Preguiça

 

Um dos sete pecados capitais, familiar a todos nós, mas talvez nem sempre pecado.. Há aquela preguicinha gostosa de acordar pela manhã e fazer uma horinha na cama até arrebanhar suficiente energia para começar o dia. Há também a que vem depois do almoço e que nos enche de vontade de tirar um cochilo, fechar os olhos e dar tempo do organismo fazer a digestão. Há a preguiça dos finais de semana que nos leva a desacelerar o ritmo, não correr para esticar os lençóis depois de levantar ou  arrumar prontamente a cozinha depois de comer , se dar o direito de atirar-se no sofá e lá ficar por tempo indeterminado. E talvez a melhor de todas, a preguiça que aparece nas férias e que nos faz viver a vida em slow motion, declinar da imposição do tempo mensurado pelo relógio e pelo calendário e deixar-se levar pela brisa interna que sopra e determina os movimentos.

Talvez a preguiça que entra na relação dos sete pecados capitais seja aquela que nos leva à procrastinação, que por si própria é pecado que cometemos contra nós mesmos. É quando negligenciamos situações importantes que deveriam ter sido resolvidas ontem, mas que insistimos em empurrar com a barriga nos colocando desta forma em zona de risco. É a preguiça perniciosa que nos faz ficar imobilizados quando o momento pede uma ação, uma mobilização para acolhe-lo e resolve-lo, mesmo que isso represente um esforço de nossa parte, uma necessidade de interromper temporariamente algo que desejamos para fazer o que é preciso. Sabe aquela preguiça de dar um telefonema para um amigo que está precisando, de fazer um favor para alguém que nos pediu, de ter atitudes que promovam o bem estar do outro, que alivie sua dor? Pois é, me parecem todas essas farinha do mesmo saco..

 

 

Ultimamente ando com outro tipo de preguiça que,suponho, não se enquadra nem na primeira categoria  (gostosa) nem na segunda (pecaminosa). É uma preguiça existencial diante de um nesgo de realidade que se apresenta tão igual, tão repetitivo, tão caricato. Preguiça ao ouvir os mesmos discursos e as mesmas promessas; preguiça das queixas sem fim e das críticas sem consistência, das repetições que excluem a possibilidade criativa de reinventar, fazer diferente e fazer a diferença.  Preguiça das pessoas que se colocam deste ou daquele lado e defendem ideias como se o que estivesse no cerne da questão não fossem valores de uma sociedade que adoeceu e se dividiu e que precisa voltar a ser um todo para poder sanar suas feridas e recuperar sua integridade. Preguiça de todas as formas de divisão e de segregação, de tudo ser tratado como se estivesse fora de nós, projetado no outro e nas circunstâncias externas, será mesmo?

 

 

 

Preguiça de mim mesma quando me deixo levar pelos arrastões que vez por outra nos envolvem, quando esqueço que meu centro de força é interno, quando negligencio a conexão com o divino, quando rolo montanha abaixo e me prendo à visão do sopé, tão limitada e limitante. Preguiça quando desisto, quando encontro um monte de justificativas fake  para não me lançar no comando da minha vida, quando me sinto vítima e recolho meus braços como se não os tivesse. Vocês já se sentiram assim? Fala sério, não dá preguiça? Ainda bem que hoje é domingo, dia institucionalizado da preguiça, onde podemos vive-la sem culpa e sem urgência !!

Autor: Ana Amorim

Psicóloga Clinica, Terapeuta, eterna curiosa e aprendiz de assuntos metafísicos. Escrevo todos os domingos sobre Comportamento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *