Dia de Poesia

Affonso Romano é mineiro, escritor, poeta, e na década de 60 participou do movimento de vanguarda literária. É autor do livro “A Mulher Madura”, de onde foi extraído o texto abaixo.

O olho da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

(15.9.85) Affonso Romano de Sant’Anna

O Outono e nós

Sou apaixonada pelo Outono, para mim é a estação do equilíbrio. Nele há de tudo um pouco: luz, calor, frio, vento, brisa, chuvas, todos os elementos se alternam e partilham o tempo e o espaço numa dança harmoniosa e ritmada, como bailarinos sobre um palco. O céu de Outono desfila cores únicas, com nuances e tons pouco vistos em outras estações; o jogo entre luz e sombras é discretamente sedutor. Ele não possui o colorido da Primavera, a intensidade do Verão, a frieza do Inverno. Mais parece um almágama, uma fusão perfeita dos elementos que tecem a trama da vida e da natureza. Não é a toa que o correlacionam com a maturidade. Nós, mulheres aos 50, somos outonais.

Foi-se a necessidade abusiva de marcar território, de precisar pertencer a todo e qualquer círculo para poder sentir-se aceita; de exagerar na aparência, de abrir mão de viver certos prazeres porque o cabelo não está impecável, as unhas não estão feitas. Foi-se a necessidade de “primaverar” todo o tempo, de parecer sempre radiante e florida. Também não há mais aquela intensidade que nos queima por dentro, a ansiedade de beber a vida num único gole, como se não houvesse depois. Talvez tenhamos aprendido a manusear melhor o tempo, transformá-lo em um aliado. Muito embora ele tenha trazido a modificação do nosso corpo e acrescentado marcas que não tínhamos, esse mesmo tempo nos permitiu experimentar tantas coisas diferentes e aprender com elas, que pudemos mudar a maneira de compreender o mundo por estarmos mais próximas de compreender a nós mesmas. A chama interna continua a nos aquecer, os sonhos prosseguem sonhados, mas agora entendemos que é preciso respirar entre um movimento e outro. É preciso dar tempo ao tempo para que a vida flua no seu próprio ritmo e velocidade, e não naquele que tentamos impor.

Somos discretamente sedutoras, e a sedução exercida envolve o olhar que não se acanha em penetrar nos olhos do outro; envolve uma certa serenidade que foi a duras penas conquistada; um rasgo de sabedoria de quem já correu várias maratonas e discrimina um pouco melhor o que vale ou não vale ser conquistado. Envolve um fogo que aquece mais do que queima, e é alimentado pela curiosidade, pelas ideias, pelo aprendizado, pelo desejo de estar melhor consigo mesma e de ser alguém melhor para o outro.

Assim como no Outono as árvores soltam as folhas amareladas, também nós estamos aprendendo a deixar ir o que não agrega mais, nos permitir desapegar do que já foi desgastado pelo tempo e perdeu o viço e a força, e isso vale tanto para pessoas como para conceitos, fórmulas, maneiras de estar no mundo. Sabemos que ficamos desnudas, às vezes esvaziadas, mas esperamos florir novamente assim que o Inverno passar. Talvez essa seja a mais humana das estações, e é preciso sensibilidade para percebê-la. Talvez estejamos em um momento onde seja possível nos aproximarmos mais do humano e do divino que habita em nós, e conciliar essas forças para que, amalgamadas, nos deem abrigo para quando chegar o inverno.

A curva da felicidade

Mirian Goldenberg é uma antropóloga brasileira que há 30 anos estuda sobre envelhecimento e, segundo ela, pesquisas realizadas por economistas em 80 países, envolvendo mais de dois milhões de pessoas, revelou um padrão constante: as pessoas mais jovens e as mais velhas são as que se sentem mais felizes, e as que se sentem menos felizes são as que estão entre os 40 e os 50 anos.

Essa curva da felicidade tem o formato da letra U, e indica que a felicidade é maior no começo da vida, diminui ao longo dos anos e atinge seu ponto mais baixo por volta dos 45 anos. Depois volta a subir, mostrando que as pessoas mais velhas com boa saúde e estabilidade financeira e afetiva podem sentir-se tão felizes quanto as pessoas mais jovens.

Ela também realizou uma pesquisa entre as mulheres brasileiras e constatou a mesma curva da felicidade. Isso significa que as mulheres entre os 40 e 50 anos são as que se sentem mais infelizes, frustradas e deprimidas. Reclamam pela falta de reconhecimento, de tempo e de liberdade, e não se sentem mais jovens; o corpo já não se apresenta de acordo com o ideal vinculado pela sociedade. E parece que a partir de 50 anos as coisas melhoram, e as mulheres com mais de 60 se consideram felizes, por sentirem que alcançaram a possibilidade de serem elas mesmas, de desfrutarem de um sentimento de liberdade.

E isso vem do desapego da necessidade de agradar e cuidar de todos e de tudo, e o tempo passa a ser usado no sentido de fazer coisas para si mesma, viver o que antes não foi vivido, priorizar a própria felicidade. Para isso tiveram que aprender a dizer não, o que é muito libertador para nós mulheres, uma vez que sempre assumimos o papel de cuidadoras alheias. Cuidamos da casa, do marido, dos filhos, dos pais, depois dos netos, e por aí vai, mas, pela dificuldade de usar o não como um limite, acabamos por não cuidar de nós mesmas. Pela pesquisa, essas mulheres também fizeram uma faxina na vida, se desfizeram de tudo que não é mais importante, mas principalmente, se afastaram das pessoas consideradas “vampiros emocionais”, que só criticam e sugam nossa energia. E, por fim, ligaram o “foda-se”, não no sentido da falta de empatia ou generosidade com o outro, mas no sentido de prescindir da aprovação alheia.

