O que a vida quer da gente é coragem

Há dias em que a gente acorda, se olha no espelho e se acha bonita. Vai para o chuveiro, arrisca cantarolar a música preferida. Passa o sabonete pelo corpo como se estivesse desenhando arabescos sobre um papel. Sai do banho, abre o guarda roupas e escolhe aquele vestido lindo, ou aquela calça maravilhosa que cai tão bem. Na prateleira dos perfumes surge uma pequena dúvida sobre qual escolher, mas logo percebe-se que é o dia do queridinho, daquele que custou caro mas que vale cada centavo gasto. Depois vem os acessórios, a maquilagem, os sapatos e mais uma olhada no espelho. Uau menina, você está linda!!! De verdade, nem parece que passou dos 50!

Sai de casa, e logo antes da primeira esquina olha para o céu; não… que cor é essa?? Ele, o céu, parece que também caprichou no visual, vestiu-se de um azul que há tempos não se via. E o sol então? Brilha feito vestido de festa. Os semáforos estão verdes, o play list delicioso de se ouvir, o trânsito flui, nenhuma cortada ou xingamento. Bem, talvez aquele cara do carro branco tenha dito alguma coisa, mas quem liga? Coitado, deve estar estressado. E assim segue o dia. A agenda cheia, a correria de sempre, a lista do mercado que tem que ser encaixado no horário do almoço. Mas tudo bem, é até bom tomar um suco detox e comer uma quiche na padaria mais próxima, para equilibrar os excessos que já aconteceram ou irão acontecer. E não é que deu tempo de fazer tudo? Deu até para ligar para a amiga, morrer de rir da conversa, ir para a academia na maior disposição e terminar o dia em família, numa boa, sem falar de contas, filhos, sem reclamar da bagunça; pensando bem, será que tinha bagunça?

Há dias em que a gente acorda, se olha no espelho e se acha horrorosa. Que preguiça de tomar banho! A água não esquenta direito, o sabonete, que está no finzinho, cai não sei quantas vezes no chão do box, que chato! Aí você sai, abre o guarda roupas e não encontra uma roupa sequer razoável de se vestir. Tem aquele vestido que está apertado e marca os culotes, tem aquela calça larga que mais parece um saco, e não tem uma blusa bem passada. Na prateleira dos perfumes, aquele que foi ganho é o escolhido. O vidro está cheio, afinal, o aroma é cítrico até não mais poder, mas pelo menos você não pagou por ele. De acessórios, só o relógio, e maquilagem nem pensar, um batonzinho passado a esmo no elevador e está bom demais.

Antes da primeira esquina começa a chover, justo hoje, o trânsito vai ficar infernal. O trânsito já está infernal, e não é que aquele infeliz, aquele do carro branco, deu uma cortada e ainda xingou? Ah, mas levou de volta, com gesto e tudo, quem ele pensa que é? Já não basta o tanto de coisas para fazer hoje? Não vai dar tempo nem de almoçar, afinal ainda tem o mercado para encaixar. Quer saber? Hoje não se atende telefone, vontade zero de falar com quem quer que seja. Academia nem pensar, ir pra casa direto porque, com certeza, ainda vai ter aquela bagunça para arrumar. Mas de hoje não passa aquela conversa com os filhos, nunca vi gente tão folgada! Estão pensando que eu sou o quê?

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois inquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Sábio Guimarães Rosa.

Silêncio, por favor

Som de televisão, de música, de internet. Latido de cachorro, miado de gato, grito de criança. Carro acelerando na rua, buzina. Gente no telefone, uma conversa que começou, mas parece não ter fim.

Tudo isso faz parte da vida. Estamos tão habituados à agitação, ao enorme volume de informações e de solicitações às quais somos submetidos que raramente nos damos conta do quanto isso nos sobrecarrega.

É bem verdade que para haver equilíbrio é preciso a presença das duas polaridades: movimento e quietude. E, talvez por não serem frequentes, os momentos de calma e isolamento tendem a me encantar.

Neste mundo conectado, encontrar tempo para si mesmo parece um artigo de luxo. Tanto que há “spas”, mosteiros, espaços que propõem dias de desconexão, silenciosos em um ambiente de natureza. A ideia é bem atraente para mim. E para você?

