Resiliência

Você sabe o que é resiliência? Bem, talvez você não conheça o conceito, mas certamente usa dessa habilidade em muitos momentos da vida. Resiliência, segundo definição da psicologia, é a capacidade do indivíduo em lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar adversidades, resistir a pressões diversas sem colapsar física, emocional ou mentalmente. É a habilidade em encontrar soluções estratégicas para enfrentar as dificuldades que se apresentam.

Ah, agora você identificou-a, não é mesmo? O que seria de nós se não tivéssemos desenvolvido essa capacidade! No vai e vem da vida, o que não falta são obstáculos para serem enfrentados, basta ver os acontecimentos desta semana. O país está caótico com a greve dos caminhoneiros, e a falta de abastecimento já começa a atingir todos nós. Postos sem combustível, prateleiras esvaziadas nos supermercados, fake news rolando solta, medos alimentados por previsões pessimistas e ameaças diversas. O que fazer diante desse cenário?

Bem, engrossar o coro dos negativistas de plantão é colocar lenha na fogueira. Somos energia, lembram-se? Tudo que pensamos, sentimos e falamos são formas de vibrar energia. Em momentos de crise, seja interna ou externa, é preciso cuidar do que emitimos para nós mesmos e para o mundo. Manter-se centrado, focado no desfecho positivo da situação é uma postura sempre bem-vinda; adaptar-se às circunstâncias do momento também. Esbravejar, xingar, atolar-se no lodo emocional só traz mais prejuízos à nossa saúde e mais caos à realidade já tão conturbada.

Estamos todos atravessando as mesmas dificuldades e a diferença se dá através da maneira como lidamos com elas. E isso vale para toda e qualquer situação que não apresente um cenário favorável. Quando as coisas escapam do controle que fantasiamos ter, traga a atenção de volta a você mesmo, observe como você atua diante da situação. Faça um esforço para se manter equilibrado, equacione sua rotina da melhor maneira possível, seja flexível para encontrar soluções criativas, seja resiliente!

Somos muito mais capazes de lidar com as dificuldades do que imaginamos ser. Não nos deixemos levar pela loucura anunciada do mundo, nem pela sua pobre descrição. Impossível não lembrar da admirável mulher e poetisa goiana Cora Coralina, que lindamente nos diz:

“Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir”.

Movimento e mudança

Por que será que nós, seres humanos, temos dificuldade em nos movimentar no decorrer da vida? Já perceberam quantas fases de estagnação vivenciamos? Fazemos escolhas e nos enraizamos nelas, via de regra. O tempo passa, o prazo de validade vence, e nos mantemos firmes, mesmo quando a situação torna-se desconfortável; tememos a mudança. Vale lembrar que o Universo move-se o tempo todo; a Terra se desloca assim como o Sol, o Sistema Solar, a Via Láctea e todas as galáxias, em uma espécie de balé espacial, em decorrência do Universo estar em constante expansão.

Para expandir é preciso mover-se, alguém duvida? Há fases em que a vida parece estreitar-se, perdemos de vista a amplidão que trazemos em nós, nos sentimos limitados e acuados. É um momento onde tudo nos consome e só conseguimos enxergar os limites do espaço interno ao qual estamos confinados. O que fazer quando nosso olhar já não consegue mais perceber as cores da vida? Aqui há uma escolha: entregar-se ou mover-se para provocar uma mudança.

De um lado vem o medo, o grande antagonista a ser enfrentado; se não o fazemos, ele nos paralisa, torna-se o comandante da situação a tal ponto que é capaz de nos roubar os sonhos. Do outro lado vem o desafio do desapego, do soltar o que temos carregado agarrado em nós, a estória até aqui vivida dentro dos parâmetros conhecidos. O convite a derrubar as cercas que nos separam do novo e do ainda não vivido, de um horizonte que se abre cheio de possibilidades e de dúvidas.

Não se engane acreditando que o período das grandes mudanças ficou para trás, que isso só é possível quando somos muito jovens; essa é mais uma armadilha do medo. Na verdade, a ausência de movimento nos envelhece, nos engessa fazendo com que a rigidez nos envolva feito mortalha. Podemos mudar sim, para isto é preciso estar disponível para a vida.

