Simone de Beauvoir

Mulher, francesa, escritora, ativista política, feminista e companheira de Jean- Paul Sartre, que se destacou pela inteligência e perspicácia intelectual, é dela a frase:

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.”

Esse é um pensamento grande, vasto e complexo como o próprio universo feminino, e talvez represente a busca interminável de todas as mulheres, o desejo mais sincero que reside no coração de todas nós. O mundo, assim como o conhecemos, ainda não é um lugar onde esse sonho possa ser acalentado. O mundo, assim como o conhecemos, prossegue sendo machista, separatista, castrador e opressor para todas as criaturas, e mais especialmente para as mulheres. A todo momento somos surpreendidas por definições e sujeições onde a liberdade, feito pássaro selvagem, bate asas para longe da realidade do cotidiano feminino.

Seja onde for, seja na classe social que for, a ignorância e o preconceito ficam estampados no comportamento masculino que guarda cheiro de mofo e naftalina, que insiste em atravessar décadas, séculos sem grandes revisões, que não sabe se reinventar, que tem dificuldade em mover-se na espiral da consciência humana. É evidente que não me refiro aos homens de modo geral, há muitos que merecem admiração e respeito pela integridade que perseguem no decorrer da vida, pelo esforço que fazem junto às mulheres de criar uma nova maneira de estar no mundo e de se relacionar. Assim como também há mulheres que reproduzem o comportamento masculino do início da história da humanidade e que não me representam.

Me refiro aqueles a quem falta discernimento e respeito às próprias origens, às mães e outras tantas mulheres (avós, tias, primas, madrinhas) que os acolheram quando aportaram neste mundo e cuidaram para que crescessem, às mulheres professoras que os guiaram na jornada da aprendizagem, às mulheres ajudantes nas tarefas domésticas, que lavaram suas roupas, cozinharam sua comida, limparam o lugar onde vivem.

Porque esse grupo de homens brasileiros que estão na Rússia assistindo a Copa do Mundo provavelmente tiveram tudo isso, e muito mais. E mesmo assim, reproduzem a violência contra as mulheres através do assédio moral, e postam nas redes sociais como se fosse um grande feito, fazendo questão de mostrar seus rostos com o riso de quem triunfou, sem nenhum constrangimento. Não me refiro a um único grupo, o primeiro cujas postagens causaram repercussão, mas há outros que também surgem agora, e parecem funcionar como uma rede solidária aos primeiros agressores.

A desaprovação desse comportamento é geral, mas ainda há quem considere isso apenas molecagem. Não senhores, moleques devem ser mantidos sob a tutela de seus responsáveis, moleques não embarcam sozinhos em aviões, não transitam desacompanhados pelas ruas. Isso não é molecagem, é agressividade, é perversidade, é violência; tão pouco é humor, porque envolve humilhação. Se alguém se diverte às custas da dor e da humilhação do outro, isso é sadismo.

A culpa nossa de cada dia

Não sei se hoje escolhi um tema pesado ou se foi ele que me escolheu, o fato é que deu vontade de refletir sobre o significado dessa palavra tão pequena e tão complexa que é “culpa”. Às vezes acredito que esse é o sentimento (se é que podemos chamá-la assim) que mais está presente em nossa vida, desde sempre e até sabe-se Deus quando. Mais do que amor, saudades, raiva, tristeza, alegria, ou, pelo menos, mais intensa. Porque aquilo que sentimos nas mais diversas situações da vida parece vir sempre acompanhado, de perto ou de longe, por uma sensação de culpa.

Eu estudei em colégio católico, entrei para fazer o Pré-Primário por volta dos seis anos. Lembro que desde o inicio tínhamos aula de religião, e aprendi logo cedo a ter medo de Deus… Na época de preparação para a Primeira Comunhão tínhamos que listar nossos pecados e arrepender-nos por tê-los cometido, afinal o arrependimento era o caminho que nos levaria ao perdão e à isenção da culpa. Nós, crianças ainda no final do primeiro septênio, já carregávamos a culpa dos pecados que semanalmente tínhamos que confessar ao padre que nos aguardava na capela do colégio. Ficávamos em fila esperando a nossa vez, e o meu desassossego beirava o desespero. Procurava na memória recrutar os pecados da semana, mas eles eram difíceis de serem achados. Eu era aluna de notas altas, adorava estudar, não tinha como garimpar culpa aí… também era obediente, muito mais por medo do que por índole, não respondia aos meus pais nem à professora, rezava todas as noites assim como fazia a lição de casa sem precisar que minha mãe mandasse, então a sensação era de que eu não tinha o que confessar! Me arrepender do que?…

