Sobre o viver

Segundo a doutrina espírita escolhemos estar aqui encarnados neste momento, assim como escolhemos nossos pais e determinadas situações que enfrentamos no decorrer da vida uma vez que elas proporcionariam o trabalho de certos aspectos da personalidade, que por sua vez contribuem para o processo evolutivo da alma, finalidade maior de cada existência. Podemos ou não acreditar neste postulado, não é esse o ponto.

A questão é que estamos aqui. Todos os dias acordamos dentro deste corpo, dentro de um enredo que é nossa história de vida, ligados às pessoas que compartilham conosco dessa experiência, envolvidos nas atividades que nos propomos a realizar nos campos pessoal e profissional. E assim seguimos desde sempre, desde o nascimento; atravessamos o tempo e seus ciclos, as estações da infância, adolescência, juventude, maturidade e nos encaminhamos para a próxima e última; nela chegaremos um dia com a bagagem repleta de aprendizado, recordações, saudades e gratidão. E tudo isso dividirá espaço com a frustração pelo que não foi vivido, pelo que abandonamos no caminho, pelas dores e mágoas de variadas intensidades…

Assim é o viver, complexo, intenso, enigmático e cíclico. É como se pegássemos o carro e partíssemos para uma estrada; há trechos em que o asfalto está tão liso que parece flutuarmos sobre ele. Há trechos em que o caminho está tão esburacado que não paramos de chacoalhar, chega a doer os ossos do corpo. Há subidas que aceleram o coração porque nos permitem vislumbrar uma paisagem incrível e há descidas que nos enchem de angústia porque parece que estamos despencando e vamos nos estatelar ali adiante.

Felizmente os trechos se alternam e essa é a grande oportunidade de aprendermos um pouco sobre nós mesmos e sobre o viver, esse processo ao mesmo tempo insano e maravilhoso. Nada é para sempre, lembram-se? Como diz a música, “o prá sempre, sempre acaba”. Que tenhamos consciência e coragem para atravessar florestas e desertos; esperteza e equilíbrio para beirar os precipícios sem cair dentro deles; audácia nas subidas e cautela nas descidas. Que possamos nos deixar levar quando os ventos soprarem a favor, e que tenhamos força de prosseguir e resistência quando eles soprarem contra.

Mas que tenhamos todos os dias e noites amor no coração, gratidão por estarmos aqui e fazermos parte deste espetáculo, sabedoria para discriminar quais recursos usar e quando, esperança de que tudo se renove, se reinvente. E alegria, que não nasce ao pé da serra ou no quintal de casa, que não pode ser comprada ou emprestada. Mas que pode ser cultivada por cada um de nós e assim sendo florescerá tanto que poderemos soprá-la sobre as pessoas ao nosso redor, nos tornando co-autores de uma realidade mais colorida e feliz!

Páscoa e o nosso renascimento.

Seja para os católicos ou para os judeus, Páscoa tem sentido de vida nova. Para os primeiros significa que Jesus ressuscitou libertando-se assim da morte três dias após sua crucificação. No judaísmo é a comemoração da libertação do povo hebreu adquirida pelo êxodo do Egito onde viviam como escravos, tornando-se então um povo livre. Em ambas as religiões celebra-se a vida, a superação, a libertação e o renascimento diante de uma nova possibilidade.

O simbolismo desta data me faz pensar sobre nossas vidas aqui neste planeta e em todas as mortes que vivenciamos ao longo da existência. Ciclos terminam, pessoas vão embora ou somos nós quem partimos; ou não partimos e ficamos aprisionados em situações  de escravidão disfarçadas muitas vezes de zona de conforto, de relações estáveis, sejam essas afetivas ou profissionais. Escravos da rotina, da repetição, da roda da fortuna e do azar, das obrigações impostas, dos deveres sem fim, da culpa que pesa nos ombros feito cruz, que arrastamos pela via dolorosa que cada um esboça para si e percorre.

A simbologia da Páscoa sugere que podemos “morrer” e renascer quantas vezes forem necessárias dentro da mesma existência, assim como podemos abandonar o que nos aprisiona e sufoca, partir para outras experiências apesar do medo, do risco, do que  temos que abrir mão ou “perder” para ganhar lá na frente em movimento, liberdade, livre escolha. Para tanto é preciso não só coragem e desapego mas também fé, no sentido de acreditar que a abundância do Universo está disponível para quem busca viver de acordo com o seu coração, para quem se mantém integro e fiel aquilo que acredita ser seu propósito.

Mudar de rota, de trabalho, de casa, de parceiro, mudar de opinião (por que não?). Mudar a percepção, a compreensão, a resposta. Abandonar velhos padrões e hábitos, desenraizar-se, fazer o caminho de volta. Ressuscitar o que permitimos que morresse em nós, sonhar novos sonhos ou reeditar algum sonho antigo que continue valendo, encaminhar-se rumo à terra prometida que nada mais é do que estar no mundo de uma maneira que nos faça feliz.

Feliz Páscoa, feliz despertar, feliz recomeço!!

Que possamos fazer a passagem de uma vida limitante para uma vida onde o céu seja o limite! Onde cada um de nós possa caminhar por onde escolher e sentir-se em casa onde quer que esteja porque está vivendo de acordo com o que é e acredita. Porque está em paz e, portanto, está em casa.

