Cheiros da Infância

Não sei se já aconteceu com vocês de estarem andando por algum lugar e sentirem, sem mais nem menos, um aroma que se transforma em um túnel por onde desliza-se imediatamente de volta ao passado. De repente vem um cheiro de algodão doce, de maçã do amor, de bexiga quando fica murcha dentro do quarto, de tênis molhado em dia de chuva. E cheiro de guarda roupa quando nos escondíamos dentro dele, quem lembra? Cheiro de festa, de bolo de mãe assando no forno, de massa de brigadeiro quente.

Isso sem falar na lembrança do cheiro das pessoas, porque afinal cada um de nós tem um cheiro particular e as crianças são muito sensíveis a isso. Outro dia um pacientezinho de 8 anos me confidenciou, em tom quase cerimonial, que ele sentia cheiro de gente e que o meu cheiro era igual ao da mãe de um amigo; eu argumentei dizendo que talvez nós duas usássemos o mesmo perfume. Prontamente ele contestou e, um pouco irritado com a minha dificuldade em compreender o óbvio, retrucou: “- Eu não estou falando de perfume, eu estou falando de cheiro de gente!!”. Sorri agradecida por ele me fazer recordar os cheiros de gente que eu também sentia! O da tia legal era diferente do da tia chata, assim como cada professora tinha o seu. Mas o cheiro da mãe, do pai, dos irmãos era inconfundível e único.

Há também a lembrança de aromas muito mais antigos, nem sei se vividos ou adivinhados… cheiros de floresta, de terra molhada, de madeira queimando na fogueira. Cheiro das estações, das roseiras e dos campos de lavanda, de benjoim, alecrim, alfazema. Da defumação nas igrejas durante os rituais da Semana Santa, de mirra e incenso.

Há o cheiro dos temperos, cebola, alho salsa e manjericão que saiam da cozinha da avó, da mãe, da tia, das mulheres da família. Cheiro de pudim de pão coberto de canela, de cravo da Índia no doce de abóbora, no arroz doce e na canjica. Do feijão nosso de cada dia, feito a cada dia.

Sabem de uma coisa? Essa história de divisão do tempo em passado, presente, futuro, isso é história pra boi dormir, como diziam os antigos. O Inconsciente é atemporal, postulou Freud, e nessa atemporalidade vivemos todos nós. Somos tecido feito de linhas do que vivenciamos e sonhamos, tudo junto e simultaneamente. Assim como no Samsara, também transitamos pelas nossas vivências em um looping sem começo nem fim. Basta um descuido ou um convite, uma urgência ou sugestão para que a criança que carregamos dentro desperte e traga em seu rastro o novelo da memória com um fio solto, o qual passamos a desenrolar e desfiar, lembrança por lembrança.

Sentimos os cheiros, ouvimos os sons, revivemos as cenas. A emoção brota, a saudade também. Saudades de um tempo onde tínhamos a sensação que seríamos eternamente jovens e que teríamos todo o tempo do mundo para viver a vida. Passou rápido, muito rápido, acho que nos enganamos, que não era tanto tempo assim… ou não sabíamos o suficiente de Física para compreender o conceito da dilatação do tempo, da teoria da relatividade.

Que seja! O melhor da história é que tudo vive em nós, está aqui, armazenado, guardado ou não, quem sabe continua acontecendo em um Universo paralelo. Quem sabe estamos todos brincando de pega-pega no parque da escola, em algum ponto fora da curva do tempo!!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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