Viva a Bagunça!

Em tempos de Marie Kondo, a vida andava difícil para o desorganizados de plantão. A autora do best seller internacional que preconiza a “magia da arrumação” e que nos ensina ter apenas o que “nos traz alegria” e manter a casa impecavelmente arrumada teve seu método difundido pelo mundo inteiro e conquistou uma legião de seguidores. Alguns deles, até um pouco radicais.

O japonês Fumio Sasaki autor do livro “Goodbye, Things: The New Japanese Minimalism” declara que sua vida melhorou muito depois que doou 90% de seus pertences. Ele mora em um apartamento em Tóquio onde vive alegremente com 150 objetos no total. (!!!!!)

Mas, como fica a vida de quem curte uma baguncinha, de quem gosta (secretamente) de ter quarto desarrumado ou até virado de cabeça para baixo?

Pois bem, desorganizados crônicos, bagunceiros patenteados, gênios da baderna, adolescentes enlouquecedores de mães, o vento mudou!
Felizmente para essa tribo de seres excluídos do mundo perfeitamente organizado, surgiu um livro que está alcançando o maior sucesso nos Estados Unidos: “Messy: The Power of Disorder to Transform Our Lives” (Riverhead Books).

Nele, o economista britânico Tim Harford defende “o direito à desordem no espaço pessoal”.
Segundo Harford, a falta de organização seria um “dom” e revelaria a capacidade de adaptação a novos contextos, um fluxo contínuo de criatividade. Palavras doces para quando nos encontramos em um escritório pleno de “desordem criativa”.

Seu sucesso é a prova que no mundo há sempre um pouco de tudo e que não há “bom ou mau”, “certo ou errado” absolutos e que todas as pessoas, com suas características individuais, querem o reconhecimento do mérito de suas escolhas e o respeito à forma como decidem existir.

Assim, como sempre, fica mais uma vez evidente que não há regras exatas para o bem-viver. Viva a organização ou viva a bagunça, pois a jornada de cada um é única e a aventura pessoal é inegociável. Ufa! Ainda bem!

Fonte: Madame LeFigaro.Fr aqui e aqui


Se eu fosse eu…

Começo roubando o título do texto de Clarice Lispector (sim, é dela mesmo, não é algum erro ao estilo Facebook) para pensar sobre a vida.

Se eu fosse eu, o que faria? Porque a vida é tão curta, tão frágil, e no dia a dia nos esquecemos disso.

A fragilidade só é lembrada quando alguém que conhecemos e queremos bem morre de repente. Aí passamos uns dias perplexos com sua finitude. Mas logo esquecemos e voltamos a nos sentir imortais.

Porque o acidente de carro só acontece com o outro. Assim como o sequestro relâmpago ou assalto. E o câncer. “O Outro” é uma entidade que está fora de nós e que absorve tudo que há de mal no mundo.

Outra forma de ver é que a vida é somente uma viagem. Que tal aproveitá-la em sua extensão toda e não só nos shows pirotécnicos? Todos os dias são importantes, não somente o grande evento aguardado.

E a frase que mais fala comigo: Na vida não há ensaio…

E é por isso que me pergunto: se eu fosse eu, o que faria?

Quando eu não sei onde guardei um papel…

“Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.”   

Clarice Lispector