Agosto

Minha avó dizia que Agosto era mês de cachorro louco… E tem muitas pessoas que não simpatizam com ele, isto é fato, como se houvesse, no calendário, um mês destinado a causar desconforto ou não trazer sorte. Sabiam que é o mês mais evitado para casamentos? Isso traz vantagens para quem não é supersticioso, porque segundo li, casar-se nesse mês acaba saindo mais barato. Por que será que a maioria das pessoas olha para ele com desconfiança, o que ele suscita em nós que eriça os pelos do corpo?

O inverno é a estação do recolhimento, faz frio, a intensidade da luz é menor, os dias escurecem mais cedo, a vontade de sair por aí diminui. Começa no dia 21 de junho, mas a expectativa das férias nos mantêm no clima do Outono. Para quem viaja para o hemisfério norte não há inverno, para quem gosta de frio, neve, baixas temperaturas nas serras, o inverno é bem vindo, e de um jeito ou de outro, parte-se para as férias. Quando estamos em férias penduramos problemas e pendências no varal do tempo, abandonamos a rotina de obrigações e deveres e mergulhamos no principio do prazer! Julho pode ser considerado como um mês da estação “festa”.

Mas Julho acaba e Agosto chega, trazendo o céu nublado, a garoa fina e gelada, o retorno à rotina; e lá vamos nós, recolher do varal o que nele havíamos pendurado, problemas e pendências saem do quintal e voltam para dentro de casa; o princípio do prazer é substituído pelo princípio da realidade. E o que é realidade? Aquilo que os olhos veem e a mente decodifica?

A descrição do mundo é, para muitos, a realidade. Não é a toa que há quem grude olhos e ouvidos nos noticiários e se convença que o mundo vai de mal a pior, notícia boa tem pouco Ibope! Isso não significa negar a escassa capacidade humana de harmonizar-se consigo mesma, com os outros, com o planeta. Mas o que nossos olhos veem não é tudo que existe, longe disso!

Estamos treinados a olhar para as árvores desfolhadas e percebê-las quase mortas, nos falta sensibilidade para sentir que dentro deles começa o rebuliço do próximo florescer. Estamos treinados para avaliar o quanto a temperatura está baixa e o tanto de frio que faz lá fora, mas nos falta a percepção do quanto podemos aquecer os corações em torno de uma mesa, junto a pessoas queridas, com um bom copo de vinho ou com um prato de sopa quentinho. Temos receio da própria tristeza, não nos damos conta do quanto senti-la é imprescindível para poder buscar a alegria.

Que Agosto nos ensine a aceitar que é preciso anoitecer para raiar um novo dia, que o escuro antecede a luz, que o frio dos ventos internos que nos cortam faz com que possamos reconhecer que o amor nos aquece. Amor próprio e pelo outro, pela natureza, pelas estações do ano. Sem recolhimento não há expansão, sem dor não há crescimento. Sem o tempo de preparação que o inverno propicia não haveria Primaveras; precisamos “invernar” para podermos também florescer!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *