Do luto ao lixo.

 

Parece que uma nuvem de tristeza encobriu os céus do país e que os ventos não são fortes o suficiente para faze-la mover-se.  Estamos todos enlutados  diante da perda de tantas vidas interrompidas pela lama, pelo fogo, por falhas técnicas, por descasos de toda ordem. O mar de lama que cobriu Brumadinho continua expandindo-se, entra em nossas casas através de imagens, fatos, relatos, hipóteses e apurações. O fogo que consumiu a vida e os sonhos de meninos pobres e suas famílias arde desconfortavelmente em nossos pensamentos, nos coloca frente a frente não apenas com a impermanência, mas também com a precariedade do cuidado com a vida humana. E a voz lúcida e íntegra que denunciava e expunha as feridas desta sociedade doente, calou-se para sempre!

Entre um acontecimento e outro eis que surgem nas redes sociais fotos e mais fotos de uma festa, comemoração dos 50 anos de uma mulher branca, rica, poderosa, diretora de uma revista . Essas imagens poderiam até trazer alguma alegria, desviar um pouco nosso olhar da dor, não fossem elas reveladoras do entulho no qual, enquanto sociedade, estamos mergulhados.

Não sei como é para vocês, mas para mim é inimaginável como alguém pode ter a ideia de fazer uma festa cujo cenário e fantasias façam menção ao Brasil Colônia e escravocrata, que dividia os homens entre brancos e negros, senhores e escravos, sendo que aos primeiros era dado o direito à vida, e aos segundos era dada a sentença de morte. Um período manchado de sangue, de tortura, de apropriação da vida alheia; um período onde o mar da inconsciência  e do obscurantismo parecia afogar a sociedade brasileira. Fala sério, como isso pode ser tema de uma festa? Como mulheres negras aparecem fantasiadas de escravas com abanadores nas mãos e se colocam ao lado de cadeiras que lembram os “tronos de sinhá”, para que os convidados brancos lá sentassem e pousassem para fotos??

Como não acredito em coincidência e sim em sincronicidade, não consigo deixar de relacionar os fatos. Se alguém, de alguma forma, reedita a história desta maneira é porque deve existir, mesmo em um nível mais inconsciente, um ranço preconceituoso, um racismo que se manifesta disfarçado de brincadeira, de modismo fashion ou qualquer coisa do gênero. Ou seja, persiste a crença que somos diferentes, não em razão da individualidade, porque aí sim somos diferentes, mas em razão da cor da pele, da classe social ao qual cada grupo pertence, das aquisições econômicas e culturais, a tão antiga e caduca sociedade de castas, de classes. E abro um parenteses para colocar que do meu ponto de vista isto não tem nada a ver com posição política de direita ou de esquerda, uma vez que a corrupção corre solta sem respeitar lados, e a possibilidade de expandir a consciência não está restrita a uma ideologia específica, é maior e transcende tudo isso.

Da mesma maneira acredito que se a barragem de Brumadinho estivesse debruçada sobre grandes propriedades de pessoas ricas e influentes, os cuidados com segurança,manutenção e conservação seriam bem diferentes. E caso os meninos mortos fossem brancos e ricos, a questão já teria ultrapassado a comoção geral, e o clube já estaria sendo arguido de maneira mais precisa, rápida ,eficiente e inflexível.

Infelizmente grande parte desta sociedade é racista, homofóbica, preconceituosa. Grande parte ainda acredita que há pessoas superiores a outras, e que portanto tem que haver distinção na maneira como são tratadas. Infelizmente há pessoas que não tem nenhuma empatia com a dor alheia nem vergonha de fatos que mancharam a história e massacraram milhões de seres humanos, e que se dão ao luxo de brincar com eles.                   Infelizmente também o CEO da Vale parece demonstrar solidariedade zero com todos os mortos de Brumadinho e suas famílias pobres, e sequer teve a capacidade humana de levantar-se da cadeira para honrar a memória dos mortos no minuto de silêncio que foi feito na Câmara dos Deputados, em uma reunião da Comissão Externa. Diante de uma sala toda em pé, ele manteve-se sentado.Talvez estivesse com cãibras nas pernas…ou  talvez não considerasse que pobres e negros merecessem seu esforço em levantar-se.

A boa notícia é que a outra grande parte da sociedade não é assim, não pensa nem age assim. A outra parte é capaz de fazer mutirões que atravessam dias e noites para socorrer o próximo. A outra parte é capaz de sentir vergonha alheia!!

