Natal

E então, não parece que foi ontem? Éramos crianças, e a expectativa era grande. No canto da sala a árvore, iluminada e cheia de penduricalhos. Aos pés dela, caixas com laços de fita vermelhos que guardavam segredos; o que será que havia dentro delas, e quais presentes eram os nossos?

Na cozinha o mulherio se agitava, e o som das panelas era incessante. O cheiro dos assados impregnava a casa, entre suores e risadas. Trabalho não faltava às mulheres da família, encarregadas de colocar na mesa a ceia de Natal com sua variedade de pratos. Havia até uma certa disputa, implícita no capricho com que preparavam aquilo que seria servido… Qual prato seria mais elogiado, que sobremesa acabaria primeiro?

Enquanto isso nós, as crianças, corríamos de um lado para o outro feito baratas tontas, em um misto de euforia, ansiedade e um bocadinho de medo… E se Papai Noel não aparecesse? E se ele não trouxesse o presente tão esperado? Será que merecíamos ganhá-lo? Talvez não tivéssemos nos comportado bem o suficiente durante o ano para que nosso pedido fosse atendido. E se acordássemos no meio da noite, bem na hora em que ele estivesse entrando pela janela que tinha ficado aberta, uma vez que não havia chaminés pela cidade? Já pensou o susto de encontrar no escuro o famoso velhinho de barbas brancas? Qual seria nossa reação? E a dele??

Enfim, a hora da ceia. Homens, mulheres e crianças de banho tomado, roupas novas e cabelos arrumados. As cozinheiras foram embora e deram lugar a mulheres perfumadas e enfeitadas. Na mesa comprida as pessoas vão se ajeitando, e todo o ritual da ceia é inaugurado com um brinde ao Natal. As taças são erguidas e vão ao encontro umas das outras, ao som do tilintar dos cristais. Foi dada a largada, é hora da comilança. E lá vamos nós, as crianças, separar todas as passas que sempre ficam junto do arroz quando é Natal. O velho e bom bife é substituído por iguarias mais refinadas, e nem por isso mais gostosas para o paladar infantil. E começa a torcida para que todos comam rápido para que possamos passar para a próxima etapa, muito mais interessante que essa, que é a da troca dos presentes.

Mas de nada adianta a torcida porque eles, os adultos, não param de comer nem de falar. E lá vem as histórias! Lembranças de outros Natais, do que aconteceu de engraçado naquela vez, das pessoas que não estão mais ali, e das pessoas que acabaram de chegar na família. Há quem se emocione, há quem faça graça, há também aquele tio que tomou um pouco de vinho a mais e quase causa um atrito. Ai meu Deus, certas coisas deveriam ser proibidas de serem ditas durante o Natal. Há quem enalteça o valor da família reunida em torno da mesa farta, mas também há aquele que mal disfarça o desconforto por estar ali… Há abraços sinceros e há sorrisos forçados, há alfinetadas que são dadas em tom de brincadeira, e há brincadeiras que são gostosas de serem feitas. Há de tudo um pouco para todos os gostos e desgostos, afinal é Natal!

Bem, talvez nossos Natais não tenham sido exatamente assim, mas, de alguma maneira, se parecem. Talvez hoje não tenhamos mais aquela ansiedade de que ele chegue logo, mas mais uma vez ele chegou. Talvez a mesa posta não seja tão comprida como, um dia, já foi, mas continuamos brindando ao seu redor.

Pouco importa se o Natal não é mais o mesmo, afinal nós também não somos mais os mesmos. A vida é dinâmica e pede por mudanças, reciclagens, renascimentos.

Que o espírito natalino nos inspire a perdoar a nós mesmos e aos outros; a nos reconciliar com a vida e com tudo que nela está inserido. A buscar a felicidade da melhor maneira que pudermos, e a resignificar e aprimorar as relações que estabelecemos.

À vocês, Feliz Natal! Que a noite seja de paz e que o amor pulse com toda sua força no coração dos homens de boa vontade!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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