A hora é agora!

Nós, seres humanos, temos uma dificuldade muito grande em lidar com a finitude, e criamos mecanismos de defesa dos mais variados para não entrar em contato com essa constatação. Um dos mais prejudiciais à nossa felicidade é o de postergar o que queremos de fato fazer, como se tivéssemos a eternidade para realizar nossos sonhos. Costumamos nos encher de obrigações, a lista das tarefas é interminável, e o prazer, via de regra, fica para quando sobrar tempo, ou seja, fica sempre para amanhã.

Quantos livros estão enfileirados na cabeceira da sua cama aguardando o momento de serem lidos? Quantos filmes você se interessou em assistir e continuam na fila de espera? Sabe aquela amiga querida com quem você combinou um almoço, há quanto tempo você não a encontra? E aquela viagem tão desejada, que fica sempre para as próximas férias? Ah, tem também aquele dia de não fazer nada que nunca acontece, o final de semana sem nenhum compromisso que não vem. Quem já não se prometeu um dia de rainha, com Spa, ofurô, massagem, e quem conseguiu cumprir? Até mesmo aquele banho mais demorado, com direito a esfoliante e hidratação é difícil de acontecer.

Não sei de onde tiramos que o sentido da vida está em nos mantermos ocupadas o tempo inteiro, que somos imprescindíveis nas multitarefas que realizamos, que a rotina não pode ser quebrada. Que culpa é essa que carregamos inconscientemente e que nos mantem reféns dos deveres que acreditamos ter?

Fica aqui uma sugestão: dê uma espiadinha no seu passado e perceba o quanto você já fez, já correu, já se desdobrou para tudo e para todos num ritmo acelerado, alucinado. É claro que vai continuar fazendo, mas precisa ser nesse ritmo? Quando é que vai conseguir olhar para você mesma e identificar o que você precisa, o que você quer, como você quer, e se acolher tanto quanto já acolheu os outros?

Reconhecer as nossas necessidades e limitações é um passo importante para mudar a relação com nós mesmas, assim como aprender a respeitar as prioridades, não as que o outro coloca, mas as que de fato identificamos como nossas. Essa história de deixar para depois não sugere um final feliz; o depois está muito longe, em algum lugar difícil de ser alcançado. Tudo o que temos é o aqui e o agora, e este é o melhor momento para viver o que se deseja. O passado é pó e o futuro é bruma, mas o presente está aqui, inteiro, disponível para todas nós!

ELAS – A separação do feminino, primeira etapa da jornada

Começamos o caminho da heroína com Nyai Loro Kidul, deusa sereia da ilha de Java. Nyai era a filha única do rei Pajajaran. Como a lei não permitia que uma mulher reinasse, seu pai casa-se novamente para ter um filho que ocuparia o trono depois de sua morte. Sua nova esposa lhe dá o tão aguardado herdeiro.

A rainha, no entanto, tinha grande ciúmes da beleza de Nyai Loro Kipul. Diz, então, ao rei que ele deveria escolher entre ela e sua filha, ameaçando abandonar o palácio com o futuro herdeiro em caso de decisão desfavorável. Incapaz de decidir, o rei recorre a uma feiticeira. A bruxa faz com que Nyai se torne vítima de uma doença de pele incurável, pois acreditava que a princesa, não sendo mais bela, poderia continuar no castelo sem incomodar a invejosa rainha.

Mas Nyai não se conforma com sua nova condição. No seu desespero, ela ouve uma voz dizendo-lhe que se atirasse ao mar, pois lá poderia curar-se. Então, ela deixa o palácio e lançar-se ao oceano. Os demônios e espíritos a acolhem, restabelecem sua beleza e a coroam como a Rainha dos Mares do Sul.

Em nossa sociedade, o mundo é visto através de uma perspectiva masculina. Assim, as características associadas ao feminino são julgadas distorcidamente como inferiores. Por muito tempo mulheres foram consideradas passivas, dependentes, manipuladoras, sedutoras, carentes de poder. Em nossa cultura, que internalizou esse mito, surge uma dualidade: de um lado, o mundo masculino que parece valorizar a independência e o sucesso, e do outro, o universo feminino que parece ensinar a viver através do outro e não buscar sua própria realização.

Segundo Joseph Campbell, a tarefa do herói e da heroína é romper com a ordem estabelecida e criar uma nova.
Assim sendo, o primeiro passo nesse sentido se dá pela separação do feminino, muitas vezes representada pela rejeição da mãe ou pela rejeição de seu modo de viver. No entanto, ao fazermos isso, negamos aspectos da natureza feminina tais como a criatividade, a sensualidade, a intuição, etc. Para alcançarmos a cura dessa separação e atingir um estado de inteireza é preciso avançar nessa jornada. É um caminho de desafio e surpresas. Vamos?

