O propósito de estarmos aqui

Quem de nós nunca se indagou a razão de existirmos? Quem de nós nunca parou para refletir o que será que estamos fazendo aqui e qual será o objetivo de nossas vidas? Que atire a primeira pedra quem nunca encasquetou com isso…

Respostas claras a essas perguntas parecem não serem possíveis de se achar e, dependendo da crença de cada um, vamos nos ajeitando com algumas supostas justificativas, provavelmente verdadeiras, mas não completas.

Gosto de pensar que tudo isto é um grande experimento de um Ser maior, e que nascemos para aprender e evoluir na consciência e no amor; que caminhamos sempre em busca de nos tornarmos pessoas melhores, e que não importa quantas vezes teremos que repetir essa experiência até alcançarmos tal objetivo. Como não estamos sozinhos nessa aventura, cabe imaginar que também somos responsáveis por contribuir para o bem estar de outros seres humanos que coabitam este planeta conosco. E também, sendo a Terra nossa casa, somos responsáveis por mantê-la em boas condições, assim como fazemos com o lugar no qual moramos. Mas… por onde começar, ou o que fazer para conseguir tudo isso?

Esta semana, uma amiga de um grupo do qual faço parte, disse uma coisa simples mas que me chamou a atenção. Falávamos sobre isso, e ela colocou que tinha como objetivo de vida manter-se bem nos vários níveis, físico, emocional, mental, energético.

Essa colocação fez muito sentido para mim, e por isso divido com vocês. Gosto das analogias como uma maneira de compreendermos os processos, e pensei no funcionamento do corpo. Para um corpo manter-se saudável, é necessário que cada célula esteja saudável. Quando uma delas adoece, desequilibra as outras próximas. Se um conjunto delas adoece, desequilibra o órgão que as contêm. Se, por sua vez, esse adoece, desequilibra o funcionamento dos outros órgãos e, no andar da carruagem, teremos o comprometimento do funcionamento e da saúde do corpo todo.

Cada indivíduo é uma célula que forma a rede humana; quando dizemos que nossa sociedade está doente, queremos dizer que incontáveis pessoas adoeceram e comprometem o equilíbrio da sociedade como um todo. Da mesma maneira, nosso planeta é um conjunto de células que compõe este Sistema Solar, que por sua vez é um conjunto de células que compõe outros Sistemas Solares, que por sua vez compõe o Universo. Quando um sistema se desequilibra, todos os outros são afetados.

Volto à simplicidade do pensamento da minha amiga… se tivermos como propósito nos mantermos bem, cuidar de nós mesmos com esmero e atenção, conquistaremos bem estar, equilíbrio e alegria de viver, e contaminaremos as pessoas próximas com essa energia. Cuidar da saúde física porque precisamos de um corpo saudável para atravessar os anos com disposição e com condições de viver o mais plenamente possível esta aventura. Cuidar do emocional e do mental, que são “lugares” onde nossa essência habita, onde transitam nossas emoções, sentimentos, relações, pensamentos. E esse equilíbrio dará o tom da energia que vibramos para nós mesmos e para o mundo.

Talvez não estejamos aqui para “mudar o mundo” da maneira como imaginamos em um dia da nossa impetuosa adolescência; talvez o propósito de viver possa ser o de cada um cuidar de si mesmo e assim, de maneira indireta mas eficaz, cuidar dos outros e do mundo.

É a velha, sábia e conhecida história: quer mudar o mundo? Mude a si mesmo e o mundo mudará. Ele é um grande espelho que reflete a nossa imagem!

Dia de Ação de Graças

Gosto muito da ideia dessa data. Momento de parar, repensar o ano que passou e… agradecer.

Sem reclamações, lamúrias, sem achar que deveria ter sido diferente. Simplesmente, fazer o exercício de reconhecer o que foi bom e o que é bom, todos os dias.Hoje, fizemos esse exercício na hora do jantar. Propus que fizéssemos um agradecimento por algo de especial neste ano. Primeiramente, meu marido e meu filho me olharam com ar de surpresa. Comecei então, lembrando de alguns momentos especiais e do amor que tenho pelos dois. Na sequência, foi muito fácil para ambos enumerar todos os motivos que temos para sermos gratos.