 

Excessos e desvios

Vandana Shiva é uma mulher indiana formada em Física, Filosofia, ativista pelo meio ambiente e fundadora da Navdanya ONG, que realiza um belíssimo trabalho de promover a biodiversidade das sementes, plantações orgânicas e preservação das florestas da India.

Dela empresto um pensamento para o texto de hoje: o maior desafio da época que estamos vivendo é a luta contra nossa própria estupidez.

Ela refere-se ao processo gradual de destruição da natureza pela contaminação da água, modificação das sementes e mudanças climáticas provocadas pelo mau uso dos recursos naturais. Mas o ser humano consegue escorregar pela estupidez em diversos níveis e de diferentes maneiras, algumas que podem levar ao extermínio da raça humana sobre o planeta, e outras, mais sutis, que colocam em risco a liberdade de expressão, a democracia e a manutenção do estado laico.

Como psicóloga e filiada ao Conselho Regional de Psicologia, tomei conhecimento do crescente número de profissionais que se intitulam praticantes da “Psicologia Cristã”. O CRP-RJ soltou uma nota de esclarecimento, após a nomeação do novo secretário municipal da Casa Civil da Prefeitura do Rio de Janeiro autointitulado “psicólogo cristão”. Basta dar um google para identificar que também há profissionais que se apresentam como psicólogos evangélicos. Ou seja, seguimos a passos largos fatiando o todo.

Nos dividimos em guetos, entre posições políticas de direita ou esquerda, entre os que são politicamente corretos e beiram o radicalismo (como a condenação, no carnaval, de alegorias com cocar sob a alegação de ferir a nação indígena), e os que carregam o preconceito como se fosse um estandarte. Entre ricos e pobres, cultos e ignorantes, crentes e não crentes, gordos e magros, homens e mulheres, agressores e vítimas, e a lista que divide o que considera-se uma categoria de outra, não tem fim.

A quem interessa esse modelo cindido onde o homem deixa de ser compreendido em sua totalidade? A quem interessa a redução de sua grandeza? Quem lucra com a disputa que se estabelece entre as “facções”, com os conflitos e os confrontos entre grupos que se percebem antagônicos? Quem ganha com o desmanche da raça humana ? Quem se alimenta de nós? Muitas perguntas, poucas respostas.

É preciso estar atento e forte, diz o refrão da música. É preciso estar desperto. Não existe psicólogo cristão, evangélico, umbandista; existe psicólogo. A pessoa que o psicólogo é pode ser o que quiser, mas a sua crença não pode sobrepor-se à crença do outro que está ali, no lugar de paciente, de ser humano que busca entender sua dor. Empatia é conexão, sem filtros, sem julgamentos, sem ideologias. Vandana tem razão, que baita desafio lutar contra a nossa própria estupidez!

“Não podemos ensinar nossas crianças a competir com as máquinas, pois estas são mais inteligentes.”

 Você tem a sensação de não acompanhar o ritmo de mudança que ocorre na tecnologia? É uma situação compartilhada por todos aqueles que são meramente usuários, e não criadores, dos instrumentos, máquinas e recursos que vão progressivamente sendo colocados à nossa disposição: internet das coisas, assistente pessoal, casa inteligente… Enquanto escrevo este texto o que mais já terá sido inventado? Tenho certeza que estou defasada. Toda essa nova infraestrutura altera nossa forma de estar no mundo.

Há algumas semanas, no World Economic Forum em Davos, isso foi debatido. De acordo com o McKinsey Global Institute, robôs poderão ocupar 800 milhões de postos de trabalho por volta de 2030, isto é, dentro de 12 anos. A automação e a inteligência artificial tornarão o trabalho manual e repetitivo obsoleto.  Diante desse quadro, o que fazer?

Passo a palavra para Jack Ma é um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, fundador e chefe do Grupo Alibaba, conglomerado tecnológico multinacional.

“Educação é um grande desafio agora. Se nós não mudarmos nossa maneira de ensinar, dentro de 30 anos nós estaremos com um grande problema. A base do que ensinamos se refere aos últimos 200 anos. Nós não podemos ensinar nossas crianças a competir com as máquinas, pois estas são mais inteligentes. Os professores precisam parar de ensinar conhecimento. Temos que ensinar algo único, algo que uma máquina não possa jamais alcançar. Valores, crenças, pensamento independente, trabalho de equipe, atenção e cuidado para com os outros. O conhecimento informativo não pode ensinar isso. Eu acho que nós deveríamos ensinar esportes, música, pintura, arte. Dessa forma, garantir que os seres humanos sejam diferentes. Tudo o que ensinamos deve ser diferente das máquinas. Se uma máquina pode fazer algo melhor do que um ser humano, temos que levar isso em consideração.”

