É pau, é pedra, é o fim do caminho?

Não fosse a arte com seus poetas, músicos, pintores, escultores, bailarinos, estaríamos perdidos na aridez de uma realidade esculpida a pedra, lama, chuva, arma, violência, ignorância. Não fosse a solidariedade, estaríamos no meio dos leões. Não fosse a coragem, sucumbiríamos ao extermínio. Não fosse o amor, estaríamos na “roça”. Felizmente para cada senão existe um adendo, para cada dor existe um consolo, para cada fim existe sempre a possibilidade de um recomeço. Para cada sistema que mostra sua fragilidade e seu fracasso, há a oportunidade de se refletir sobre novos rumos e buscá-los com a urgência de uma mãe que se debruça sobre o filho doente.

Tom Jobim, o poeta, ecoa na minha memória afetiva, continuo ouvindo-o cantar…são as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração…Quantas águas nos encharcando neste final de verão! Águas das chuvas, dos rios que transbordam, das lágrimas que explodem no pranto de todos nós. Dos que perdem a casa, o carro e o que conquistaram com o trabalho e o suor (água)  de cada dia. Lágrimas dos que perdem, nas enchentes que arrastam o que encontram pela frente, quem amaram e continuarão amando na ausência. Lágrimas que mais parecem queda d’água rolando olhos abaixo por todas as crianças que não brincarão mais, pelos jovens  que não mais entrarão apressados pelos corredores do colégio porque foram silenciados pela lama, pela água, pelo fogo do incêndio ou da pólvora.

E a promessa de vida no teu coração, no meu coração?  É pau, é pedra, é um pouco sozinho, é um caco de vidro, é a noite, é a morte. Mas também é a vida, é o sol, é o mistério profundo, é a marcha estradeira, é um gesto, é a luz da manhã, é um pouco sozinho, é um passo, é uma ponte, é a promessa de vida no nosso coração.

 Não há fim nesse caminho porque, a despeito da dor, a vida segue seu fluxo feito rio que corre pro mar, já que esse é seu destino e propósito. Que toda essa água lave e leve a inconsciência, a irresponsabilidade, a falta do olhar que detectaria o prenúncio do desastre. Que a água lave nossos pecados de omissão, egoismo, abandono. Que possamos aprender e evoluir com nossos erros (destino e propósito) , alçar voo na consciência expandida onde a vida de fato acontece. Para isso é imprescindível resgatar a energia amorosa que trazemos no coração, a força que regenera, perdoa, salva e redime!                 Só a partir dela seremos capazes de redesenhar a realidade e recomeçar, fazendo novas escolhas!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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