Em busca da delicadeza

Hoje acordei com o espírito de viajar pelas ideias, filosofar sobre a vida, nem sei bem por que. Pulei da cama e corri para o cabeleireiro, tinha horário agendado para tingir a raiz do cabelo. Na medida em que ele abria os fios para passar o pincel carregado de tinta, fui me dando conta, mais uma vez, da proliferação dos brancos sobre os castanhos, e de como estabeleço uma batalha sem tréguas e sem êxito sobre esses insistentes fios que nascem sem cor. Pensei nas mulheres que eu conheço e que estão assumindo as madeixas brancas, prateadas… As admiro pela coragem e, via de regra, acho lindo o resultado final, mas ainda não me sinto em condições emocionais de abandonar as tintas.

Isso me fez pensar sobre o que eu sinto a respeito de mim mesma atravessando a década dos 50, e me dei conta que, na aparência externa, reluto em modificar a auto imagem que sempre me acompanhou; gostaria que meus músculos permanecessem mais rígidos sem que tivesse que me dedicar a isso (até porque não me dedico…), que os cabelos continuassem nascendo castanhos, que a pele se mantivesse lisa e macia, e que cada parte do corpo ocupasse seu devido lugar, nem mais prá lá, nem mais prá cá…

Entretanto, do ponto de vista emocional, me sinto infinitamente melhor, e não tenho saudades da montanha russa e seus incontáveis loopings nos quais eu me perdia, sem saber se o mundo estava de cabeça pra baixo ou se eu é que estava de ponta cabeça! Quando eu me recordo da época em que era bem jovem, a imagem que me vem é de alguém dirigindo um carro com carta recém tirada… A vida parecia feita de arrancadas violentas e freadas bruscas, e a cabeça oscilava entre ficar grudada no banco ou ir pra frente até bater no volante…

Hoje eu sinto a vida diferente, e me sinto também diferente dentro dela. Já tenho certa prática na direção, e a condução é mais harmônica. Os eventos certamente continuam acontecendo, precipitando-se sobre nós. Mas aprendi a manejar melhor os pedais da aceleração e do freio, de maneira que chacoalho menos…

Cada fase tem seus encantos e seus desafios, e não estou tentando dourar a pílula em relação ao processo de envelhecer. Sinto saudades pontuais de coisas que fazia e da intensidade com a qual as vivenciava. Mas também gosto de pensar que hoje consigo valorizar e buscar pela delicadeza, e que essa palavra e seu significado tornaram-se importantes para mim.

Consigo colocar minhas ideias de forma menos agressiva, talvez porque me sinta mais segura em relação ao meu lugar no mundo, e prescindo de buscar reconhecimento o tempo todo. Os abraços são mais prolongados, já não há ansiedade de passar para o passo seguinte. As trocas afetivas com as pessoas são mais verdadeiras, ficamos próximos de quem, de fato, queremos estar. Não preciso, o tempo todo, buzinar para quem me fechou no trânsito, às vezes consigo até sorrir e dar passagem…

Acho que esse é um bom momento para a estação da delicadeza, com gestos mais suaves e firmes, comportamentos mais tranquilos e consistentes, com a bagagem que já não é tão pesada de carregar, porque já sabemos o que largar pelo caminho.

Isso me faz lembrar de uma música linda do Chico Buarque, cuja última estrofe é assim:

“Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu”

Todo o Sentimento – Chico Buarque de Holanda

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos.
Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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