Criatividade, vida e prazer

Vida é movimento, concorda? Tudo que está vivo pulsa, respira, cresce, expande, manifesta-se. Quando somos jovens sabemos bem disso, os jovens movimentam-se até não poder mais, o dia é curto (e a noite também…) para tudo o que se quer fazer, peca-se pelo excesso. Excesso de atividades, compromissos, ideias, desejos, criações, encontros, sonhos, tudo que nos liga à vida transborda, quanto mais, melhor. É claro que há muita energia disponível nessa fase, e ela é o combustível para alimentar tantos movimentos.

Como costuma-se dizer, envelhecer é inevitável, mas ficar velho é opcional. Infelizmente, dentro desta estrutura de sociedade na qual vivemos, não há suficiente conscientização da necessidade de ressignificar a vida com a passagem dos anos. Vivemos como se fôssemos imortais, procrastinar virou hábito, deixamos tudo para um dia que nunca chega. E mal percebemos que, de tanto adiar a própria vida, nossos movimentos tornam-se mais lentos e escassos, tanto os internos como os externos.

É preciso estar atento para não permitir que nossos conceitos e percepções se cristalizem, para não entrarmos na zona de conforto e lá estacionarmos para todo o sempre. Ficar velho é escorregar no tempo e mergulhar no poço das certezas e das limitações; as primeiras impedem o aprendizado, as segundas nos convencem que não somos capazes de fazê-lo.

Meditating At Home

Permanecer jovem implica em flexibilidade, abertura, criatividade, ação. É trabalhoso porque demanda desplugar-se do passado e ater-se ao momento presente, na busca incessante dos recursos que estão adormecidos dentro de nós, das potencialidades que permanecem virgens ou foram pouco exploradas, das realizações que nos negamos e das vivências que roubamos de nós mesmos sob pretextos diversos. Certamente, ao dobrar a curva do meio século de vida, não podemos reeditar tudo que fizemos ou que gostaríamos de ter feito nos primeiros 30 anos de existência, porque há um tempo para todas as coisas acontecerem. A questão não é voltar ao passado, seja para lembrá-lo com saudades, seja para lamentar o que deixamos de fazer. A questão é ter a coragem de mergulhar em si mesmo e descobrir o que desejamos agora, sim, porque o desejo permanece, a vontade permanece, o apetite pela vida não diminui com a idade. Se isso ocorre significa que nos deixamos convencer de que a vida só acontece em uma determinada fase da jornada sobre esse planeta, o que não é absolutamente verdade.

Quanto mais vivemos conscientes dos processos que atravessamos, mais nos tornamos inteiros para buscar a vida na sua inteireza também, na sua diversidade, complexidade e beleza. A ampliação da percepção e da consciência nos coloca em vantagem, porque nos torna capazes de intuir o que os olhos não veem, o que não consta da descrição do mundo mas está impregnado na sua alma e na nossa. Isso abre a possibilidade de escolhas mais verdadeiras, de assertividade nos movimentos, de determinação porque temos um prazo para vivenciar o que desejamos, e agora nos apropriamos disso.

Teoricamente temos menos tempo para viver do que já tivemos, mas se soubermos lidar com ele de maneira diferente, teremos a oportunidade de vivê-lo como jamais fizemos, com arte, com graça, com sabedoria, com vivencias profundas e transformadoras, nos permitindo as alegrias, grandes e pequenas, que a intensidade da juventude nos impediu de saborear!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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