Mães

A maternidade é uma experiência individual, e por esta razão não cabe em nenhuma definição. Na data comemorativa de hoje não faltam narrativas sobre o que é ser mãe, cheias de adjetivos, “julgamentos”, explicações, poesia. A figura da mãe é de tal forma valorizada que parece tratar-se de um personagem mítico, saído de um conto sobre deusas e heroínas. E fica também subentendido que é impossível habitar o “Olimpo”, ao lado dos deuses, sem passar pela maternidade. Será?

A sociedade e a cultura não são justas com os indivíduos, principalmente com as mulheres. Há uma expectativa de que as mães sejam uma mistura de Mulher Maravilha com madre Teresa de Calcutá. A maternidade é abordada como um contínuo estado de graça, onde não há lugar para o cansaço, a decepção, o desgaste, o tédio. E as mães que se sentem assim, vez por outra ou com frequência, carregam a culpa por não se parecerem com as mães dos comerciais de TV, dos anúncios de eletrodomésticos, com a ideia que nos é transmitida desde o dia em que ganhamos a primeira boneca, a primeira filhinha. E as mulheres que declaram abertamente a escolha de não terem filhos são vistas com desconfiança, como se tivessem algum defeito.

Acredito que estamos aqui como seres encarnados em busca de aprendizado e evolução, e há vários caminhos que podem ser percorridos para que esse objetivo se cumpra, a maternidade é só um deles. A trilha da aquisição de consciência e aperfeiçoamento interno, de acolhimento para as dores próprias e alheias, do cuidado consigo mesmo e com o outro, implica no desenvolvimento da amorosidade, da generosidade e do perdão. Há homens e mulheres que percorrem esse caminho sem terem tido filhos, e há também mulheres que geraram crianças e que desconhecem essa possibilidade. Ser mãe não nos torna melhores nem mais dignas.

Entretanto, dispor-se a abandonar o aspecto narcisista e caminhar em direção ao outro, mesmo que ele, o outro, nos frustre nas nossas expectativas, transforma qualquer ser humano. Nesse aspecto, a maternidade oferece uma grande oportunidade, que pode ou não ser aproveitada. É a oportunidade da transformação, do aprendizado amoroso, de migrar de escolhas egoístas para escolhas mais altruístas. Como eu coloquei no começo do texto, a maternidade é uma experiência pessoal.

Eu tenho dois filhos, dois meninos que vi crescer; neste ano, um faz 22 e o outro 17. Desejei cada um deles muito antes de terem nascido. Não dormi boa parte dos últimos 22 anos, e ainda agora o sono é entrecortado. Um olho fecha e o outro se mantem aberto até o contorno deles aparecer no corredor, já madrugada adentro. Eu, como todas as outras mães que se renderam a essa experiência, tenho o cheiro deles bebês guardado nas minhas lembranças, assim como os sorrisos, os choros, os primeiros passos, todos os sustos, as idas ao pronto socorro com aquele corpo ardendo em febre. Tenho a lembrança do primeiro dia na primeira escola, a dor da separação, a expectativa de que o tempo passasse depressa para chegar a hora de ir buscá-los.

Também guardo feito tesouro cada conquista, cada superação, gesto amoroso, olhar derretido. Essas lembranças dividem espaço com os gritos acompanhados das birras, o som das portas batidas, as palavras que não esperava ouvir. Hoje já traçam seu próprio caminho, fazem escolhas onde não estou incluída. Mas nem eles nem eu dispensamos a convivência, pelo contrário. Os abraços são mais escassos porém muito mais longos, os olhares se buscam quando estamos juntos. E na verdade estamos sempre juntos, porque estar junto é estar dentro, é um morar dentro do outro. Assim como, tenho certeza, moro em minha mãe e ela mora em mim.

Bert Hellinger, psicoterapeuta alemão e criador das Constelações Familiares, diz que uma pessoa está em paz quando todas as pessoas que pertencem à sua família têm um lugar no seu coração. Que nossas mães possam estar em nossos corações, e que nós, mães, possamos estar no coração dos nossos filhos!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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