Cabo de Guerra

Você já deve ter ouvido essa expressão, se é que não brincou disso com a turminha de amigos. Pega-se uma corda, cada um vai para uma ponta e, com as duas mãos, puxa a corda para seu lado. A corda estica até que um dos dois a largue e geralmente caia no chão; o vencedor fica em pé com a corda na mão.

Parece divertido? Deve ser, para crianças.

Mas, e quando os adultos resolvem fazer cabo de guerra munidos de certezas absolutas? Bem, aí o jogo deixa de ser jogo e deixa de ser divertido, e torna-se uma arma perigosa que coloca uns contra os outros e cutuca o selvagem que habita em nós.

No dia 28 deste mês tivemos a “greve geral”, e o que vimos não apenas no noticiário da TV, mas principalmente nas redes sociais, foi uma demonstração de irracionalidade, guardando-se poucas exceções.

Vamos para o óbvio, sempre tão difícil de ser reconhecido.

Cada indivíduo tem uma maneira de olhar o mundo e interpretá-lo; cada indivíduo tem um conjunto de crenças que funcionam como alicerce para o desenvolvimento de seu comportamento. Partindo do pressuposto que a percepção é seletiva, e que essa parte que percebemos não pode ser separada de nossa subjetividade, parece evidente que nenhum de nós é proprietário da verdade. Ela, em sua concepção genuína, é tão complexa e intrincada que só conseguimos vislumbrá-la em pequenas partes. É como se tivéssemos diante de nós um quebra-cabeça de não sei quantas mil peças, impossível de ser montado sozinho. O que conseguimos fazer é focar algum pedacinho e buscar as peças que encaixem, enquanto outros escolhem outro pedacinho, e no final juntamos tudo para ter uma ideia do que se apresenta como figura.

Mas não é isso que vemos quando as pessoas assumem posições extremadas, seja para a direita, seja para a esquerda, e são tomadas por um tipo de fanatismo que bloqueia a capacidade em discernir, raciocinar, ponderar, respeitar!!! Aderir à greve é um direito, não aderir também é! Bloquear estradas, queimar pneus, interditar ruas, intimidar as pessoas que pensam diferente é uma afronta à democracia. É uma violência contra o direito de cada um de nós de ir e vir, fazer suas escolhas, é um atentado contra a liberdade. Ofender e julgar pelo facebook ou whasapp, ou qualquer outra rede social, também é um viés típico de tiranos e inconsequentes.

Vamos pensar, que sociedade queremos construir? Uma sociedade rachada ao meio, que briga entre si para fazer prevalecer um tipo único de pensamento? E ainda o defende como quem está sendo o guardião da verdade? Que verdade, cara pálida??

Às vezes acredito que estamos na Pré Escola da conscientização; defendemos pessoas enquanto personalidade e não ideias. Não respeitamos a nós mesmos quando nos expomos ao ridículo e abrimos a porta para que o homem da caverna ressurja das cinzas e avance sobre os outros emitindo sons guturais. E, claro, muito menos respeitamos o outro.

Que tal pensar na possibilidade do caminho do meio, o caminho da síntese, da harmonização dos opostos? O caminho do equilíbrio está aí, a nossa inteira disposição.

Para trilhá-lo é necessário consentir na morte de facetas variadas no nosso ego, desapegar dele, ter a humildade para reconhecer que não somos os detentores da verdade, e que precisamos uns dos outros para construir um modelo de mundo mais justo e harmônico.

Escolha com o Coração!

Qual é a vantagem de estabelecer metas que não trazem brilho para os olhos? Às vezes, estamos tão fixados em conquistas que são estabelecidas pela sociedade que nos esquecemos do que realmente importa: saber porque se levantar de manhã. ter alegria de viver, existir e se expressar a partir de sua própria verdade.

As palavras de Carlos Castaneda expressam isso de forma contundente e poética.

“Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para ou outros- abandoná-lo quando assim ordena o seu coração. Olhe cada caminho com cuidado e atenção, tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias… Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo, uma pergunta: Possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma.”
(Don Juan – Carlos Castaneda)

Assim, diante de uma escolha, faça a pergunta mágica: Possui esse caminho um coração? A resposta pode mudar sua vida.

Baleia Azul e afins

Vamos combinar que não é nada fácil ser criança ou adolescente nos dias de hoje; na época em que eu tinha os meus 13, 14 anos, os grandes desafios eram do meu tamanho. Não vou enumerar aqui 50 deles, seria aborrecido, mas posso citar alguns, e aposto que vocês vão esboçar um sorriso que denuncia lembranças de vivências similares…

Procurar informações para o trabalho pedido pelo professor era tarefa para os fortes! Afinal, isso implicava em descer da estante vários volumes da Barsa ou da Delta Larousse, geralmente cheios de pó, e entre um espirro e outro procurávamos desajeitadamente a informação desejada. Depois tínhamos que transcrevê-la, a enciclopédia não possuía teclas onde fosse possível copiar e colar. Mas a parte mais gostosa era juntar o grupo para finalizar o trabalho; sem internet, skype, whatsapp, tínhamos que nos reunir fisicamente na casa de alguém, e passávamos a tarde entre risadas e a realização da tarefa, sempre acompanhada de um bom lanchinho oferecido pelo anfitrião.