Isso não significa fazer de conta que as dificuldades e desafios não existem. Eles estão aí, nós os enfrentamos e lembramos de cada detalhe deles. Já agradecer… Agradecer, muitas vezes a gente esquece.

É por isso que acho muito bom ter um dia do ano só para isso: para nos darmos conta de todo o lado feliz e afortunado que existe na vida de cada um de nós.

Desligamento

Após completarmos um ano de blog senti que precisava rever o rumo do meu trabalho aqui. Meus assuntos são moda, livros, opinião.

Com o correr dos meses, o blog, que inicialmente foi pensado para englobar todo o universo de uma mulher de +50 anos, tomou outro caminho. Isso não espanta, visto que blogs são criaturas orgânicas que crescem a seu bel prazer, dificilmente se limitam às gaiolas que pensamos originalmente para eles.

Os textos de comportamento hoje envolvem toda e qualquer faixa etária, estão aí para nos servir de guia em nossa vivência diária. Os textos das quintas-feiras, que eram sobre corpo e nossa relação com ele, também se movimentaram e saíram do concreto para falar sobre espiritualidade.

Nesse cenário atual, Moda também deveria se expandir e servir a mais pessoas ou mudar o foco para algo diferente. Não foi o que aconteceu.

Blogueira há seis anos com o Pílulas de Moda, meu ponto de referência para escrever é a moda, seguido de livros, comentários sobre posts que li e sobre algumas incoerências da vida, da idade, do mundo. Mas, basicamente, Moda.

E neste momento em que o E AÍ, 50? se dirige tão fortemente para assuntos mais sérios ou intangíveis, não vejo simbiose do meu texto com o das minhas queridas amigas Ana e Marise.

Por isso e, sem qualquer estresse ou desagrado, solicitei à elas meu afastamento do texto semanal. Vou continuar nos bastidores, editando e inserindo imagens para os posts de domingo e quinta-feira, aprovando os comentários. Se quiser falar comigo, é só comentar.

À vocês, queridas leitoras, um grande beijo e muito obrigada por terem me acompanhado nesta caminhada. Ah! quem gosta do que escrevo poderá sempre me encontrar no Pílulas.

Em busca da delicadeza

Hoje acordei com o espírito de viajar pelas ideias, filosofar sobre a vida, nem sei bem por que. Pulei da cama e corri para o cabeleireiro, tinha horário agendado para tingir a raiz do cabelo. Na medida em que ele abria os fios para passar o pincel carregado de tinta, fui me dando conta, mais uma vez, da proliferação dos brancos sobre os castanhos, e de como estabeleço uma batalha sem tréguas e sem êxito sobre esses insistentes fios que nascem sem cor. Pensei nas mulheres que eu conheço e que estão assumindo as madeixas brancas, prateadas… As admiro pela coragem e, via de regra, acho lindo o resultado final, mas ainda não me sinto em condições emocionais de abandonar as tintas.

Isso me fez pensar sobre o que eu sinto a respeito de mim mesma atravessando a década dos 50, e me dei conta que, na aparência externa, reluto em modificar a auto imagem que sempre me acompanhou; gostaria que meus músculos permanecessem mais rígidos sem que tivesse que me dedicar a isso (até porque não me dedico…), que os cabelos continuassem nascendo castanhos, que a pele se mantivesse lisa e macia, e que cada parte do corpo ocupasse seu devido lugar, nem mais prá lá, nem mais prá cá…

Entretanto, do ponto de vista emocional, me sinto infinitamente melhor, e não tenho saudades da montanha russa e seus incontáveis loopings nos quais eu me perdia, sem saber se o mundo estava de cabeça pra baixo ou se eu é que estava de ponta cabeça! Quando eu me recordo da época em que era bem jovem, a imagem que me vem é de alguém dirigindo um carro com carta recém tirada… A vida parecia feita de arrancadas violentas e freadas bruscas, e a cabeça oscilava entre ficar grudada no banco ou ir pra frente até bater no volante…

