Avanços e retrocessos

Que a vida é feita de ciclos todos nós sabemos, que a humanidade movimenta-se para frente e para trás, também. Avançamos e recuamos, conquistamos e perdemos, no eterno jogo entre ganhar a liberdade e retornar à escravidão. Mas ultimamente estamos mais para siri do que pra gaivota… parece que olhamos pelo retrovisor, engatamos uma ré e decidimos voltar ao tempo do preconceito. Não que de fato tivéssemos saído dele, mas parecia que estávamos ao menos caminhando na superfície, e agora resolvemos mergulhar.

Que mergulho vergonhoso! O que será que estamos buscando com isso? Há quem peça a cura gay, a volta da ditadura, há quem incendeie templos religiosos de origem africana, há quem vote a favor do ensino religioso (de uma única religião) nas escolas públicas. Há quem persiga e agrida mulheres, homossexuais e negros, há quem acredite na supremacia da raça branca. Há quem defenda fronteiras como se fosse o dono daquele pedaço de mundo, há quem considere que o bem mora de um lado e o mal mora do outro, e que devemos dividir o planeta entre os que servem e os que são servidos.

Fala sério, o que está acontecendo conosco enquanto humanidade? Resolvemos revisitar a Idade Média e reeditar suas barbáries? Caminhamos tão orgulhosos dos nossos avanços tecnológicos, fomos à Lua e mandamos uma sonda até Saturno, temos fotografias incríveis do Sistema Solar, descobrimos a cura de várias doenças, desenvolvemos vacinas, mas fomos incapazes de remir o preconceito, que sempre nos remete à idade das trevas.

O preconceito é separatista, trabalha a favor da desintegração, faz com que as pessoas se achem na condição de julgar seus semelhantes quando esses não são tão semelhantes assim, ou seja, quando apresentam diferenças em relação ao modelo vigente. Fomenta a desigualdade, distorce a realidade, é laboratório para o ódio e a violência. Condena e pune grande número de pessoas por razões étnicas, religiosas, de gênero, sociais. É irracional, cruel e fatal.

Enquanto não pudermos compreender que o avanço da humanidade e seu progresso está intrinsicamente relacionado com a evolução de consciência de cada ser humano, vamos continuar patinando sobre a superfície lisa da ignorância. Não adianta erguer uma sociedade sob o aspecto da forma se não houver um alicerce que garanta sua estrutura interna.

O crescimento do preconceito traz junto de si o crescimento de grupos de pessoas que se auto intitulam guardiões da moral e dos costumes, fiscais da vida alheia, que em nome de defenderem o que consideram a “ideologia correta”, se permitem transgressões mais perigosas e nefastas do que aquelas que condenam.

Assim como o espelho de casa reflete a imagem do nosso corpo, a auto- observação reflete a imagem do que somos, sentimos, pensamos e trazemos dentro de nós, quase como se fosse o espelho da alma. Que possamos usá-la a serviço do auto conhecimento e nos darmos conta que nada nos faz melhores do que o outro, seja ele parecido ou diferente de nós. Que atire a primeira pedra aquele que de fato for um ser humano íntegro!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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