 

 

 

A flor do deserto

Volto a escrever depois de certo tempo, passadas as férias, a quebra do ritmo, a ausência de inspiração…

Ando um tanto quanto insone, nem sei bem precisar o porquê e em uma dessas madrugadas em que fico procurando pelo sono que resolve esconder-se (embora bem saiba onde encontrá-lo durante o dia), me veio à  cabeça a flor do deserto.

A rosa do deserto é uma planta que pode alcançar até 4 metros de altura e tem uma forma diferente, com um caule muito desenvolvido na base e próprio para sobreviver nesse ambiente, já que precisa acumular água e suportar ventos fortes. Floresce em meio à aridez, em uma explosão de cores que vai do branco ao vinho, passando pelo vermelho e pelo lilás. Não depende de condições climáticas ideais para sobreviver e florir, encontra recursos em sua estrutura interna.

Acredito que todas nós somos flores do deserto, embora na maioria das vezes não tenhamos essa consciência ou percepção. Fomos domesticadas para acreditar que precisamos de certas condições externas para nos sentirmos realizadas, e ao esperar por tais quesitos que nunca chegam, acabamos invadidas por frustrações e sentimentos de fracasso. Mesmo quando conseguimos certas realizações, como um amor, sucesso profissional, lugar de reconhecimento na sociedade, ainda assim vem a frustração, porque tudo foi tão idealizado que o real não dá conta de suprir tantas projeções!

O homem que vai nos beijar e nos trazer de volta à vida só existe nos contos de fada para as princesas sofridas e desmilinguidas; o sucesso profissional que propicia a sensação de poder e até de onipotência dura até a primeira fragilidade física ou emocional, até o enfrentamento de uma enfermidade, de uma depressão. A valorização do meio social é chuva de verão, assim como vem e inunda, rapidamente passa. Passa o glamour, a juventude, as promessas de futuro; mas também passam as dores, as previsões negativas que não se cumpriram, os períodos de extrema dificuldade, as fantasias de morte, o medo de sucumbir em meio ao entulho emocional, afetivo.

Aí nos damos conta que somos a rosa do deserto, que trazemos um reservatório interno onde acumulamos as águas da vida para os períodos de extrema secura e aridez. Que nosso tronco, por onde circulam as energias que vem do céu que nos cobre e da terra que nos ancora, sabe se sustentar diante das tempestades e ventos fortes, tem a maleabilidade do bambu que se curva para não quebrar e, passado o furacão, volta a se reerguer altivo e belo.

Sim, somos terra, planta, flor, estamos neste mundo, mas somos de outro. Nosso corpo abriga uma alma que pulsa e que busca a evolução e a realização na matéria através do reconhecimento de que nascemos com os recursos que necessitamos utilizar no decorrer da vida, como a inspiração, intuição, força, amor. Trazemos incubado o poder da transformação, da alquimia interna, e despertá-lo é despertar a consciência sobre nós mesmas.

Não há mais lugar para o vitimismo e a espera passiva por algo ou alguém que nos resgate dos buracos nos quais caímos durante a vida; passado meio século de existência é impossível postergar essa descoberta, se fazer de tonta, de frágil, esperar pelo que vem de fora.

Que possamos olhar para dentro de nós, entrar em contato com essa alma que é, ao mesmo tempo, força, vida, bússola, poder, amor. Que possamos nos aliar à ela e nos aproximar de pessoas que realmente “conversem” com nossa alma e nós com as delas, para que essa ciranda viva possa nos lembrar quem somos se, por acaso, nos esquecermos.

O destino de toda flor é florescer! Que venham as primaveras onde espreguiçaremos nosso caule e abriremos nossas pétalas; os verões onde o colorido de nossas roupagens brilhará nos raios de sol; os outonos cujos ventos nos farão desfolhar; os invernos que nos deixarão desnudas. São só estações que vão e vem, se repetem no ciclo que não tem começo nem fim. O que de fato conta é o fogo e a água da qual somos feitas.

O fogo que arde em nós e nos dias frios aquece, reacende a chama da vida sempre que ela parece se apagar, regenera a saúde, transmuta as energias. A água que flui em nós, que hidrata quando parece que vamos secar, que nos faz boiar quando as ondas estão fortes, que limpa e lava todas as feridas.

Simples assim, flores do deserto.