A moça e o juiz

Geralmente eu escrevo o texto para esse blog às sextas-feiras, mas desta vez não consegui. Sentei em frente ao notebook, comecei várias vezes e nada ia para frente; queria escrever alguma coisa que fosse leve, alegre… talvez falar sobre a chegada de Setembro e o prenúncio da Primavera, o florir das árvores, o renascimento da vida depois do tempo de hibernação. Mas na minha cabeça eu pensava na moça do ônibus, e resolvi deixar o texto de lado.

Hoje, sábado, voltei para o notebook, quem sabe a inspiração aparece, afinal é outro dia! Mas advinhem quem surgiu novamente? Ela mesma, a moça do ônibus. Imaginei-a sentada distraída, absorta em seus pensamentos. No que será que pensava? Talvez no que faria assim que descesse no ponto. Talvez estivesse preocupada com os rumos que a vida ia tomando. Talvez sonhasse de olhos abertos, ou apenas cochilava embalada pelo balanço do ônibus. Será que demorou para entender o que tinha acontecido?

Imagino-a perplexa, sem saber o que fazer. O asco, o nojo, a humilhação, o constrangimento. Mas depois lembrei que o juiz relaxou a prisão do sujeito por entender que não houve constrangimento. Fui até o dicionário e procurei o significado dessa palavra, e então percebi que o juiz não lê dicionário, tenho certeza disso, sabem por que? Porque lá está escrito que constrangimento é violência física ou moral exercida contra alguém, situação moralmente desconfortável, embaraço, vergonha, vexame. Definitivamente, o juiz em questão não consulta dicionários!

O juiz em questão fez uma leitura literal da lei, entendeu que o sujeito havia cometido apenas uma contravenção penal e o deixou em liberdade. E livre, sem o amparo da justiça para protegê-lo de si mesmo e proteger a sociedade, o sujeito repete o ataque quatro dias depois, acabei de ler essa noticia. Faz a mesma coisa com outra mulher, passageira de outro ônibus.

Imagino como a primeira moça sentiu-se quando o sujeito foi posto em liberdade, e como deve ter revivido a cena hoje quando ele fez outra vitima! E essa outra moça, como está se sentindo? O que a justiça não sabe é que essa dor não é mais só delas, essa é uma dor de todas nós, mulheres que lutam para viver com dignidade, respeito e direitos.

Direito de existir, de ser, de fazer. Direito de ir e vir, de usar decote ou roupa fechada, saia curta ou longa, cabelo preto, castanho, loiro, azul, verde. Direito de andar na rua sozinha ou acompanhada, de sentar-se no banco do ônibus, do carro, da praça, do bar, e não ser molestada, desrespeitada, agredida por atos, palavras, gestos, olhares, omissões.

Se a mulher fosse o sexo frágil não teria sobrevivido à própria historia, tal a sombra da violência que paira sobre nós! Mas não somos frágeis, muito pelo contrário! E vamos continuar vivendo, amando, estudando, trabalhando, produzindo apesar de todos aqueles que ainda nos subjulgam, sejam esses ignorantes ou doutores, doentes ou insensíveis, pouco importa. Assim como nossas ancestrais que foram queimadas nas fogueiras da Inquisição abriram caminho para que hoje estivéssemos aqui, também continuamos lutando para que nossas predecessoras encontrem um mundo onde seja mais justo viver!