Mudanças de paradigma: beleza x juventude

Isabella Rossellini, atriz e modelo, filha da grande Ingrid Bergman, herdou da mãe o talento e a beleza, e sempre apareceu na mídia através dos filmes e campanhas que participou, sendo que uma das mais importantes foi para a famosa marca de cosméticos francesa Lancôme. Aos 42 anos foi convidada a se retirar, pois a empresa entendeu que ela já estava “velha demais”, e seu rosto já não representava o sonho de beleza e juventude das mulheres. E passados 23 anos desse momento, ela já com 65 anos de idade, é novamente convidada a estrelar campanhas para a Lancôme. Provavelmente isso tem relação com o fato de que quando essa proposta foi feita, a CEO da Lancôme era uma mulher, Françoise Lehmann, que entendeu que as mulheres mais velhas sentem-se excluídas, rejeitadas, e que o conceito de beleza tem que se descolar do conceito de juventude.

Desde tempos a se perder de vista o conceito de beleza ficou circunscrito à idade da mulher, e beleza significa ser ou parecer jovem. Assim foi definido e a juventude transformou-se em referência de beleza feminina, uma vez que para os homens a regra é outra. Homens maduros, grisalhos, continuam vistos como charmosos e interessantes, e continuam alvo de admiração e desejo, se mantém atraentes e valorizados pelas mulheres. Ou seja, os homens podem envelhecer e continuarem bonitos, nós não!

Finalmente aparece uma luz no fim do túnel da ignorância, do preconceito e da ditadura das crenças e formatações que a sociedade nos impinge e que todas nós aceitamos. Podemos envelhecer sim, e podemos continuar bonitas, atraentes e valorizadas. É preciso quebrar com todos os conceitos engessados, dar a eles vida nova e flexibilidade. A beleza é muito mais abrangente do que estamos acostumadas a perceber, e é diferente em cada fase da vida. A criança é linda, a jovem é linda, a mulher madura é linda, cada qual sendo a expressão daquele momento da vida. Que estação é a mais bonita? Não há como responder, cada uma tem seus encantos, e em cada uma há elementos que nos atraem.

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Sejamos mais generosas conosco, vamos nos permitir assumir a beleza da maturidade com todas as suas nuances e seus tons. Quer saber um jeito de permanecer bonita? Seja feliz! Não é a juventude e a beleza que caminham juntas, mas sim a felicidade e a beleza. Quando estamos felizes irradiamos a beleza de todas as estações….

Assista aqui ao vídeo de Isabella Rossellini

ELAS

Em 1949 Joseph Campbell estabeleceu em livro as etapas da jornada do herói.  Desde então, filmes, livros, ensaios têm sido produzidos sobre o tema.

Mas, e a jornada da heroína? Ela seria diferente? Teria algum aspecto que fosse próprio ao universo feminino?

O jogo ELAS, “A Jornada heróica de Conexão com o Ser”, nasceu desse questionamento.

Convido você a descobrir mais sobre essa viagem fascinaste, através das palavras de uma de suas criadoras, Pá Falcão.

COMO SURGIU O ELAS

O Mito do Herói está presente no nosso inconsciente desde o surgimento do homem, e foi descrito por Joseph Campbell em 1949 em seu livro “O Herói de Mil Faces”. 

Os homens têm experimentado este mito na prática sempre que saem da zona de conforto em busca de algo maior, encontrando inimigos e desafios no caminho. No final acabam retornando para onde vieram, porém com uma nova consciência, “transformados em heróis”. É uma jornada de ampliação da consciência de si mesmos e do mundo que os cerca.

Até o século XX isto foi um caminho essencialmente masculino, e a mulher quase sempre assumiu o papel de coadjuvante, apoiando a jornada do herói de seu homem. O próprio Campbell declarou na década de 50 que o lugar da mulher era em casa, esperando o herói.

Ao final da Segunda Guerra Mundial as mulheres saem de casa e vão ser heroínas, ombro a ombro com os homens. Os movimentos feministas da década de 60 e as sucessivas crises econômicas tornam esse caminho irreversível. Pela primeira vez na humanidade temos uma quantidade grande de mulheres trilhando este caminho. E os passos da Jornada do Herói não se adequam muito a elas.

Na década de 90 a psicóloga Maureen Murdock percebeu que as perdas aconteciam quando a mulher tentava se encaixar no caminho do herói. Percebeu que o caminho feminino é mais sutil e introvertido que o do homem. A partir de pesquisas com suas pacientes, conceituou o modelo do caminho feminino e publicou o livro “The Heroine’s Journey: Woman’s Quest for Wholeness”.

