Mulheres, buscadoras incansáveis

por Ana Amorim

Vocês já perceberam que as mulheres costumam ser maioria em atividades voltadas para o autoconhecimento? De abordagens terapêuticas e holísticas, passando por grupos de autoajuda, reuniões espiritualistas, cursos sobre assuntos ligados à metafísica, rodas de conversa…  Tudo o que acena com a possibilidade de mergulhar em si mesmo atrai o público feminino.                       

E não é para menos; apesar da dura jornada de trabalho, da inserção cada vez maior no mercado, do acúmulo dos papéis de companheira, mãe, filha, profissional, organizadora das atividades domésticas, ainda assim há uma inquietação que não se rende à escassez do tempo nem se dobra ao cansaço diário. Há uma busca incessante pela compreensão da natureza humana, pelo conhecimento que ficou adormecido e que foi sepultado em algum lugar desse complexo psiquismo feminino através de séculos de domesticação e silêncio.

Ainda hoje vivemos sob o signo da repressão e do submetimento à ordem patriarcal e machista que impera em nossas sociedades pseudo modernas. A mulher ainda está preocupada com a sua sobrevivência, seja esta física, emocional, mental, econômica. Ainda luta todos os dias para manter sua integridade frente a tantas ameaças explícitas ou implícitas, que ativam o medo da não aceitação, da não valorização, e em casos extremos e infelizmente frequentes, o medo da morte anunciada pela violência e pelo assédio masculino.

Ainda assim a inquietação permanece, o desejo por um conhecimento ou entendimento que nos permita adentrar no reino do oculto e do não revelado, do inconsciente e dos mistérios. A busca pelo que nos ajude a dar sentido à vida além deste que está institucionalizado, pelo que nos instrumentalize a vasculhar na atemporalidade desse inconsciente até encontrarmos indícios, fragmentos, vivências, traumas represados, enfim, retalhos que possamos olhar, recolher e costurar na formação de um tecido maior, com a arte de quem transforma os retalhos no patchwork.

Grandes escritoras e poetisas traduziram essa inquietação feminina na literatura, como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Simone de Beauvoir entre outras. E nós mulheres vivemos isso o tempo todo, há sempre uma intuição, um comichão, um desejo de ir além, de se debruçar sobre a cerca e espiar o que há do lado de lá.

“Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse e eu concordo que tempo cura, que a mágoa passa, que decepção não mata. E que a vida sempre, sempre continua.”

Simone de Beauvoir

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