Superação

Ontem eu fui assistir ao filme “ Extraordinário” que, por sinal, recomendo, desde que você leve junto uma caixa de lenços… Conta a história de um menino que nasceu com grave deformidade facial e, aos 10 anos, vai para a escola pela primeira vez, depois de ter passado por 27 cirurgias. Não sou crítica literária e não estou avaliando a qualidade do filme, mas achei interessante a maneira como a narrativa nos apresenta a luta pela superação de tudo que nos limita a possibilidade da felicidade. A necessidade do protagonista de superar a própria história é óbvia, dado que ele era uma criança muito diferente das demais, e essa diferença estava estampada em seu rosto. A sutileza é mostrar essa necessidade nos outros personagens, a luta de cada um para superar as próprias dificuldades, que não estavam escancaradas como as do protagonista, mas que nem por isso eram menos dolorosas.

Por que escolhi escrever sobre isso? Porque superação é um trabalho permanente de todo ser humano, que possibilita a existência e seu aproveitamento. Às vezes só percebemos sua necessidade em casos extremos, como doenças, perdas, tragédias; claro que nessas situações, a necessidade de superação torna-se tão evidente como a deformação no rosto do menino do filme, entra como condição de sobrevivência. Mas, se observarmos nossa vida com um pouco de atenção, nos damos conta do quanto é necessário superar para viver. Se fizermos uma rápida retrospectiva do nosso percurso, passado já meio século de experimentações, não será difícil reconhecer que onde superamos os traumas, conseguimos avançar e usufruir; onde não superamos, continuamos presos de uma ou outra maneira, e aí o rio da vida não corre com fluidez e desenvoltura.

Há pessoas que se propõe a abraçar sua vida emocional e com ela criar intimidade, e o resultado disso é a possibilidade de reconhecimento de suas dores mais importantes e dos ferimentos por elas causados. Quando isso acontece é como se disparasse uma sirene de alerta, que mobiliza o exército de recursos internos, prontos para atuar no sentido de recuperar e restaurar os “estragos”, de tal maneira que o tecido psíquico seja refeito, e o ferimento superado.

Mas muitas vezes a superação vai exigir muito mais de nós além do reconhecimento daquilo que limita a nossa felicidade; vai demandar pelo perdão (que necessitamos dar ou pedir), pelo desapego, pela discriminação do que pode ser modificado através de nossas atitudes e do que simplesmente deve ser aceito. A superação vai demandar também “descer do salto” tanto quanto abandonar a posição de vítima, aceitar a vida com todas as suas imperfeições que, nem por isso, a tornam menos bela ou atrativa. Entender o eterno jogo de ganhos e perdas, e principalmente, atentar para a constatação de que nada é definitivo, nem a própria vida da maneira como a concebemos, e que podemos escolher o melhor ângulo para olharmos cada coisa, e que essa escolha fará toda diferença. Superar não significa deixar de entristecer-se, ou de sentir-se ferido, muito pelo contrário. Derrame todas as lágrimas, entristeça-se e vivencie o luto sempre que for necessário. Mas depois, pegue um lenço, recomponha-se, desapegue do passado e olhe para a frente; além dessa curva tem muito mais estrada!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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