Toda tristeza será perdoada

Não gosto do pessimismo, nem nos outros nem em mim. Sair do presente, antecipar-se aos acontecimentos e fazer previsões sombrias é uma péssima viagem. Também não simpatizo com a ideia de curtir mágoas, desilusões ou qualquer coisa desse tipo, voltar o filme sempre na mesma cena e repetir o sofrimento, reeditar a dor. Isso nos torna prisioneiros do que não deu certo, ou do que consideramos que não deu certo porque a expectativa era outra. Colocar-se na posição da vítima também é um furo n’água uma vez que distorce a percepção, nos isenta da responsabilidade que também temos no desenrolar daquela situação e mais do que isso, divide o mundo entre inocentes e culpados, bons e maus e mergulhamos na armadilha da separatividade, que infelizmente anda muito em moda nos dias de hoje. Não é disso que se trata esta postagem.

Refiro-me à tristeza, aquela tão conhecida emoção que nos toma de assalto mesmo quando tudo parece bem; que entra em casa sem ser convidada e logo encontra um canto para ficar. Que aperta o nosso peito, mareja os olhos, dá um tom acinzentado em tudo sobre o que pousamos o olhar. Ela nos afasta temporariamente do mundo exterior e nos induz a voltar para dentro, a percorrer nossos labirintos, becos, ruelas e buscar pela compreensão e aceitação dos fantasmas que lá se escondem e que fingimos não ver. Mas que nem por isso deixam de nos assustar, costumam nos roubar o sono e os sonhos, e quanto mais os ignoramos mais se fazem presentes.

A tristeza é um aviso e um lembrete de que se faz necessário parar um pouco e cuidar da nossa sombra, traze-la para perto, iluminá-la com a luz da consciência para reintegrá-la no todo que somos. Desta forma não mais ouviremos o choro dos excluídos ou o passo dos fantasmas nos porões do inconsciente, e assim nosso caminhar será mais inteiro.

Que possamos tomar cuidado com a ditadura da felicidade que é imposta diariamente, como se alguém pudesse sentir-se feliz por decreto, como se fosse obrigação estar radiante todos os dias. Parece que entristecer-se é doença que logo precisa ser medicada, ou é frescura de quem não é grato por tudo que tem e a pessoa que está triste muitas vezes carrega vergonha e culpa por sentir-se assim.

Na verdade a tristeza é boa aliada na elaboração de tudo que não digerimos até então e que só deixamos para trás, abandonado, como se fosse possível viver e largar aspectos nossos pelo caminho. É ela que nos faz voltar e recolher essas partes rejeitadas, é ela que nos mostra o espelho no qual vemos nossa imagem refletida. Só a partir desse olhar e dessa vivência temos a oportunidade de corrigir a rota e aí sim nos tornarmos pessoas mais felizes!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

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