Reveja suas escolhas, atualize seus planos. A pessoa que você era já não existe da mesma maneira, porque assim como o Universo, estamos em constante expansão. Observe-se sempre, veja se há brilho no seus olhos, se há entusiasmo na sua forma de agir. Se perceber que a vida está muito chata, mude! O mundo é aquilo que projetamos nele, um mundo novo se cria através de novos sonhos, arrisque-se! Regue sua alma, solte sua criança interior. Deixe-a brincar, experimentar, criar, liberte-a do pesadelo do mundo. Ressignifique sua existência sempre que for preciso, afinal, estamos aqui também para aprender como ser feliz.

ELAS – O caminho dos desafios

Vamos voltar à jornada da Heroína, através de um mito aborígene.

As irmãs Wawilaks se encontravam na chácara sagrada da Serpente Arco-íris, Yurlungur, quando acidentalmente contaminaram seu solo com uma única gota de sangue menstrual. Esse insulto não passou despercebido e a serpente Yurlungur, furiosa, fez com que as chuvas caissem incessantemente até inundarem a chácara.

Para apaziguar Yurlungur, as irmãs decidem cantar. Mas, nada acalma a serpente que emerge das águas e engole as Wawilaks e seus bebês recém-nascidos.

No interior da serpente, as irmãs sentem culpa e medo. No entanto, nada poderia fazer com que desistissem de sobreviver, pois o amor por seus filhos era inabalável. Elas resistem e choram muito até que são regurgitadas pela serpente. Graças à persistência, elas voltam à luz.

Como as Wawilaks, toda pessoa atravessa períodos de dificuldades, desafios. Por vezes, a perda da alegria e da esperança  faz com que nos sintamos enclausurados, na escuridão.

Como sair de uma situação desesperadora?
Usar o poder do guerreiro, nessa luta eterna, ou usar o poder interior do Espírito e a convicção para abrir o campo dos milagres a partir de uma receptividade pacífica e feminina?

As Wawilaks nos apontam um  caminho de retorno, de não desistência, de convicção íntima.

Mães

A maternidade é uma experiência individual, e por esta razão não cabe em nenhuma definição. Na data comemorativa de hoje não faltam narrativas sobre o que é ser mãe, cheias de adjetivos, “julgamentos”, explicações, poesia. A figura da mãe é de tal forma valorizada que parece tratar-se de um personagem mítico, saído de um conto sobre deusas e heroínas. E fica também subentendido que é impossível habitar o “Olimpo”, ao lado dos deuses, sem passar pela maternidade. Será?

A sociedade e a cultura não são justas com os indivíduos, principalmente com as mulheres. Há uma expectativa de que as mães sejam uma mistura de Mulher Maravilha com madre Teresa de Calcutá. A maternidade é abordada como um contínuo estado de graça, onde não há lugar para o cansaço, a decepção, o desgaste, o tédio. E as mães que se sentem assim, vez por outra ou com frequência, carregam a culpa por não se parecerem com as mães dos comerciais de TV, dos anúncios de eletrodomésticos, com a ideia que nos é transmitida desde o dia em que ganhamos a primeira boneca, a primeira filhinha. E as mulheres que declaram abertamente a escolha de não terem filhos são vistas com desconfiança, como se tivessem algum defeito.

Acredito que estamos aqui como seres encarnados em busca de aprendizado e evolução, e há vários caminhos que podem ser percorridos para que esse objetivo se cumpra, a maternidade é só um deles. A trilha da aquisição de consciência e aperfeiçoamento interno, de acolhimento para as dores próprias e alheias, do cuidado consigo mesmo e com o outro, implica no desenvolvimento da amorosidade, da generosidade e do perdão. Há homens e mulheres que percorrem esse caminho sem terem tido filhos, e há também mulheres que geraram crianças e que desconhecem essa possibilidade. Ser mãe não nos torna melhores nem mais dignas.

Entretanto, dispor-se a abandonar o aspecto narcisista e caminhar em direção ao outro, mesmo que ele, o outro, nos frustre nas nossas expectativas, transforma qualquer ser humano. Nesse aspecto, a maternidade oferece uma grande oportunidade, que pode ou não ser aproveitada. É a oportunidade da transformação, do aprendizado amoroso, de migrar de escolhas egoístas para escolhas mais altruístas. Como eu coloquei no começo do texto, a maternidade é uma experiência pessoal.

