Eleições e escolhas

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, nos traz uma ideia interessante a respeito da felicidade; segundo ele, há várias maneiras de ser feliz, baseadas em duas vertentes principais, o destino e o caráter. Destino seria tudo o que nos acontece e sobre o que não temos nenhuma influência, como por exemplo, a geração à qual pertencemos, o país onde nascemos, a família onde fomos criados e outras situações não escolhidas que nos colocam frente a uma gama determinada de opções às quais estamos expostos. Já caráter seria uma característica individual e, em seu conceito, podemos trabalhá-lo e modificá-lo, melhorá-lo, já que boa parte dele estaria sob nosso controle. A relação que se estabelece entre esses dois pilares desenha o caminho da felicidade. Isso significa que há uma gama de opções determinadas pelo destino que nos influenciam, mas sobre as quais não temos influência; entretanto, as escolhas feitas dentro dessa gama são determinadas pelo caráter. Como há muitos e diferentes tipos de caráter, não é possível dar uma receita para a felicidade.

O desdobramento desse conceito sugere que a vida é uma criação pessoal, tecida com fios do imponderável e com outros fios que representam a maneira como escolhemos atuar dentro do cenário que se apresenta. A receita da felicidade seria um engodo, uma vez que cada um de nós percorre um determinado caminho e, dentro dele, faz suas escolhas. O bom para uma pessoa não necessariamente é bom para outra, o que me atrai não é o que te atrai, minha crença não é a sua e, se por acaso, nos encontrarmos em um limiar comum a nós dois, celebraremos a magia dessa possibilidade de compartilhar vivências comuns.

Por que me lembrei de Zygmunt agora? A resposta é simples: porque não suporto mais olhar as redes sociais às vésperas das eleições em um país tão irracionalmente dividido. O nível de ataques nas postagens entre amigos, conhecidos, ou seja lá o que for, defendendo ferrenhamente este candidato ou, mais do que isso, execrando aquele outro candidato e todos que com ele simpatizam, beira a loucura! Nesse balaio de caos ninguém se salva, seja de direita, de esquerda, seja do centro. Deixou-se de discutir ideias enquanto possibilidades. Embarcamos em ideias enquanto verdades absolutas que irão definitivamente nos salvar ou nos afundar , dependendo de quem for eleito.

Então, vamos lá, lembrando o filósofo. Estamos todos vivendo essas eleições e seus candidatos dentro do destino que compartilhamos como brasileiros desta época, frente a essas opções de voto, e esse é o cenário ao qual não podemos escapar. De acordo com o caráter de cada um de nós, com a consciência que podemos alcançar, com a percepção que temos da realidade, votaremos em quem estendemos ser o melhor, ou o menos pior. Nenhum de nós é detentor da verdade, até porque o véu que a oculta é impenetrável para nosso nível humano de consciência. Uma única pessoa que se tornar presidente não irá criar o céu ou o inferno para um a nação inteira, a menos que todos nós decidirmos abdicar do nosso papel de criadores da própria vida, construtores da realidade.

Bom senso e água benta não fazem mal a ninguém!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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