A reta final.

Pronto, estamos em Dezembro! Ultimo mês do ano, porta de saída para a mudança do calendário anual, repleto de datas comemorativas oficiais e não oficiais. As festas natalinas e o final de um ciclo por nós humanos determinado nos leva à compulsão pelos encontros, pelas comemorações com todas as pessoas que vimos muito ou com quem mal  cruzamos durante o ano. Também nos leva à preocupação em decorar a casa para as festas, sair as compras para presentear tanto  as pessoas queridas como também aquelas com quem nos sentimos na obrigação, devemos favores,  temos gratidão ou desejamos agradar por qualquer razão. O transito piora, os centros comerciais ficam lotados, a vaga para estacionar o carro torna-se mais uma preocupação. É o momento onde o poder hipnótico de sedução do consumismo sobre nós atinge seu ponto alto, com tantos bazares natalinos esparramados pela cidade e sua diversidade de produtos, sabores, cores, todos muito atraentes. Além, claro, do comércio tradicional e suas inúmeras ofertas embaladas por sons, luzes, apelos estéticos, emocionais e econômicos; como resistir a tudo isso?

Há a preocupação com a preparação da Ceia de Natal e tudo que isso implica, desde quem estará presente até a prévia organização do menu e todas as compras necessárias para levá-lo a cabo. Há também a necessidade de definir o Réveillon, as férias de verão, a reserva de hotéis, passagens aéreas ou a programação por carro, os dias nos quais estaremos fora da cidade.  E tudo isso acompanhado pela rotina diária que, inconsciente  dessa movimentação extra, se mantém presente, firme e forte, sem atenuantes!  Pelo contrário, quem trabalha sempre tem coisas a mais para entregar antes do final de ano, dar fim às pendências e ainda participar das diversas confraternizações ligadas ao profissional. Isso sem falar nas apresentações escolares escolares de sobrinhos, priminhos, dos convites de formatura que brotam nessa época feito mato no pasto.

Tudo isso acontece sobre o pano de fundo do desgaste dos onze meses que precederam este momento, que foram por nós vividos em sua plenitude, com alegrias e tristezas, prazeres e frustrações, ganhos e perdas, chegadas e partidas, no pulsar intermitente da vida. O aprendizado tem seu preço, o desapego tem suas demandas, os sustos nos deixam com uma sensação de que nem sempre tivemos a quantidade de ar nos pulmões suficiente para respirarmos confortavelmente….e o prenuncio da falta que se fará ainda mais ruidosa, nessas datas festivas, dos que não estão mais aqui fisicamente, mas trazemos presentes no coração.

É minhas amigas, a vida não é para amadores não! Isso significa que ela é tão bela e tão complexa, nos provoca, nos instiga a tantos aprendizados que precisamos manter ” a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” para vivê-la em sua totalidade. Felizmente já atravessamos meio século da existência e, com águas mais agitadas beirando o maremoto ou mais tranquilas assemelhando-se à superfície de um lago, desenvolvemos musculatura emocional e mental, percepções, compreensões e garra que nos permitem atravessar Dezembro com a alegria sobrepondo-se ao cansaço, a vontade que não se rende às dificuldades, e o amor que sentimos e que transborda, tornando mais suave o nosso caminhar.

A ditadura do Medo

 

Medo,medo,medo. Quantas vezes por dia pensamos nele? Quantas vezes por dia temos essa sensação desagradável desencadeada pela percepção de um perigo, seja esse real ou imaginário?  O medo advindo da percepção de um risco real nos auxilia através da existência, nos coloca em estado de alerta para que possamos agir e reagir com o propósito de preservar a própria vida. É um instinto que compartilhamos com o reino animal e quem sabe, com todos os seres vivos. O medo de atropelamento nos faz olhar com atenção quando atravessamos uma rua, assim como o medo de ferir alguém nos faz cuidadosos no trato com o outro; isso faz dele um aliado, um recurso, uma ferramenta.

Mas nem todos os medos são assim, e nem todos estão a serviço da vida. Muitos deles são frutos de um longo condicionamento, estão enraizados na linhagem de nossas famílias e na sociedade a qual pertencemos. Recebemos como herança mesmo antes de nascer, somos influenciados por ele ainda dentro do útero materno; a aprendizagem do medo está apenas começando… Ao nosso instinto de sobrevivência soma-se todo o sistema de crenças que permeia a humanidade, e assim começamos a desenvolver o medo dos perigos imaginados e imaginários. Enquanto crianças e adolescentes resistimos a esse aprendizado, nos rebelamos, até ousamos desafiá-lo. Mas aos poucos começamos a ceder e a reproduzir no pensamento, na fala e nas atitudes o medo que foi aprendido. E ele, o medo, de aliado transforma-se em inimigo, em uma energia castradora e cerceadora de sonhos, e pouco a pouco nos encolhemos para caber no espaço restrito que seu comando ditatorial determina.

Passamos a acreditar que sobreviver é viver, que os muros que nos separam dos sonhos são protetores, que a cerca mental que nos aprisiona na repetição de um modelo caduco deve ser mantida e reforçada pela recusa diária do novo, do diferente, da possibilidade criativa; até parece que não estamos aqui para criar, e sim para reeditar a velha precariedade com que tomamos a vida.

Quer saber? Ouse travar uma batalha interna contra todas as crenças limitantes, ouse depor os déspotas que abrigamos em nós, que estão sempre prontos a nos convencer de que a escassez é moderação, seriedade é responsabilidade, sacrifício é altruísmo, e um monte de outros pressupostos que nos separam do sonho e do sopro divino em nossas vidas. A tradição judaico-cristã nos imputa muitas e variadas culpas, inclusive a de buscar a própria felicidade voando mais alto que o bando, ou diferenciando-se do rebanho. Mas a natureza está aí para nos mostrar, com toda sua beleza, força e exuberância, que o divino reside na alegria e na expansão, na diversidade de cores, de aromas, na abundancia e no movimento!