Verdade, meia verdade e Drummond

A eleição de hoje é um marco na história do nosso país, um marco sombrio, como se um pote de tinta escura tivesse sido derramado sobre a nação brasileira. Pensando bem, essa mancha escura que entrou nas famílias, penetrou nos vínculos, ergueu muros e criou distancias entre pessoas, talvez não tenha sido obra externa. O gatilho veio de fora, o estopim foi aceso pela politica, mas a fogueira de vaidades arde dentro de cada um de nós. Me dou conta que os discursos pessoais empatam, senão superam. os discursos dos candidatos no que eles têm de pior, que é a separatividade. Voltamos à Idade Média, ao radicalismo e à intolerância de quem acredita que a sua forma de pensar é a correta, que a sua maneira de olha o mundo é a acertada e de que dá para separar o bem do mal na peneira das emoções, como as mulheres antigamente separavam os grãos de feijão das pedras, na peneira da cozinha. Ao olharmos para essa complexidade de forma tão simplista, corremos o risco do julgamento fácil, da certeza absoluta, da ilusão de que temos a garantia de que esta ou aquela escolha é o que vai nos salvar ou nos afundar de vez enquanto sociedade. Será?

Minha intenção, ao escrever este texto, passa longe de uma análise ou defesa de um determinado posicionamento político, não tenho competência para isso. Minha proposta é nos voltarmos um pouco para dentro de nós, de recapitularmos a maneira como temos nos colocado frente a esse caos, seja por palavras, julgamentos, ações ou omissões. O que mais me assusta no desenrolar de todo esse processo é a certeza que as pessoas parecem ter de que elegeram o “lado bom da força” e que, portanto,  quem está do outro lado, quem fez um escolha diferente , é inimigo e como tal deve ser tratado.  Não me identifico com a retaliação e separação do todo em partes, o certo e o errado, o bem e o mal, o herói e o bandido; de lobo e de cordeiro todos temos um pouco. A divisão nos enfraquece, nos torna vulneráveis aos nossos próprios pecados, como a arrogância, o ódio, a soberba, a clareza que cega, o poder de deter a verdade.

Ainda bem que temos a poesia e que, em momentos de aridez e histeria coletiva, podemos abrir um poema, mergulhar nele e recuperar um pouco de paz, não é mesmo Drummond?

” A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil da meia verdade.

E a segunda metade voltava igualmente com meio perfil.

E os perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia em seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”

Verdades.

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Vida e Espiritualidade

Ariano Suassuna, um homem de sensibilidade refinada, grande dramaturgo, poeta e professor paraibano, em uma das suas entrevistas já no final da vida, foi questionado se acreditava em Deus.

“Eu não conseguiria viver com essa visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo: ou existe Deus ou a vida não tem sentido nenhum”; essa foi sua resposta. Admiro-o pela extensão de sua obra e me identifico  com suas ideias; ou existe um propósito maior que permeia a vida cotidiana, ou a existência carece de sentido.

No sobe e desce da emoções e dos eventos o frio na barriga é constante. A vida se parece com uma grande e interminável montanha russa, feita de arrancadas brusca, subidas íngremes e descidas vertiginosas.  Mal termina um looping, começa outro. E vira e mexe, o mundo parece estar de cabeça para baixo. Ou, pelo menos, é assim que o vemos. No intervalo entre a primeira e a última respiração, rolamos de um ciclo para outro. Haja flexibilidade para vivenciar o que cada ciclo representa!

Mas, mais do que flexibilidade, haja confiança mo processo, haja fé no propósito oculto em cada momento, haja entrega para viver e disposição para aprender as lições propostas, de tal maneira que não seja necessário repetir as experiências. E haja desapego para soltar o que foi vivido e passar para o capítulo seguinte.  Quantas vezes ficamos presas na dor que vivenciamos e que carregamos junto, reeditamos diariamente e dessa forma, ela parece não ter fim.  Também fazemos isso com as experiências boas que já passaram, que poderiam ser guardadas apenas com sentimento de gratidão, mas que também queremos tomar de volta, como se fosse possível nos alojar nelas.

Vida é movimento, é rajada de vento,  é a impermanência como desafio a ser aceito e elaborado. É estrada longa a ser percorrida,  com o inesperado que se descortina atrás de cada curva.  Ora deslizamos sobre o asfalto macio, sem grandes solavancos, com uma sensação de prazer que  nos autoriza a nos encantarmos com a paisagem, observando cada detalhe, cada nuance de cor. Ora transitamos pela estrada de terra,  cheia de buracos, onde é imprescindível estar atenta para passar por eles sem atolar, sem “quebrar”, vislumbrando que mais para frente estaremos novamente no asfalto. 

Sentir a presença do Divino nessa jornada é a grande possibilidade de resignificá-la, de suportar dores e pressões sem perder de vista o cenário maior e mais amplo. É a oportunidade de sentir-se amparada quando tudo estremece, quando o chão  parece desintegrar-se sob nossos pés. E para isso é preciso conectar-se com a divindade que habita em cada um de nós. com a centelha que trazemos no coração,  o registro da filiação.  Esse conectar-se nos transporta à energia amorosa do Criador e nela podemos nos fortalecer!

