Sobre disciplina e procrastinação

Na postagem de quinta passada minha amiga Marise citou sobre a provável regência de Saturno neste ano de 2018, e sobre a necessidade de nos desafiarmos a desenvolver mais foco e perseverança na nossa vida. Quero aproveitar o tema para refletir sobre um antigo mau hábito que todos nós mantemos, em maior ou menor escala, que é o hábito de procrastinar, ou seja, deixar para resolver depois tudo com o que nos deparamos no agora.

Há pessoas que colecionam selos, outras colecionam figurinhas, objetos decorativos como corujas ou sapatinhos de porcelana, moedas estrangeiras, camisetas de times; e agora me diga: quem é que não coleciona pendências? As coleções são variadas e muito abrangentes, e vão desde o banho que eu deveria tomar assim que chego em casa mas arrasto até o final da noite, até os exames médicos e os cuidados preventivos que deveríamos ter em relação a nós mesmos e, muitas vezes, só o fazemos quando a prevenção se transforma em remendo…

As roupas que estão assombrando o armário? Qualquer hora eu doo. O telefonema para aquela amiga querida? Qualquer hora eu faço. A visita para a família daquele bebê que nasceu? Até ele completar 18 eu apareço, e por aí vai. Pode até parecer engraçado, mas não é. Porque tudo o que precisa ser feito, seja por necessidade ou desejo, se não é feito quando surge transforma-se em peso, em âncora que nos mantém aprisionados em determinadas situações que se arrastam e devoram nosso tempo de vida.

É neste ponto que entram os benefícios da disciplina. Em um primeiro momento essa palavra pode nos remeter a coisas chatas, talvez proveniente da infância e de todas as vezes que ouvimos de nossos pais e professores que precisávamos de disciplina. Mas Carlos Castaneda em seus livros nos apresenta outra compreensão de disciplina, baseada na filosofia tolteca. Ela é colocada como uma arte, a de repelir a sombra que esvazia nossa capacidade de raciocinar e agir; a arte de enfrentar o infinito sem vacilar; a capacidade de atuar com serenidade diante de circunstâncias que não estão incluídas em nossas expectativas.

Colocado desta maneira, o conceito de disciplina transcende a rotina e ganha uma dimensão muito maior. A cada dia novas situações surgem em nossas vidas; as que nos agradam tiramos de letra, vamos ao seu encontro sem pestanejar. Porém as outras, que causam desconforto, preocupações ou aborrecimentos, tentamos empurrar com a barriga e acabamos por atolar no lamaçal de coisas por fazer.

A possibilidade de enfrentá-las e resolvê-las através da intenção e da ação nos liberta, ao mesmo tempo em que libera a nossa energia para que possamos usá-la de maneira mais criativa, canalizando-a para novos e bons sonhos e suas realizações. E como conseguir essa mudança? Através da disciplina e da conscientização de que estamos aqui, encarnados neste corpo, para viver, aprender, crescer e evoluir. Se entre nós e a vida ficar um monte de coisas entulhadas atrapalhando o caminho, será um desperdício!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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