Hoje eu sinto a vida diferente, e me sinto também diferente dentro dela. Já tenho certa prática na direção, e a condução é mais harmônica. Os eventos certamente continuam acontecendo, precipitando-se sobre nós. Mas aprendi a manejar melhor os pedais da aceleração e do freio, de maneira que chacoalho menos…

Cada fase tem seus encantos e seus desafios, e não estou tentando dourar a pílula em relação ao processo de envelhecer. Sinto saudades pontuais de coisas que fazia e da intensidade com a qual as vivenciava. Mas também gosto de pensar que hoje consigo valorizar e buscar pela delicadeza, e que essa palavra e seu significado tornaram-se importantes para mim.

Consigo colocar minhas ideias de forma menos agressiva, talvez porque me sinta mais segura em relação ao meu lugar no mundo, e prescindo de buscar reconhecimento o tempo todo. Os abraços são mais prolongados, já não há ansiedade de passar para o passo seguinte. As trocas afetivas com as pessoas são mais verdadeiras, ficamos próximos de quem, de fato, queremos estar. Não preciso, o tempo todo, buzinar para quem me fechou no trânsito, às vezes consigo até sorrir e dar passagem…

Acho que esse é um bom momento para a estação da delicadeza, com gestos mais suaves e firmes, comportamentos mais tranquilos e consistentes, com a bagagem que já não é tão pesada de carregar, porque já sabemos o que largar pelo caminho.

Isso me faz lembrar de uma música linda do Chico Buarque, cuja última estrofe é assim:

“Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu”

Todo o Sentimento – Chico Buarque de Holanda

Limpeza de final de ano

A gente se apega às coisas mais bizarras. Por exemplo, a uma imagem negativa que fez de si mesmo, à uma lembrança dolorosa, até aos quilos a mais instalados no corpo ao longo dos anos. Por que?

Porque muitas vezes dores conhecidas escondem outras que não queremos enfrentar. Deixar de comer doces pode ser terrivelmente difícil, não por que não se pode viver sem seu sabor, mas porque representa a perda de um recurso para “fazer sumir” (momentaneamente, é claro) um incômodo com o qual não quero lidar.

No processo de “deixar ir” quilos, lembranças, imagens, podemos nos deparar com o que deu origem aos mesmos. E, de repente, as velhas dores estão lá, esperando, pacientemente, o nosso retorno. O que há dentro de nós não some (puff!) e vai embora voando. E tudo o que não encerramos fica esperando para ser concluído. São pendências que ficam na mente e no corpo, incomodando ao longe. Sobretudo, o que não está resolvido nos faz gastar energia. Energia para afastar cada pensamento, para manter-se exatamente igual, mesmo que esse estado não seja assim tão bom. É a conhecida zona de conforto.

Pois é, o final do ano está chegando e com ele as questões familiares envolvendo as festas, as compras, o prazer ou o desprazer diante de tudo isso. Vem também aquela voz interna perguntando sobre o período: Ano bom? Ano ruim?

No entanto, agora, depois de uma certa idade, sabemos que não é tão simples assim. Cada momento tem suas lições e talvez o melhor questionamento seja: estamos aprendendo? Como é que estou carregando a minha “bagagem” de vida? Ela está ficando mais leve, ou mais pesada? A boa notícia é: todo dia é uma oportunidade de esvaziar a mala.

Meu pai é um senhor elegante e lúcido de 92 anos, que há 2 enfrenta uma perda de visão progressiva, debilitante. A cada dia relata que está vendo cada vez menos. Uma situação horrível, sem dúvida. Ontem, eu lhe dei a sugestão de observar aquilo que ele ainda enxerga, as cores, as formas, valorizar o que é possível ser visto. E vi seu rosto se iluminar um pouco.

Talvez, para viajarmos mais leves, seja importante colocarmos em evidência aquilo que é bom em nossas vidas, dando o devido lugar a cada evento. Fazer uma limpeza de final de ano, procurando olhar para o que nos incomoda com olhos mais serenos, deixar ir o que não serve mais e, então, seguir em frente.