Do caos à criação

Eu gosto de dividir com vocês os meus conflitos na hora de sentar e escrever o texto para esse blog, e sempre tenho vários. O conflito de hoje é escrever ou não sobre o tema que inundou a semana, e no qual estamos todos mergulhados.

Eu compartilho da crença de que alimentamos tudo que está onde colocamos nossa atenção, e que, portanto, precisamos ser cuidadosos para não alimentar o que não desejamos para nosso mundo. Desgraça atrai desgraça, já dizia minha avó, ou, em outra linguagem, pensamentos são frequências energéticas que plasmam a realidade externa.

Por outro lado, não dá para bancar a Poliana e ignorar o que está acontecendo no nosso país, então vamos lá buscar uma reflexão que agregue coisas positivas neste momento tão conturbado. O que mais ouvimos e repetimos nesses últimos dias é que mergulhamos no caos, no mar de lama, e não pude deixar de associar a tragédia de Mariana como um prenúncio simbólico do que estava por vir: a barragem rompeu e toda a lama veio para cima de nós e ameaça a nossa existência moral, ética, econômica e social.

Pois bem, resolvi fuçar a origem da palavra caos, uma vez que dela só tinha vaga ideia. Para isso me reportei até a mitologia grega e constatei que Caos foi considerado por Hesíodo como a primeira divindade a surgir no Universo, tendo sido, portanto, o mais velho dos Deuses, também conhecidos como Deuses Primordiais, e representava a desordem inicial do mundo. No principio só havia ele, um ser solitário que de forma assexuada gerou os filhos.

Segundo a mitologia, Kháos, Gaia e Éros eram três forças primordiais que surgiram de maneira autônoma e a partir das quais constituiu-se o mundo. Vou reproduzir um trecho que a meu ver é muito revelador:

“No princípio era o caos. Na origem de tudo, há o Abismo, Kháos para os gregos. Caos é a personificação do vazio primordial, anterior à criação, no tempo em que a ordem ainda não havia sido imposta aos elementos do mundo (…). Portanto, na mitologia grega, o estado primordial do mundo é apenas esse Caos, abismo cego, noturno, ilimitado, que evoca uma espécie de névoa opaca em que todas as fronteiras perdem nitidez. Mas Caos, divindade rudimentar, é também capaz de fecundidade. A palavra caos pode ser definida, filosoficamente, como vazio obscuro, profundidade insondável que precede e propicia a geração do mundo.”

A mitologia é uma ferramenta belíssima que nos ajuda a compreender a origem do homem e do mundo, e através dos símbolos nos mostram a realidade contada por suas histórias sagradas.

A manifestação do Brasil que queremos para todos nós e para os que virão depois de nós ainda está por acontecer. Talvez (ou certamente) tenhamos vivido no caos, na desordem, desde os primórdios do descobrimento. A corrupção atávica à realidade brasileira é a névoa opaca em que todas as fronteiras perdem a nitidez, e, os que a praticam agem como se não houvesse fronteiras, e para eles não há. Cabe a nós, como sociedade, restabelecer os limites entre o aceitável e o inadmissível, demarcar os territórios da moral, da ética, da honra, do respeito, da justiça, da ordem e do progresso.

Mas para isso teremos que agir como sociedade, muito além de partidos e ideologias de direita e esquerda. Nos deixamos enganar por todos eles, ladrões que formam uma única quadrilha, e que incitam em nós a divisão, porque divididos perdemos força e unidade.

Enquanto brigamos entre nós pelas redes sociais, nos cutucamos e nos provocamos, eles, que não são nem de direita nem de esquerda, reeditam a história de Ali Babá e os quarenta ladrões, em uma progressão geométrica e assustadora.

Que possamos olhar para este momento como portador da semente de um novo país, de uma nova maneira de fazer política, de uma nova sociedade que se liberta de seus falsos ídolos e suas personalidades cindidas e perversas.

A mudança que queremos ver no mundo está em nós, vamos mudar para que o país também mude!                                                                                                                                                

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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