Dia das Eleições

Hoje é domingo, dias das eleições, e há, na atmosfera, um clima esquisito. Democracia deveria pressupor liberdade de expressão, respeito, tranquilidade, mas infelizmente não é isso que temos vivido.

Resolvi compartilhar com vocês uma lenda xamânica que me parece extremamente propícia para o dia de hoje, e para todos os outros dias das nossas vidas…

“Há muito tempo atrás, quando os animais podiam falar uns com os outros e com os humanos, os quatro poderosos animais tiveram uma discussão. Cada um deles sentia ser o melhor chefe do Conselho dos Animais, o que causou mal estar geral. O Urso sempre havia sido o chefe, e essa posição devia-se ao fato de ser forte e capaz de tomar boas decisões entre seus irmãos e irmãs. Enquanto muitos animais entendiam que ele deveria continuar sendo o chefe do Conselho, outros achavam que deveria haver um revezamento entre os candidatos.

Um dos candidatos, o Búfalo, tomou a palavra e disse:
– Eu sou o mais forte e poderoso dos animais, me doou generosamente para todos os nossos irmãos e irmãs humanos, assim como para o reino animal. Eu devo ser o chefe devido a minha pureza de propósitos e habilidade em renovação.

O outro concorrente, a Águia, tomou a palavra e disse:
– Eu voo mais alto do que qualquer uma das criaturas aladas, vejo mais claramente e estou mais próxima do Grande Espírito do que qualquer outro animal deste Conselho. Em função da minha claridade e sabedoria, devo me tornar o chefe deste Conselho.

O próximo candidato que tomou a palavra foi o Coiote.
– Eu sou o mais habilidoso e malicioso entre todos os animais. Posso sobreviver em qualquer lugar e tenho a habilidade para ensinar a todos. Por trazer crescimento, devo ser o chefe.

Então o Urso tomou a palavra e disse:
– Eu tenho grande respeito por meus irmãos, mas vocês não têm motivos para me substituir. Eu os tenho atendido sempre bem, sou forte e muito bondoso em minhas decisões. Sempre penso muito antes de decidir qualquer coisa em relação a vocês, e portanto devo continuar servindo-os como sempre fiz.

Depois que os quatro animais terminaram suas falas, todos os outros animais do reino tiveram a chance de se expressarem no “Pau Falante” passado no círculo. Ficou evidente que os animais estavam divididos a respeito de quem deveria ser o chefe, e por não haver consenso instalou-se um grande mal estar, uma vez que estavam tão fortemente desagregados e sem saber o que fazer. Todos os quatro concorrentes eram poderosos e tinham o conhecimento que os qualificava para serem chefes.

De repente, os ventos começaram a soprar violentamente em todas as direções, e os animais que estavam falando ao mesmo tempo, cada um tentando provar que o seu ponto de vista estava certo e sua escolha correta, já não podiam mais ser ouvidos devido ao forte som dos ventos. Quando finalmente fez-se o silêncio, no centro do círculo apareceu um dos Espíritos Mestres sob a forma de um vigoroso homem de meia idade que tomou a palavra e disse:

– Eu sou Mudjekeewis, o Espírito Guardião do Oeste, e por onde ando, o vento me acompanha. Muito antes de vocês nascerem me tornei o Chefe dos Guardiões das 4 Direções. Somos todos filhos da mesma Mãe, e possuímos a força e sabedoria específicas de cada um de nossos pais. Ao invés de brigar sobre quem é o melhor e quebrar a Lei da Unidade, decidimos, com a inspiração de nossa Mãe, a nos responsabilizarmos, cada um de nós, por um quarto da Roda. Assim, podemos usar nossa força separadamente e tornarmos a Roda forte em todas as Direções.

Fui escolhido pelo Grande Um para intervir neste Conselho e servir como elo de ligação, porque neste momento a Lei da Unidade está em risco, e se ela for quebrada será desastroso para as relações aqui na Terra. O Grande Espírito não deseja que isso aconteça, e eu vim ajuda-los a fundir seu poder com o poder de cada uma das Direções.

Urso, você fundirá seu poder comigo, com o Oeste, pois assim como eu você é forte e pensa muito antes de falar.

Búfalo, você fundirá seu poder com o poder de Waboose, do Norte, assim compartilhará com as qualidades de pureza e renovação.

Águia, você fundirá seu poder com o poder de Wabun, do Leste, pois com sua visão clara ajudará a trazer consciência, sabedoria e iluminação.

Coiote, você fundirá seu poder com o poder de Shawnodese, do Sul, e com suas habilidades para ensinar e sobreviver, ajudará a trazer confiança e crescimento aos seres.

Então, honrados amigos, sejam felizes agora com os presentes de poder do Grande Espírito, que foi dado a cada um de vocês. Que cada um sirva da melhor maneira, na Direção que foi estabelecida, e que todos juntos possam contribuir para a harmonia da Criação.”

Namastê!