Eu tenho dois filhos, dois meninos que vi crescer; neste ano, um faz 22 e o outro 17. Desejei cada um deles muito antes de terem nascido. Não dormi boa parte dos últimos 22 anos, e ainda agora o sono é entrecortado. Um olho fecha e o outro se mantem aberto até o contorno deles aparecer no corredor, já madrugada adentro. Eu, como todas as outras mães que se renderam a essa experiência, tenho o cheiro deles bebês guardado nas minhas lembranças, assim como os sorrisos, os choros, os primeiros passos, todos os sustos, as idas ao pronto socorro com aquele corpo ardendo em febre. Tenho a lembrança do primeiro dia na primeira escola, a dor da separação, a expectativa de que o tempo passasse depressa para chegar a hora de ir buscá-los.

Também guardo feito tesouro cada conquista, cada superação, gesto amoroso, olhar derretido. Essas lembranças dividem espaço com os gritos acompanhados das birras, o som das portas batidas, as palavras que não esperava ouvir. Hoje já traçam seu próprio caminho, fazem escolhas onde não estou incluída. Mas nem eles nem eu dispensamos a convivência, pelo contrário. Os abraços são mais escassos porém muito mais longos, os olhares se buscam quando estamos juntos. E na verdade estamos sempre juntos, porque estar junto é estar dentro, é um morar dentro do outro. Assim como, tenho certeza, moro em minha mãe e ela mora em mim.

Bert Hellinger, psicoterapeuta alemão e criador das Constelações Familiares, diz que uma pessoa está em paz quando todas as pessoas que pertencem à sua família têm um lugar no seu coração. Que nossas mães possam estar em nossos corações, e que nós, mães, possamos estar no coração dos nossos filhos!

Sonho: o fio conector com a vida

Você já sonhou hoje? Não estou me referindo aos sonhos noturnos, que acontecem enquanto dormimos, aos sonhos que são mensagens do nosso inconsciente; me refiro à capacidade de sonhar, de desejar algo melhor para nós mesmas. A busca pelo novo, pelo que está além da realidade do cotidiano, aquele algo a mais que faz toda a diferença na qualidade de vida. Muitos confundem o sonho com a utopia, e embora eles tenham semelhança, não representam a mesma coisa. Segundo o dicionário, utopia é um lugar ou estado ideal, de completa harmonia e felicidade entre os indivíduos. Já o sonho é um pontapé inicial no processo de buscar a realização pessoal em algum aspecto da vida; nele estão inseridos a possibilidade de imaginar para além das cercas que nos são impostas e que nós mesmas criamos. Implica em confiança, esperança, determinação e ação. Se não houver ação, o sonho não passa do estágio da fantasia.

Somos muito condicionadas pelo sistema de crenças que rege a sociedade na qual vivemos; essas crenças são restritivas e estão a serviço de manter a humanidade no patamar da subserviência e da limitação. Do tempo de nossas avós para agora, poucas coisas, de fato, mudaram. Do ponto de vista quantitativo, o número é mais expressivo. Mas do ponto de vista qualitativo, temos muito o que sonhar!

Fomos domesticadas a nos contentar com pouco, e esse pouco é visto como se fosse muito. Sobreviver já parece muito, mas não é. A quem basta sobreviver? Depois de passado meio século de existência, não aceito ter apenas superado as dificuldades, ter vencido os obstáculos e ter sobrevivido a todas as dores. Claro que reconheço minha força e sou grata por cada superação, mas isso não é suficiente para eu me aquietar. Continuo sonhando com uma vida feliz, cada vez mais feliz. Não a felicidade utópica, que exclui o conflito, a frustração, as emoções menos nobres. Mas a felicidade possível porque sonhada, a ampliação do bem estar, a intensificação dos momentos felizes, o prazer como algo que está inserido no cotidiano, dividindo o espaço com todo o desconforto que faz parte do jogo da vida.

Essa felicidade não é um presente, mas uma conquista, e depende menos da sorte e mais do afinco em sonhar. Depende do intento, que pode ser compreendido como a energia proveniente do propósito, da vontade de realizar algo, e disso se transformar em uma bússola existencial que vai nortear a emoção, o pensamento e a ação. Sonhar não é para amadores, é coisa de gente grande, de gente que, vira e mexe, resvala na sua essência ou alma, ou como quer que a chamem. De pessoas que começam a desconfiar que o Universo é muito maior do que aprendemos a acreditar, e que nós, criaturas humanas, somos tecidas com o fio do divino, do Criador, e que também podemos criar uma outra realidade, maior e melhor, para nós mesmas e para o mundo no qual vivemos. E onde tudo começa? Na arte de sonhar….