Nesse ponto batia a culpa; como assim, eu não tinha pecados para confessar??? Que criança horrível eu era por achar que não pecava!! Devia ser orgulho, ou soberba, ou vaidade, um pecado pior que o outro, e de alguém que não conseguia elencar os pecados eu me transformava em pecadora mor, para deleite do meu sádico sentimento de culpa e alívio do padre que tinha como me mandar rezar seis Pai Nossos e seis Ave Marias. E mesmo sendo boa filha e boa aluna já se enraizava em mim a vivência da culpa.

E não deve ter sido muito diferente com vocês, independente de terem estudado em colégio religioso ou não, de terem religião ou não, a culpa permeou a nossa geração, permeia a cultura, reside no inconsciente coletivo, é o algoz dos seres humanos e especialmente de nós mulheres. Passeia livremente na escala das medidas, vai desde a manifestação do desejo sexual até o arroz que ficou com gosto de queimado por ter grudado no fundo da panela. Transita no abandono que sentimos ter feito, seja em relação aos filhos em função do trabalho, seja em relação à carreira profissional em função dos filhos.

Aparece no meio da noite quando acordamos sobressaltadas, culpadas pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer. Nos encara na balança, quando o peso constatado é muito maior do que o pretendido, no ginecologista quando nos sentimos acusadas de irresponsáveis por furarmos a rotina dos exames de rotina… Ela, a culpa, também senta-se ao nosso lado no café da manhã quando nos damos conta que acabou a manteiga e o requeijão, e que não há o que passar no pão.

E pega ainda mais pesado quando percebemos que largamos pelo caminho sonhos, desejos, aspirações, realizações, loucuras não cometidas, prazeres adiados.

A esta altura do baile, já cinquentinhas ou cinquentonas, está mais do que na hora de fazer uma troca e largar a culpa pelo caminho, essa mala sem alça, esse peso que atrapalha nosso caminhar. Abandoná-la não é fácil, afinal ela foi nossa companheira inseparável, mas quer saber? Antes só do que mal acompanhada!

Que possamos reinventar a vida sem o sentimento de culpa, que possamos trocá-lo pela consciência da responsabilidade, das escolhas e suas consequências, do que é possível em determinado momento e do que é preciso deixar para depois.

Que a brisa suave sopre sobre nosso rosto, nosso corpo, nossa alma, e que nossa jornada, daqui para a frente, seja marcada pela leveza de quem já se desapegou do peso desnecessário de carregar!

Sororidade

Essa é uma palavra pouco usada na nossa língua, até desconhecida para muitas pessoas, e sabem por que? Porque ela representa um conceito relativamente novo na nossa cultura, que é o de união e aliança entre mulheres, baseada em empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum. Essa palavra tem sua origem no latim sóror, que significa “irmãs”, assim como fraternidade se origina do prefixo latino frater, que significa “irmão”.  Sororidade sugere uma irmandade entre mulheres, onde rivalidade e julgamentos preconceituosos entre nós ficam excluídos, de forma a não engrossar o coro machista que se fortalece através desse tipo de comportamento das próprias mulheres.

Acho que levamos alguns bons anos para descobrir o que sororidade significa na prática, mas a longa espera vale a pena! Atravessamos longos desertos durante a adolescência e a juventude, na medida em que estabelecemos relações de desconfiança, competição, inveja e ciúmes entre nós mulheres. Rivalizamos na disputa do olhar masculino, como se através dele pudéssemos conquistar a identidade feminina.

Um pouco mais tarde, quando nos tornamos jovens mães, continuamos a olhar outras mulheres com certa desconfiança, comparando o comportamento das crianças, as nossas e as outras, como se estivéssemos disputando o troféu de melhor mãe do mundo, a mais competente entre todas. Criticamos os filhos alheios para poder valorizar os nossos, e através deles criticamos outras mulheres para promover a auto valorização. No mercado de trabalho as coisas não são muito diferentes, quantas vezes fantasiamos que aquela mulher bem vestida e mais próxima do chefe não está lá por méritos próprios, mas por possíveis concessões que possa ter feito…. julgamento e preconceito andam de mãos dadas pela vida.