Ou seja, eu decido o que eu quero e gosto de fazer, e uma vez decidido, faço! Perco o medo do julgamento e da crítica do outro, não tenho mais a necessidade de me preocupar com o que vão pensar de mim. Lembram quando a Beth Faria, com 72 anos, foi duramente criticada por ir à praia de biquíni? E lembram-se do que ela respondeu? Que o que queriam é que ela se envergonhasse por ter envelhecido, queriam que ela fosse à praia de burca, mas que ela priorizava a liberdade, o prazer e a alegria.

Não precisamos esperar chegar aos 60 para conquistar a liberdade de viver de acordo com o que trazemos dentro, por que não buscar isso agora? O despir-se dos personagens que assumimos e dos papéis sociais que nos foram impostos e que acolhemos, é um processo de desconstrução. Talvez não seja fácil nem rápido, mas vale a pena adentrar a terceira fase da vida com transparência, leveza, autenticidade. Com clareza dos sentimentos e dos desejos, com consciência nas escolhas que contemplam o próprio coração. Já somos suficientemente amadurecidas para discriminar o que nos pertence e o que não nos pertence, o que é desejo meu e o que é expectativa do outro.

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

Elas – Unindo-se aos aliados

Guinefar, ou Guinever é mais conhecida por nós pelas lendas do Rei Arthur e a Távola Redonda.
Na maioria dos filmes ela aparece como uma princesa loira e católica que no caminho até se encontrar com Arthur se apaixona por Lancelot e isso cria um triângulo amoroso difícil.

Mas Gwenhwfar é muito mais do que isso.
Deusa da Terra do panteão celta, traz dentro de si o poder da união para a conquista da harmonia. É necessário que Arthur se una a Gwenhwfar para que ele possa reinar sobre as terras e trazer a tão sonhada paz.

É necessário ter aliados para governar.
Para que a Távola Redonda tenha todo o poder ela deve contemplar a todos.
Cada um traz consigo uma energia, uma força, um recurso.
E é a união delas que nos fornece uma gama infinita de possibilidades de conquistas.

Como você procura e se une a seus aliados? Como você comparte seus recursos? O que recebe em contrapartida?
Você dá seus recursos ou eles são arrancados de você?
Você se senta ao lado do rei? Ou deixou que lhe tomassem sua força?
Segue junto com Arthur ou foge com Lancelot?

 Texto de Denise Scalon, 

Artista plástica, co-criadora do jogo Elas.

Mulheres maduras

Nós, ditas mulheres maduras, já vivenciamos por meio século, um montante de experiências e aventuras das mais variadas matizes. E tudo que vivemos está registrado em nós, tanto no corpo físico quanto na nossa alma. Somos criaturas pulsantes, buscadoras, corajosas, curiosas. Já fomos mais intempestivas do que somos agora, já nos deixamos inundar pela enxurrada de emoções, já nos deixamos cortar e florescemos novamente. Sabemos o sabor da alegria e também da tristeza, o doce e o amargo, temos aprendido a navegar nas cheias e nas vazantes. Somos seres sensíveis e caminhamos pela vida à luz do sol e à sombra da lua, desejamos compreender a nós mesmas e encontrar o que nos complementa. Já recebemos nossos filhos e, de certa maneira, já os deixamos ir. Fomos filhas e nos tornamos mães de nossos pais. De cuidadas, passamos a cuidadoras. Sabemos nos virar na cozinha, arrumar a mesa, receber os amigos, nos tornamos profissionais em busca de realização e reconhecimento. Também sabemos olhar o céu e nos comunicarmos com as estrelas. Entendemos que a vida é cíclica, uma roda gigante sem começo nem fim, e tentamos desfrutar da subida e nos manter equilibradas nas descidas.

Continuamos tendo sonhos e medos, protegendo e querendo proteção, alimentando certezas e acalentando dúvidas. Tudo o que fomos permanece em nós, como tintas sobre tela. Com o passar dos anos algumas ficam esmaecidas e outras continuam vívidas, mas nada se apaga no ser atemporal que em nós habita. Somos amadas e amantes, e o tempo nos ensina a necessidade de aproximação com a natureza, uma vez que reconhecemos que fazemos parte dela. O som da chuva e o cheiro da terra nos acalmam, precisamos do mar, das montanhas, do azul e do verde. O vermelho do fogo também nos atrai, e com ele aprendemos a permanecer, a manter acesa a labareda do desejo. Desejo pela vida, por novos trajetos, por percursos ainda a descobrir. Desejo de continuar e viver intensamente cada novo dia, cada nova noite.

Somos assim, nada nos define, nem poderia, porque trocamos de pele sempre, metamorfoses ambulantes. Sabe aquela velha opinião formada sobre tudo? Não temos, se é que um dia tivemos. Compreendemos que sabemos quase nada a respeito desse todo complexo e inatingível. Mas caminhamos, mantemos a marcha, como quem segue por uma estrada cuja paisagem sempre se modifica. Sabe-se lá onde essa estrada vai dar, mas pouco importa. O que importa é o caminhar.