Adorei essas palavras, vindas de alguém que vive em meio à tecnologia. Ele nos diz: vamos lembrar o que nos faz Humanos! Diante do avanço da informática, diante da nossa incapacidade de produzir no mesmo ritmo que as máquinas, temos que lembrar da nossa humanidade, nossa capacidade de nos conectarmos uns aos outros, de sermos solidários, de expressarmos nossas angústias e nossas alegrias através da escrita, da dança, do desenho, da fotografia, da escultura, da culinária, entre outras formas. Lembrarmos da nossa fragilidade e da nossa filosofia. Recordarmos nossa capacidade de sonhar e de sermos únicos. Aquilo que nos distingue das máquinas não está no plano do fazer, mas do Ser. Sejamos!

Carnaval

Finalmente chegou (e continua) o Carnaval!!! Para dizer a verdade, não sou nem nunca fui fã do Carnaval, não tenho sangue de folião, tampouco me sinto atraída pelo sambódromo. O que eu comemoro é a possibilidade de 2018 finalmente estar valendo a partir da quarta feira de Cinzas, dele “pegar no tranco” e desenvolver seu ritmo.

Mas também não tenho nada contra essa folia, e talvez sinta até uma pitadinha de inveja dessa multidão de pessoas que conta os dias para a sua chegada. Admiro aqueles que juntam dinheiro durante o ano para a compra da fantasia, os que se deliciam em sambar na avenida viver seus minutinhos de fama, os que sabem de cor e salteado o samba enredo da sua escola, os que pulam atrás do trio elétrico, e agora mais recentemente, os que ocupam as ruas da cidade integrando os blocos de Carnaval.

Bem sei que para algumas cidades sisudas como a nossa é difícil conviver com essa bagunça desorganizada. No pré Carnaval, São Paulo foi tomada pelos blocos e a juventude em peso apropriou-se do espaço público, assim como famílias com crianças e pessoas de todas as idades.Ruas e avenidas foram interditadas, o trânsito ficou mais caótico do que de costume, o transporte público não deu conta da demanda, e muitos moradores tiveram seu sossego roubado. Choveram críticas e reclamações variadas, não faltou discurso político nem desaprovação pela constatação de que um número muito maior de pessoas se dispôs a ir para as ruas brincar do que se dispõem para lutar contra governos corruptos e oportunistas…

É, talvez isso seja verdade, assim também como é verdadeiro que a falta do exercício de cidadania faz com que muitos se comportem como se a cidade não fosse sua, como se o patrimônio público não lhe pertencesse, como se o cheiro da urina despejada fora dos banheiros químicos não fosse sentido pelo seu nariz. É o bloco dos excluídos, dos que não se apropriam da sociedade em que vivem, dos que não se sentem pertencentes a ela e ao lugar onde moram, e portanto, não se vêem responsáveis nem por cuidar, nem por lutar por ela.

Mas, felizmente essas pessoas não são a maioria nem a representam. Diante da multidão que ocupou as ruas e continua ocupando, o resultado me parece positivo. Há uma disposição em brincar, em unir-se a outras pessoas, em viver o coletivo em seu aspecto mais saudável. Quem sabe se isso não é um começo, se o resgate do lúdico possa despertar a consciência de que tanto a sociedade quanto a cidade, o país, a nação pertencem a todos nós, e portanto somos todos responsáveis por ela. Quem sabe possamos olhar as ruas como a continuação de nossas casas, e desenvolver um sentimento de apreço e cuidado.

Se somos capazes de cuidar da nossa casa, somos capazes de cuidar do nosso bairro, e depois da nossa cidade. E então estaremos desenvolvendo a cidadania, que nos tornará mais fortes e conscientes como grupo, com condições de intervir em assuntos políticos e econômicos que sentiremos como verdadeiramente nossos. Será que estou sonhando e isso é só fantasia? Se for, tudo bem. Afinal, é Carnaval!