O predador

por Ana Amorim

Temos por hábito apontar, a nós mesmos, todas as pessoas que de alguma maneira nos prejudicaram e às quais debitamos a responsabilidade pela nossa infelicidade – e somos capazes de fazer uma lista imensa; aliás, quanto mais vivemos, mais essa lista tem potencial para aumentar. Temos na ponta da língua o que cada uma delas fez, e poderíamos até agrupá-las por “temas”: as que não nos amaram o suficiente, as que negaram afeto, as que não reconheceram nosso valor, as que nos julgaram e criticaram, as que nos roubaram, nos enganaram, as que nos traíram, as que nos abandonaram… Essa lista não termina aí, poderia continuar e preencher várias linhas.

Ok, muita coisa aconteceu ao longo desses anos; de fato não obtivemos das relações o que delas esperávamos e muitas vezes “morremos na praia”. Fomos atravessados por muitas dores e vamos combinar que a dor da rejeição é uma das mais contundentes. Essa dor é feito agulha grossa e comprida que parece atravessar o coração e abrir um rombo difícil de cicatrizar.

Felizmente nós, seres humanos, temos um arsenal interno de recursos que nos permite não apenas sobreviver mas também superar as incontáveis frustrações, assim como contamos com recursos externos para recompor o tecido esgarçado, como terapia, grupos de auto ajuda, trabalhos focados na reforma íntima, desenvolvimento da consciência e da espiritualidade, amigos que escolhemos e com os quais podemos ter trocas mais assertivas.

O que temos mais dificuldade em perceber (e aí mora o perigo) é que há dentro de nós um predador, tão ou mais perigoso quanto esses que nomeamos. É o grande sabotador interno, ágil, esperto, dotado de grande versatilidade e capaz de se camuflar e esconder-se em meio a  pensamentos tortuosos e emoções desordenadas. É esse aspecto da psique que nos leva, por exemplo, a desenvolver apego aos algozes externos e perpetuá-los em nós, quase que nos mantendo eternos prisioneiros dos traumas e carências.

Entrar no “quarto escuro” do nosso emocional e buscar por esse predador é sofrido, ameaçador, mas fundamental. Poder reconhecer sua existência é o primeiro passo, pois negá-lo só aumenta sua influência sobre nós. Ele nada mais é que um aspecto psíquico destrutivo, a sombra da qual tanto ouve-se falar; quanto menos a reconhecemos mais ela nos encobre. Vem das sombras que trazemos dentro aquela voz impertinente que nos diz que não somos capazes, que não vamos conseguir, que o mundo todo está contra nós, que não podemos, não devemos, não temos o direito.

Assim como também vem de lá o medo que nos paralisa e nos impede de fazer diferente, de fazer outras escolhas que nos permitiriam sair da ladainha repetitiva na qual as vidas tantas vezes se transformam. O senso exacerbado de responsabilidade que pesa sobre nossas costas dificultando o movimento, os sentimentos de culpa por nossos fracassos reais e imaginários, a mágoa (má água) que mantemos, a desesperança e descrença, a aposta na “desgraça”.

Sabem de uma coisa? Esse sabotador é muito mais poderoso do que qualquer outro fora de nós, capaz de grandes e contínuos estragos. O mundo é reflexo das nossas crenças, pensamentos, emoções, se desenha a partir do que nele projetamos. Há, claro, dificuldades e pessoas que fazem um ruído danado em nossas vidas, mas a maneira como lidamos com isso é mais determinante do que o fato em si.

Somos responsáveis pela nossa felicidade e nos cabe buscá-la incansavelmente, seria ingênuo colocá-la em mãos alheias. O outro pode sim nos fazer algum mal, mas quem perpetua ou não esse momento somos nós. Reconhecer o predador interno e confrontá-lo, trabalhar para trazê-lo à luz da consciência é investir no bem estar e na felicidade. Mãos à obra!!

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