Jogo rápido

A vida é jogo rápido, estamos aqui e, de repente, não estamos mais. Aparecemos e desaparecemos em um piscar de olhos, muitas vezes sem aviso prévio ou explicações plausíveis; estamos no meio de uma atividade e somos retirados da cena, simples assim.

As justificativas? Aneurisma, ataque cardíaco, bala perdida ou endereçada, acidente, e por aí vai. O fato é que não sabemos a data do bilhete de partida e agimos como se fôssemos permanecer encarnados nesse corpinho por séculos!

Que essa ilusão permeie nossa existência enquanto somos jovens é compreensível, afinal quando se tem 18 anos, a sensação é de uma estrada sem fim pela frente, e o sentimento de onipotência é largo, vamos mudar o mundo e temos todo tempo do mundo para fazer isso. Mas, passada essa fase, e todos nós sabemos que ela passa rápido, a ficha precisa cair.

Postergar as realizações e prazeres é como jogar água para fora da bacia, é preciso entender que cada dia neste planeta lindo é precioso, e que merecemos aproveitá-lo com vontade. Já vivemos meio século, experimentamos de tudo um pouco. Enfrentamos desafios de tamanhos e intensidade variados, nos viramos de todas as maneiras possíveis para “ganhar a vida”, nos lotamos de deveres e obrigações, nos responsabilizamos e nos cobramos por um monte de coisas, e sonhamos que um dia curtiríamos a vida sem pressa.

Pois bem, parece que o tempo de fazer isso é agora, afinal os primeiros 50 anos já se passaram… Mas essa é uma mudança importante, que requer muitas outras mudanças para, de fato, acontecer. Implica em olhar para nós mesmos de um jeito diferente e dimensionar o tempo de outra forma. Implica em rever prioridades, reformular conceitos, perdoar-se e colocar-se como merecedor do prazer. Falando nisso, é preciso procurar por ele no final da lista e trazê-lo para encabeçá-la.

Implica em sair do piloto automático e dirigir a própria vida, em questionar-se sobre o que se deseja a cada momento. Escolher o que se quer comer, beber, vestir; o que queremos e o que não queremos mais ouvir, com quem queremos nos relacionar e de quem precisamos criar saudável distância. Implica em trocar obrigações por concessões, abaixar o volume do coro interno que repete a ladainha da culpa.

Parece difícil? Mas não é, talvez seja apenas um pouco trabalhoso. Esta sexta eu havia terminado de trabalhar mais cedo e resolvi abrir os armários do consultório e organizar as inúmeras pastas de textos, relatórios e anotações. Recebo um telefonema do meu filho que estava na porta de casa e se deu conta que havia esquecido a chave, não tinha como entrar. Disse a ele que viesse até o consultório pegar a minha chave de casa, são três quarteirões de distância. Desliguei o telefone e olhei para a minha mesa lotada de papéis, mas consegui olhar também para a oportunidade de encontrar meu filho no meio da tarde, e pensei que gostaria muito de aproveitar aquele momento.

Quando ele chegou para pegar a chave convidei-o para sairmos e comermos alguma coisa gostosa, convite que foi prontamente aceito. Olhei para a mesa e tive a certeza que tudo aquilo podia esperar para ser arrumado. Saímos, fomos comer, conversamos sobre muitas coisas, ele foi me contando o que havia acontecido na semana, o que ele estava planejando, e foi uma delícia!! Senti que ele retribuiu meu convite convidando-me a entrar um pouco na vida dele.

Fica aqui o convite para você rever suas prioridades, fazer o que te dá prazer, ter tempo para jogar conversa fora, regar as plantas, olhar o por de sol pela janela, ouvir aquela música que tanto gosta. Estar atento para aproveitar cada pequena oportunidade e transformá-la em um momento de prazer!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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