Você já fez terapia?

por Ana Amorim /

Sou psicóloga, psicoterapeuta e minha atuação clínica soma trinta anos. Durante todo esse tempo exercendo minha função (e vocação) tive a oportunidade e o privilégio de escavar junto com meus pacientes fragmentos perdidos no inconsciente, peças que faltavam para compor no aqui e agora um esboço mais claro de cada um deles, integrar aspectos dissociados que se perderam ao longo da trajetória de vida.
A psicoterapia pode ser comparada, no aspecto simbólico, ao trabalho de patchwork, onde retalhos e recortes são reorganizados e costurados para formar um tecido único, marcado pela diversidade das partes que o constituem, mas tão harmoniosamente rearranjados que refletem uma beleza única.

Para se chegar ao resultado final de qualquer processo é necessário  trabalho, investimento de tempo e energia, constância, disciplina, capacidade de superar obstáculos e de lidar com as dores intrínsecas ao crescimento. Sim, crescer suscita dores das mais variadas matizes porque nos arranca da zona de conforto e nos faz caminhar em direção a horizontes mais largos. Crescer implica em abandonar o papel de vítima e responsabilizar-se por suas escolhas, em ligar os pontos entre causas e consequências, dar-se conta das próprias limitações e perdoar-se, desgarrar-se do apego à dor e prosseguir. Esse desapego só é possível depois da decisão de revisitarmos nossas dores, nominá-las, compreende-las e aceitá-las como parte importante do processo.

Mas vivemos em tempos estranhos onde a dor maior talvez seja a de não estarmos felizes e radiantes mas precisarmos parecer que estamos, para nós mesmos e para os outros. Se essa é a regra, como eu vou olhar para as minhas dores ? Está doendo? Lá vamos nós para o analgésico, o ansiolítico, a pílula da felicidade, o álcool, o baseado (por que mesmo não foi liberado?), a dissimulação, o faz de conta, o teatro. Vamos para o atalho porque sabemos que na estrada principal teremos que nos deparar com a dor, uma vez que a deixamos lá estacionada.

Os atalhos, porém, são labirintos disfarçados de caminhos, nos fazem andar em círculos, nos mantém no mesmo lugar com o agravante da ideia ilusória de que estamos nos movimentando quando, na verdade, estamos repetindo padrões, comportamentos, crenças e medos.

Sabem de uma coisa? A vida é muito curta para tantos subterfúgios, gasta-se um tempo louco para manter essa parafernália toda, tempo de vida que abdicamos por medo de encarar nossos fantasmas e desconstruí-los. Por medo de mudanças, por medo de reconhecer que a rota escolhida não foi a melhor, ou teve um tempo de validade que já venceu e que o roteiro dessa viagem incrível precisa ser refeito.

A psicoterapia é uma porta que se abre, um grande espelho onde podemos nos olhar por inteiro, identificar a luz e a sombra, reconhecer nossas dores e acolhe-las para que não mais ecoem em nossas vidas através de comportamentos erráticos que nos levam a lugares diferentes de onde desejamos chegar. É a possibilidade de vasculhar o baú do inconsciente e olhar para tudo que lá está entulhado, por para fora, tirar o mofo, ressignificar.

A vida ganha leveza e fluidez quando decidimos fazer esse mergulho para dentro, quando nos aproximamos desse vastíssimo universo interior onde está o registro de nossa história e todos os desdobramentos do que foi vivenciado, onde a ciranda das emoções precisa ganhar ritmo e movimento para que não adoeçamos. Dá trabalho, claro, como qualquer coisa nesta vida; mas é um trabalho cujo resultado é frutífero, rico, abundante, porque nos aproxima de nos tornarmos quem de fato somos!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.