Nele, Murdoch detalha os 11 passos do caminho, e é com base nestes 11 passos que o jogo Elas foi criado.Tanto na jornada do herói quanto da heroína, Campbell e Murdoch contextualizam que a pessoa sai do “mundo real” para o “mundo da fantasia”. Isto combina com o conceito de Johan Huizinga de “círculo mágico”, onde o jogo e a brincadeira nos permitem entrar em estado de fluxo e dar o nosso melhor.

Ambas as jornadas começam com a entrada gradual nesse mundo especial, mas é na hora da internalização da experiência que a energia masculina e feminina exigem diferentes atitudes para desafios que também são diferentes.

Isto não condiciona a Jornada do Herói ou da Heroína aos gêneros masculino e feminino: depende da energia com que a pessoa está vivendo a jornada. Mulheres podem viver a Jornada do Herói e aprender mais sobre a sua energia masculina e homens podem viver a Jornada da Heroína e aprender mais sobre a sua própria energia feminina. O jogo amplia esta conexão interna especial dos participantes ao partir de uma base tríplice: o jogo, a obra de arte que é o tabuleiro em quilt e a criação literária dos mitos.

O jogo, sua beleza, mais a narrativa do mito da deusa fazem com que o jogador compreenda cada fase em seu corpo, emoções e mente, conseguindo se situar e perceber como tem usado suas energias e qualidades.

  Autora: Pá Falcão

Game Designer, especialista em gamification,  com vários jogos desenvolvidos e prêmios internacionais. É conferencista internacional, professora universitária, autora de vários livros. É idealizadora da Gamiifica Mundi .

Ser Mulher

Esta semana comemorou-se o Dia Internacional da Mulher, e sempre chega alguém com a clássica pergunta: e dia dos homens, não tem? Não, não tem dia dos homens, porque numa sociedade patriarcal e machista os homens estão sempre em evidência, ninguém precisa ser lembrado disso.

Assim como comemora-se o Dia da Mulher, também comemora-se o Dia da Consciência Negra, do Índio, do Orgulho LGBT, enfim, dos grupos que, na célula social, não estão no núcleo e sim na formação periférica. Não pela minoria em número ou produtividade, mas pela formação da estrutura da sociedade. Há quem ainda estranhe essa comparação entre grupos, mas na vida real é isso que acontece. Por mais que estejamos vivendo no século XXI e por mais que tenhamos evoluído nas áreas de Ciências e Tecnologia, ainda beiramos a Pré-História em termos de compreensão do significado de igualdade entre os seres humanos. O ranço patriarcal persiste, e dentro desse contexto ainda não se alcançou uma consciência que permita estabelecer a sociedade toda em uma linha horizontal, onde todas as pessoas sejam vistas e tratadas como iguais, e onde as relações sejam de troca e não de subserviência ou algum derivado do escravagismo. Infelizmente ainda não chegamos lá, e é por essa razão que existem datas que deveriam servir como sinalizadores dos desajustes sociais, mas que também raramente atingem esse objetivo, porque ou transformam-se em feriado ou em dia de fazer uma homenagem duvidosa nas redes sociais.

Aos que criticam ou consideram “mimimi” a questão das mulheres, vale lembrar que as mulheres brancas, de classe média, que vivem em países democratas, desenvolvidos, que tem formação acadêmica, produtivas, financeiramente independentes, sofrem preconceito, violência doméstica, assédio, tem salários inferiores aos homens que ocupam os mesmos cargos e jornadas duplas de trabalho, fora e dentro de casa. E esse é um pequeno grupo de mulheres privilegiadas, se comparadas ao grupo das mulheres em geral. Porque a grande maioria das mulheres vive em condições sub-humanas por este planeta, são mutiladas, assassinadas, escondem o corpo, o cabelo, não têm acesso à educação, não têm o direito de ir e vir, são escravizadas pelos maridos/donos, não têm participação política, não têm voz nem representação, não têm direitos. A elas é proibida a liberdade, nasceram e vivem sem escolhas, são reféns da violência e dos maus tratos, são consideradas inferiores. Sequer podem sonhar em ganhar o mundo, nem desconfiam que existe mundo além das cercas que as contêm.

A luta é pelo reconhecimento e pelo respeito, é uma luta pelo direito de viver, de ser, de conquistar, de se expressar, de sonhar e ter ferramentas para realizar os sonhos. É pela possibilidade de livrar-se de um passado de opressão e violência, de superar a própria historia e de dividir com os homens as oportunidades de usufruir a vida através da evolução, do aprendizado, do ganho de consciência, de todas as melhorias na qualidade de vida. O sonho de uma sociedade com relações justas, dignas, respeitosas e igualitárias é acalentado e gestado no coração e no ventre feminino, cresce cada vez mais à espera de um bom parto!

O atraso em postar não é devido à Autora, e sim à formatadora online, ao que peço desculpas