saudáveis e joviais, que realizam-se fazendo alguma atividade que iniciaram por volta dos 50 anos. Não sei se viram um senhor italiano de 100 anos que começou a esquiar aos 48 e continua fazendo isso até hoje, com menos destreza mas com muito mais alegria. Quando eu vejo pessoas como essas derrubando preconceitos em relação à idade, meu coração pula no peito.

O percurso trilhado pela humanidade é uma história de domesticação. Desde o nascimento herdamos um pacote considerável de crenças e pressupostos sobre nossa vida neste planeta. Aprendemos que somos seres humanos restritos e limitados, que nossa existência pressupõe a correspondência às expectativas que sobre nós foram depositadas, que devemos obedecer às regras e seguir as convenções, e que precisamos nos comportar de tal maneira que nos mantenha na média ou na normalidade.

E dentro desse conjunto de crendices há uma que está sendo colocada em cheque agora, a de que as pessoas devem conformar-se com o processo de envelhecimento e retirar-se do mundo da ação, recolhendo-se ao isolamento de suas velhices. Como se, de fato, o mundo fosse dos jovens, e aos mais velhos só coubesse a retirada silenciosa.

Esse pressuposto é extremamente cruel, uma vez que sabota a alegria de viver e as perspectivas de felicidade daqueles que já viveram mais. Parece até que, justamente por isso, devem abdicar de seus direitos e aguardar o momento de deixar este mundo cochilando em uma cadeira de balanço e renunciando aos prazeres de maneira geral.

Na verdade, precisamos nos preparar para não nos tornarmos velhos. É claro que envelhecemos, o tempo passa e deixa marcas tanto no corpo físico quanto nos corpos emocional e mental, não é a isso que me refiro. Envelhecer é um processo natural, mas tornar-se velho é uma escolha infeliz. E quando nos tornamos velhos? Quando deixamos de sonhar, ou quando trocamos os sonhos de vida pelos sonhos de morte.

Aos 50 estamos vivenciando a estação do outono, momento da troca de folhas, momento de deixar ir embora o que já não nos serve mais. Mas também este é o momento de buscar novos alimentos que nos permitam atravessar o inverno agasalhados e saciados. Precisamos buscar o que a alma pede, pouco importa a opinião dos outros sobre isso, ou o seu julgamento. Há quem considere esse senhor que mencionei no inicio um louco, por continuar fazendo o que gosta a despeito dos seus 100 anos, mas e daí? Que cada um julgue de acordo com o tamanho daquilo que sonha, isso pouco importa.

O que importa mesmo é a busca da felicidade a cada ciclo de vida, e como nós mudamos, o que se busca também muda. Se antes precisávamos de reconhecimento e aprovação, agora podemos nos permitir prescindir disso, e ouvir mais o próprio coração. Já aprendemos que somos muito mais do que aparentamos ser, e que trazemos em nós a chama do espirito imortal.

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