Partidas

Me ausentei do blog nas duas últimas semanas em função da saúde de meu pai, que nos deixou na última segunda-feira. Todos nós, que estamos na faixa dos 50 anos, ou já passamos por isso ou vamos passar. Sabemos, desde a infância, que a vida aqui tem começo, meio e fim; mas só à medida que amadurecemos entramos em contato com o que esse ciclo significa.

Enquanto criança, a morte é uma fantasia ambígua, mistura de medo e magia; há o receio de perder pai e mãe, avós, mas há também o vislumbre de que as pessoas que morrem viram estrelas, e que podemos contemplá-las ao olhar o céu noturno.

Passada a infância, o medo da perda permanece, mas a “magia” nos abandona. O tema ganha nuances bem mais sombrias e pesadas, principalmente para os que vivenciam a perda dos pais ainda jovens, ou de algum amigo tão jovem como nós. Talvez esse seja o momento onde a primeira ficha escorrega, começa a cair ainda que tímida, deslizando sobre nossas emoções e conceitos… quer dizer que tudo pode acontecer, assim, de uma hora para outra?? Quer dizer que não estamos no controle, nem da vida nem da morte??

E aquela onipotência toda, para onde vai? A ilusão da eternidade no plano da matéria? A sensação de que temos todo o tempo do mundo (inesgotável) para fazermos o que quisermos na hora em que desejarmos? O vicio da procrastinação que parece grudado no nosso ser com cola quente ou Super Bonder, que nos faz adiar coisas importantes e nos enche de culpa quando não há mais tempo de vivê-las, como lidar com isso? O que fazer?

Nesse sentido, a morte tem a dura e importante missão de quebrar o espelho que reflete a ilusão infantil a respeito do tempo, da vida, dos ciclos. Ela vem para nos mostrar que a vida é um rio, que brota em uma nascente feito um filete de água, ganha volume à medida em que corre em seu leito, atravessa planaltos e planícies, montanhas e vales, até desembocar no grande oceano, onde deixa de ser rio, morre para essa descrição, e se funde à grande água. Entre o intervalo de nascer e desintegrar-se, há um vasto percurso a ser feito, trabalhado, usufruído. Há incontáveis trocas com todos e tudo que encontramos pelo caminho, há aprendizados, aprimoramentos, acertos e erros que constituem a nossa bagagem.

Meu pai foi um grande e caudaloso rio que atravessou continentes, explorou espaços, fertilizou a terra por onde passou com sua integridade, seu senso de justiça, seu reconhecimento da Divindade, sua fé na vida, seu amor generoso. Agora virou mar, faz parte da Grande Água, mas também virou estrela brilhante no coração da família que ele amou e por quem foi amado.

Somos todos gratos pela sua presença em nossas vidas, e nada nos dói além da saudades, porque exercitamos, na rotina diária da convivência, o amor que sentimos. Que possamos aproveitar nossa passagem por aqui com alegria e consciência, com o propósito de florescer o amor que trazemos no peito, de tal maneira que nossa presença seja uma benção para os que estão ao nosso redor, assim como a dele foi para nós!

“Um guerreiro deve cultivar o sentimento de que já possui tudo que precisa para essa viagem extraordinária que é sua vida… A vida é suficiente e completa em si mesma, e por si mesma se explica.”

Don Juan Matus

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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