Limpeza de final de ano

A gente se apega às coisas mais bizarras. Por exemplo, a uma imagem negativa que fez de si mesmo, à uma lembrança dolorosa, até aos quilos a mais instalados no corpo ao longo dos anos. Por que?

Porque muitas vezes dores conhecidas escondem outras que não queremos enfrentar. Deixar de comer doces pode ser terrivelmente difícil, não por que não se pode viver sem seu sabor, mas porque representa a perda de um recurso para “fazer sumir” (momentaneamente, é claro) um incômodo com o qual não quero lidar.

No processo de “deixar ir” quilos, lembranças, imagens, podemos nos deparar com o que deu origem aos mesmos. E, de repente, as velhas dores estão lá, esperando, pacientemente, o nosso retorno. O que há dentro de nós não some (puff!) e vai embora voando. E tudo o que não encerramos fica esperando para ser concluído. São pendências que ficam na mente e no corpo, incomodando ao longe. Sobretudo, o que não está resolvido nos faz gastar energia. Energia para afastar cada pensamento, para manter-se exatamente igual, mesmo que esse estado não seja assim tão bom. É a conhecida zona de conforto.

Pois é, o final do ano está chegando e com ele as questões familiares envolvendo as festas, as compras, o prazer ou o desprazer diante de tudo isso. Vem também aquela voz interna perguntando sobre o período: Ano bom? Ano ruim?

No entanto, agora, depois de uma certa idade, sabemos que não é tão simples assim. Cada momento tem suas lições e talvez o melhor questionamento seja: estamos aprendendo? Como é que estou carregando a minha “bagagem” de vida? Ela está ficando mais leve, ou mais pesada? A boa notícia é: todo dia é uma oportunidade de esvaziar a mala.

Meu pai é um senhor elegante e lúcido de 92 anos, que há 2 enfrenta uma perda de visão progressiva, debilitante. A cada dia relata que está vendo cada vez menos. Uma situação horrível, sem dúvida. Ontem, eu lhe dei a sugestão de observar aquilo que ele ainda enxerga, as cores, as formas, valorizar o que é possível ser visto. E vi seu rosto se iluminar um pouco.

Talvez, para viajarmos mais leves, seja importante colocarmos em evidência aquilo que é bom em nossas vidas, dando o devido lugar a cada evento. Fazer uma limpeza de final de ano, procurando olhar para o que nos incomoda com olhos mais serenos, deixar ir o que não serve mais e, então, seguir em frente.

Autor: Marise Toschi

Professora e tradutora de Francês, instrutora de Being Energy.
Buscadora, praticante de yoga, meditação, estudiosa de tarô e astrologia.
Com +50, casada, um filho e uma cachorra mimada. Escrevo às quintas-feiras sobre espiritualidade, corpo e comportamento.

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