Toda tristeza será perdoada

Não gosto do pessimismo, nem nos outros nem em mim. Sair do presente, antecipar-se aos acontecimentos e fazer previsões sombrias é uma péssima viagem. Também não simpatizo com a ideia de curtir mágoas, desilusões ou qualquer coisa desse tipo, voltar o filme sempre na mesma cena e repetir o sofrimento, reeditar a dor. Isso nos torna prisioneiros do que não deu certo, ou do que consideramos que não deu certo porque a expectativa era outra. Colocar-se na posição da vítima também é um furo n’água uma vez que distorce a percepção, nos isenta da responsabilidade que também temos no desenrolar daquela situação e mais do que isso, divide o mundo entre inocentes e culpados, bons e maus e mergulhamos na armadilha da separatividade, que infelizmente anda muito em moda nos dias de hoje. Não é disso que se trata esta postagem.

Refiro-me à tristeza, aquela tão conhecida emoção que nos toma de assalto mesmo quando tudo parece bem; que entra em casa sem ser convidada e logo encontra um canto para ficar. Que aperta o nosso peito, mareja os olhos, dá um tom acinzentado em tudo sobre o que pousamos o olhar. Ela nos afasta temporariamente do mundo exterior e nos induz a voltar para dentro, a percorrer nossos labirintos, becos, ruelas e buscar pela compreensão e aceitação dos fantasmas que lá se escondem e que fingimos não ver. Mas que nem por isso deixam de nos assustar, costumam nos roubar o sono e os sonhos, e quanto mais os ignoramos mais se fazem presentes.

A tristeza é um aviso e um lembrete de que se faz necessário parar um pouco e cuidar da nossa sombra, traze-la para perto, iluminá-la com a luz da consciência para reintegrá-la no todo que somos. Desta forma não mais ouviremos o choro dos excluídos ou o passo dos fantasmas nos porões do inconsciente, e assim nosso caminhar será mais inteiro.

Que possamos tomar cuidado com a ditadura da felicidade que é imposta diariamente, como se alguém pudesse sentir-se feliz por decreto, como se fosse obrigação estar radiante todos os dias. Parece que entristecer-se é doença que logo precisa ser medicada, ou é frescura de quem não é grato por tudo que tem e a pessoa que está triste muitas vezes carrega vergonha e culpa por sentir-se assim.

Na verdade a tristeza é boa aliada na elaboração de tudo que não digerimos até então e que só deixamos para trás, abandonado, como se fosse possível viver e largar aspectos nossos pelo caminho. É ela que nos faz voltar e recolher essas partes rejeitadas, é ela que nos mostra o espelho no qual vemos nossa imagem refletida. Só a partir desse olhar e dessa vivência temos a oportunidade de corrigir a rota e aí sim nos tornarmos pessoas mais felizes!

Reinventar-se, palavra chave!

Muito bem, chegamos até aqui! Meio século já se passou desde que aportamos neste planeta e construímos uma história e tanto, não é mesmo? Dê uma espiadinha rápida no seu percurso e veja quantas coisas você fez, viveu, ganhou, perdeu, trocou, construiu. Há quem tenha estudado muito, se especializado e trilhado um caminho de sucesso profissional. Há quem tenha feito escolhas diferentes, se dedicado à formação de uma família com mais tempo para o companheiro, os filhos, a casa. Há quem tenha viajado, perambulado por esse mundão de meu Deus, livre, leve e solta. Há quem tenha feito de tudo isso um pouco. Há quem tenha tido um casamento, há quem já está no segundo ou terceiro e há quem escolheu não casar. Há quem teve filhos e há quem tem gato, cachorro, papagaio. Há quem fale várias línguas e quem ainda está aprendendo a se comunicar… Há quem goste de viver cercada de gente e há quem priorize a própria companhia. Há quem tenha grandes planos para o futuro, mas há também quem esteja se perguntando “e agora”?

Pois é, e agora Maria, e agora José? O que é que vamos fazer pelo resto de nossas vidas, com o tempo que temos para viver? Já cumprimos vários papéis, funções, assumimos personagens diversos e agora? Com a aposentadoria ou próxima dela, com os filhos fora de casa ou quase isso, com os pais que já partiram ou estão se despedindo, com os amores que ficaram pelo caminho ou com o companheiro que segue junto e vivencia algo muito parecido e agora, como ressignificar a própria vida?

Não há mais receitas, isso é claro; há sugestões de uma sociedade que não se cansa de ditar regras, mas será que vamos continuar nessa?? Será que não é este o melhor momento de olhar para dentro e fazer uma faxina emocional ampla, geral e irrestrita?  Que tal começarmos por tirar as mágoas das gavetas, dos compartimentos e colocá-las sob a luz da consciência? Olhar para cada uma delas, lavá-las mesmo que seja com as águas do nosso choro, tristeza, raiva ou arrependimento, e depois exorcizá-las com o perdão e o desapego? E quem sabe podemos fazer o mesmo com os conceitos, com as ideias pré concebidas, com todas as definições que colecionamos ao longo da vida? Que tal reduzir a bagagem pela metade?

E aí minhas amigas, hashtag #partiu. Para o novo, para o que ainda não foi vivido ou que já foi, mas de maneira diferente. Para o que não tivemos tempo ou coragem de viver. Para o que abrimos mão com receio da crítica alheia e do fracasso, ou também porque a auto imagem e a auto estima boicotaram. Agora é hora de nós boicotarmos os sabotadores internos e os externos também se preciso for. 

Reinventar, ressignificar, “bora” brincar de viver!! Somos capazes de fazer deste momento um tempo de prazer, de divertimento, de novas descobertas. Ouse, afinal de alguma maneira você já fez isso antes…