Malabaristas somos nós

 

Quando criança costumava assistir aos espetáculos de circo e uma das apresentações que mais chamava minha atenção era a dos malabaristas que manipulavam vários objetos com tal agilidade e precisão que era quase como se fosse uma cena mágica. Eram pratos sobre finas hastes que giravam simultaneamente, eram bolas ou boliches arremessados para cima e recolhidos pelo artista que se desdobrava para que nenhum se perdesse pelo chão; ficava boquiaberta imaginando que habilidades extraordinárias tinha aquele sujeito para conseguir tal proeza. 

Fui crescendo sem me dar conta que essa é uma habilidade treinada por todos nós, desde muito cedo, uma vez que é ferramenta imprescindível para atravessar a vida. Gosto da ideia de que somos seres espirituais vivenciando uma experiência humana e, se assim for, estamos aqui para aprender a manusear as diversas manifestações da vida que ocorrem simultaneamente, de forma aparentemente caótica. Para tanto, é necessário buscar todos os recursos adormecidos que trazemos, feito bagagem que ainda não foi aberta, desenvolvê-los para que possamos não só dar conta das demandas, mas principalmente, descobrir a força e a imensa capacidade que temos. 

O circo pode ser uma analogia à própria vida e observá-la sob esse filtro pode ser interessante. A vida é um espetáculo, um momento passageiro entre o abrir e o fechar das cortinas; somos convocados a assumir vários personagens, passar por eles até atingirmos certa maestria que pode ser traduzida como ampliação da consciência, percepção do todo e da unidade. 

Não há circo sem palhaço brincalhão, divertido, que sabe de cor e salteado que tudo isso é apenas uma grande brincadeira. Não há circo sem leão e seu domador, nos mostrando que temos um aspecto selvagem, instintivo, que possui sua sabedoria ancestral e que muito tem a nos ensinar, mas que precisa ser integrado às outras esferas da personalidade, se comunicar com o todo. Há também a bailarina, o eterno feminino, união da delicadeza com a força, da graça com o movimento que encanta, cativa, seduz. O acrobata com seus movimentos quase ilimitados, a superação pela flexibilidade e determinação, pela técnica e sensibilidade, que habita as alturas mesmo sem ser pássaro, que caminha pelo fio do trapézio com confiança, porque desenvolveu seu próprio eixo, seu próprio chão, carrega a base que o sustenta dentro de si mesmo.  E o malabarista, equilibrista, que lida com várias situações ao mesmo tempo, que tem um olhar para cada prato suspenso, que se esforça para não perder o ritmo, a concentração, para não permitir que o sonho de ser um com tudo que se movimenta acabe esparramado pelo chão. 

Somos todos artistas, participantes do grande espetáculo. Independente da idade cronológica que carregamos, precisamos perceber que a alegria é que faz o show acontecer, que nos permite confiar, acreditar, desafiar, superar, transcender. Rir do palhaço entendendo que eu sou ele, ele sou eu. Apenas papéis, todos importantes. Não há um mais nobre ou valoroso que o outro, mas a somatória deles faz o circo acontecer. O que eles têm em comum é o amor pelo picadeiro e o reconhecimento que sem ele, toda essa experimentação não seria possível!

A aceitação da não perfeição

Talvez seja um resquício da infância, de toda ela, de cabo a rabo. Somado, claro, ao período da adolescência e da pós adolescência também. Refletindo melhor, podemos dizer que na vida adulta igualmente se faz presente e, se bobearmos, vamos encontrá-la esparramada na velhice, com tons de rabugice que só a tornam mais caracterizada. A que estou me referindo? Aquilo que fazemos a vida inteira, entre um leve despertar e outro: a busca pela perfeição. Somos seres costurados por idealizações e modelos de toda a sorte e neles a perfeição reside, é a fibra que sustenta esse tecido. O conteúdo idealizado não sobreviveria se a perfeição não lhe servisse como alma. Casamento perfeito, a perfeição como ideia e busca e a idealização como seu invólucro.  

Ah, pobres de nós, meros mortais, que desperdiçamos o pouco tempo que temos neste planeta e o usamos mais para reclamar das imperfeições do que para viver as possibilidades. O bolo estava bom, mas se tivesse crescido um pouco mais ficaria melhor. O dia estava bonito, mas o vento enjoava, despenteava o cabelo. O curso foi bom, pena que a sala era tão apertada. A viagem foi bem legal, mas devíamos ter escolhido outro hotel. Gostei do carro novo, mas lamento que não seja mais silencioso. As roupas daquela loja são bonitas e baratas, mas não duram nada! As roupas daquela outra loja são maravilhosas, mas você já viu o preço? Gostaria de morar lá, mas é longe de tudo! Até gosto do meu bairro, mas é tão barulhento… 

Alguém se reconhece? A coisa complica ainda mais quando o fantasma da perfeição, feito assombração, ronda as relações que estabelecemos com o outro, com o mundo. Por vezes, ele nos encara, nos deixando apavorados por não nos sentirmos boas o suficiente para merecer estar ali. Mais hora, menos hora, ele, o outro, vai perceber que eu nem sou tão inteligente, ou bonita, ou interessante. Que eu nem entendo tanto desse assunto. Acho que ele pensa que sou legal porque não me conhece direito… Pensa que eu sou perfeita? Ah, não me viu brava, despenteada, com fome, com sono.

Por vezes, o fantasma da perfeição ronda o outro, aquele com quem nos relacionamos. Sabe meus filhos?  São muito legais, mas você não tem noção do trabalho que me dão, do tanto que são bagunceiros e distraídos e folgados e bla bla bla… Aquela minha amiga de infância? É muito próxima, mas tem umas manias que vou te contar… Os vizinhos parecem simpáticos, mas outro dia me cumprimentaram de um jeito meio esquisito, sabe? 

E lá vamos nós, tropeçando pela vida, nos enredando em nossos julgamentos, atados às frustrações de não termos alcançado o que idealizamos… E mal percebemos tudo o que temos vivido, aprendido, trocado com o outro. Há pouco espaço interno para a gratidão, para o reconhecimento da graça que é nossa experiência pessoal no aqui  e no agora.

Sei não, desconfio que a aceitação da não perfeição é um salto para a conquista da felicidade, da alegria, do prazer de viver, mesmo nos dias nublados, ou ensolarados demais ou chuvosos ou muito secos. Viver o possível já é um milagre!