Sobre asas e voos

Há um mês não escrevo para este blog, estive ausente, viajando. Não foi uma viagem comum, dessas que amiúde fazemos; para mim foi uma viagem muito especial, e sabem por que? Porque me dei de presente a possibilidade de estar feliz. Mas todo presente tem um preço, e com este não foi diferente. Não vou generalizar dizendo que quanto melhor o presente, mais ele custa. Entretanto sabemos que, via de regra, coisas valiosas custam caro.

O preço a que me refiro não se restringe ao aspecto econômico; no caso da minha viagem esse aspecto teve uma representação significativa, mas certamente não a mais importante. Para adquirirmos alguma coisa precisamos desembolsar outras coisas. Se você resolver trocar o sofá de sua casa, por exemplo, não basta apenas ter o dinheiro; na verdade, muitas vezes nem o temos em sua totalidade, e damos um jeito de parcelar o valor, economizar em outras coisas e por aí vai; o processo vai muito além disso.

Você precisa perceber que existe a possibilidade de fazer uma mudança, embora aquele sofá antigo ainda te sirva; depois ou simultaneamente você precisa desejar o novo sofá, criar uma motivação que te fará movimentar-se de encontro a ele. Precisa também silenciar o lado racional que vai tentar te convencer de que essa aquisição não é importante, que talvez você pudesse guardar esse valor que vai desembolsar para uma emergência, afinal imprevistos acontecem. E que também corre-se o risco de alguma coisa não dar certo, do sofá novo ficar esquisito dentro da sala, de ser menos confortável do que aquele do qual você pretende desvencilhar-se, e etc., etc., etc.

É claro que não estou escrevendo nem sobre sofás nem sobre a minha viagem, já que ela é uma experiência pessoal; estou escrevendo sobre relembrar que temos asas, e que asas servem para nos fazer voar. No início da vida, quando éramos crianças e ainda não havíamos sido domesticados no medo, fazíamos todo tipo de experimentações possível, nos atirávamos no mundo, fascinados pela grandeza e diversidade de tudo. Fomos crescendo e continuamos a experimentar: é só recuperar na memória o período da adolescência e início da vida adulta que não faltarão exemplos.

Mas o que acontece conosco quando nos tornamos pessoas “maduras”? Por que cargas d’água recolhemos as asas e fazemos de conta que não as temos mais? Por que o mundo torna-se tão chato, e nosso universo tão restrito? Certamente essa não é uma condição imposta pela suposta maturidade, claro que não! Isso é fruto da descrença na força da vida que habita em nós, da nossa capacidade de voltar a levantar voo toda vez em que nos permitirmos sonhar com isso, toda vez em que decidirmos imobilizar o medo, ao invés de permanecermos imobilizados por ele.

E quando levantamos voo, apesar da instabilidade inicial, despertamos o encantamento adormecido e a alegria que já sentimos e nem nos lembrávamos mais. E o mundo visto lá de cima torna-se amplo, a perder-se de vista, tão fascinante e convidativo que dá até vontade de alcançar a linha do horizonte só para espreguiçar-se sobre ela, despretensiosamente, e esperar o sol se pôr já sonhando com o novo céu repleto de estrelas…

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

1 pensamento em “Sobre asas e voos”

  1. Amei o enfoque do texto. Precisamos mesmo ter mais coragem para voar. Silenciar o lado racional é o mais difícil. Como a razão quer sempre falar mais alto!!! Parabéns, Ana. Não conhecia o lado escritora dessas amigas surpreendentes!! Feliz por poder compartilhar com vocês momentos preciosos.

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