Só mais tarde atingimos certo grau de maturidade traduzida em uma ampliação da consciência, que nos permite enxergar a nós mesmas e ao mundo com outros olhos. É aí que descobrimos a força dessa irmandade. Nasce a oportunidade de mergulhar nesse imenso Universo feminino não só através de nós, mas também das mulheres próximas. Esse Universo feito de ar, terra, água e fogo. De multiplicidades, multidiversidades e de busca pela unidade. Esse feminino que é, ao mesmo tempo, Yansã e Yemanjá, Afrodite e Perséfone. Filha, irmã, mulher, mãe, amante, gestora, administradora, conselheira, conciliadora e guerreira. Um amplo e vasto Universo, descoberto em olhares, sorrisos, rugas, histórias, lágrimas e muito trabalho. Herdado da força de nossas antepassadas, velhas mulheres sábias, benzedeiras, rezadeiras, que transitavam pelo mundo mágico com a mesma facilidade com que caminhavam pelo quintal de suas casas.

Isso me faz lembrar de minha avó e suas irmãs, do quanto andavam sempre juntas, do quanto se apoiavam e se fortaleciam mutuamente, dos muitos cafés com bolo em torno da mesa. Isso me remete às minhas amigas irmãs, a todas essas mulheres com quem tenho o prazer de compartilhar a vida. Do olhar cúmplice, do colo amigo e materno, do esporro preciso, do empurrão certeiro. Viver a sororidade é viver embalada pela força do amor.                        Ao Círculo de Mulheres, e a todas as outras, minha gratidão.

Não querendo ser pessimista

Eu acredito no ser humano, na capacidade de empatia, de elaboração, de reparação. Todos cometemos erros, isto é claro, e tudo bem errar, faz parte da aprendizagem. Aprendemos na prática diária, no exercício de observar, refletir, agir, corrigir a ação, não necessariamente nesta ordem. Introjetamos alguns valores, da família e da sociedade, que deveriam nortear nossas ações durante a vida; na medida em que amadurecemos, revemos esses valores, conferindo-os ou não uma revalidação. Mas alguns deles me parecem universais e sem prazo de validade, sem os quais o relacionamento humano beira a tragédia.

Respeito, solidariedade, gentileza, honestidade, integridade – como viver sem eles?

Às vezes, entretanto, parecem ficar esquecidos em algum canto da memória de algumas pessoas, como se nunca houvessem estado ali, como se não fossem imprescindíveis; é aí que as coisas se complicam…. Neste momento de pós greve dos caminhoneiros, onde sentimos a ameaça da falta do que consideramos produtos básicos de consumo, nos deparamos com ações que em nada dignificam a vida em sociedade. Há quem se aproveite da situação e estabeleça preços abusivos para os produtos que ainda não circulam em abundância pelo comércio, há quem se valha de supostos privilégios para obter vantagens sobre a comunidade… Como explicitei no começo, não sou uma pessoa pessimista, e por isso mesmo me decepciono frente a alguns comportamentos; fosse eu uma pessimista, já esperaria por eles e os consideraria normais.

Difícil aceitar a falta de cooperação em momentos de crise, a possibilidade de tirar vantagem sobre a desvantagem do outro, a ausência de gentilezas. Difícil aceitar quem não se coloca responsável pelas próprias ações, quem distorce os fatos a seu favor, quem discursa sobre a corrupção, mas não se mostra íntegro em sua conduta.

Esperar que os políticos se conscientizem que estão a serviço da nação, que o país cresça e se torne desenvolvido, que a sociedade se comporte de maneira diferente sem modificarmos a própria atitude com o outro e com a coletividade, significa alimentar um pensamento mágico e expectativa infantil perante a vida.

Cabe a cada um de nós a busca pela coerência interna, o estreitamento da distância entre intenção e gesto, pensamento e ação. Somos seres incríveis, capazes de grandes transformações. Para isso precisamos desapegar da ideia do cada um por si, do vire-se quem puder. Se é que isso serviu em algum momento da história do mundo, certamente hoje não serve mais. Nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos, e que juntos possamos construir um mundo com menos desigualdade e mais solidariedade!