Outro desafio difícil era convencer os pais a nos deixar ir para aquele bailinho de fim de tarde no clube, mais conhecido como mingau. Quando conseguíamos a alforria, ganhávamos o céu (claro, com todos os seus supostos querubins). Mas se a permissão viesse em cima da hora, mergulhávamos em outro desafio quase insuperável: alisar o cabelo sem chapinha! E lá íamos nós para defronte do espelho com um pente de cabo, uma escova e uma caixa de grampos, e num instante a “touca” já estava feita; depois, com o tempo cronometrado, virávamos o cabelo para o lado oposto, de modo que ao soltá-lo os dois lados pudessem ficar no mínimo parecidos, igualmente lisos.

Tínhamos que nos especializar em desenvolver a imaginação, pois precisávamos dela para levar adiante todas as paixões platônicas. Também precisávamos dar cabo de todas as espinhas do rosto, ter criatividade para fazer diferentes combinações com as peças do armário para parecer roupa nova, arrumar desculpas para escapar para a casa da amiga no meio da semana. E o desafio de ir ao cinema assistir “O Exorcista” e ficar sem conseguir dormir por muitos dias, com a luz do quarto acesa e a bronca da mãe dizendo: eu bem que te avisei para não ver essa porcaria!

Evidente que havia outros desafios, como o medo de enfrentar o crescimento e a vida, de não conseguir fazer escolhas acertadas, de não sentir-se suficientemente amado. Esses, desafiam o próprio tempo, passam de geração a geração, são comuns à raça humana, difíceis de serem transpostos. Arrisco um palpite que eles não nos abandonam, nem quando nos tornamos mais velhos; diminuem de tamanho e intensidade, mas sua sombra nos espreita.

Por alguma razão, não nos desesperávamos tanto frente a evidência de ter chegado a hora de crescer. Talvez porque pudemos esgotar a infância, aproveitá-la por inteiro, com direito de não fazer nada no tempo livre, e havia tempo livre. Pudemos fantasiar, desejar um montão de coisas, olhar para o teto, ouvir música, estar com os amigos face to face. Pudemos abraçá-los assim como fomos abraçados por nossos pais, não muito talvez, mas o suficiente. Pais que não estavam conectados à noite em nenhum lugar virtual fora de casa. Estavam com a gente, no sofá assistindo a TV da sala, sentados junto de nós. Podia não haver muito diálogo, e isso fazia falta; mas havia presença, cheiros, olhares atentos que percebiam quando estávamos esquisitos, e não nos deixavam em paz até descobrirem o porque.

É assustador e profundamente triste a constatação que o suicídio vem aumentando entre a população jovem, e que nós não pudemos dar a eles alguma coisa que recebemos da nossa família e que nos ajudou a enfrentar a tempestade da adolescência e sobreviver a ela. Não é o jogo Baleia Azul, ou a série da Netflix que leva os jovens a pensarem na morte, é a ausência de vida!

Nossa sociedade está tão adoecida que abre espaço para que esse jogo aconteça, e empurre para dentro do abismo aqueles que já estão caminhando nas suas bordas. Onde estávamos que não vimos isso.

Que olhar vazado lançamos sobre nossos filhos a ponto deles não poderem ver sua imagem refletida? Onde estávamos quando eles começaram a perambular pelo abismo?

MAC – Museu de Arte Contemporânea

Que tal aproveitar o feriado para conhecer o MAC, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo?

Localizado no Ibirapuera, o prédio que antes abrigava o Detran ganhou novos ares e é agora bem iluminado e agradável. O museu tem um acervo de cerca de 12.000 obras, é gratuito e tem estacionamento. Um programa bem interessante.

São 8 andares. A vista panorâmica é imperdível. Belíssima. Se gosta de fotografar, venha preparado.

O 7° andar abriga obras de artistas modernos (entre 1950 e 1990) como Kandinsky, Matisse, Braque, Victor Brecheret, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Modigliani, entre outros. Já o 6° andar tem obras mais conceituais. Passei rapidinho por elas pois pouca coisa me chamou a atenção. Mas, como gosto não se discute, cada um vai apreciar os trabalhos de acordo com sua própria sensibilidade. Há ainda exposições temporárias.

O que falta: um restaurante e uma loja (aodoooooro lojas de museu!). No momento uma Cafeteria está sendo montada. É sempre bom dar uma paradinha no meio da visita, para retomá-la com ânimo renovado.

Ah! Adorei o gato ENORME que fica no térreo e que ronrona. Enfim, um passeio super gostoso. Vantagem adicional: pouca gente circulando. Se você é como eu, e gosta de muito espaço e nenhuma aglomeração, fica a dica. Gostei muito!