Do luto ao renascimento

por Ana Amorim /

Durante a primeira metade da vida contamos com um número grande de pessoas da família com quem temos vínculos afetivos muito próximos e significativos e como consequência  vivemos inseridos em uma estrutura que nos ampara e protege. Na medida em que os anos passam vamos perdendo aqueles que nos precederam: nossos avós, tios avós, nossos pais e seus irmãos e irmãs e de repente nos damos conta que nos tornamos referência para os filhos, os sobrinhos, depois os netos que vieram ou virão. É nesse momento que a ficha começa a cair e em plena idade adulta nos deparamos com um sentimento de orfandade. Todos aqueles em quem confiávamos e em quem projetávamos segurança e acolhimento não estão mais aqui fisicamente presentes.

E agora? É como se perdêssemos o chão e um processo de luto deflagra-se em nós; vocês já sentiram-se assim? Não é um estado de tristeza permanente, não é desespero nem incapacidade de gerir a própria vida, mas é a constatação dolorosa de que tudo e todos que imaginávamos “eternos” fazem parte de um ciclo que já findou, que agora estamos em outro momento onde precisamos aprender a conviver com a saudade, a falta, as lembranças felizes que por vezes tornam-se pesarosas pela constatação da impossibilidade de revive-las. Essa vivência vem acompanhada de um tanto de solidão, uma vez que muitas das relações que tivemos até aqui deixam de existir.

Esse processo de elaboração de tantas perdas e mudanças requer um período de intenso trabalho interior, de um recolhimento que nos possibilite buscar dentro de nós o exercício desse papel de pai e mãe de si mesmo. De encontrar a segurança, o amparo, a proteção e a criatividade para nos reinventarmos, de buscar a chama de vida que possa incendiar o desejo de inaugurar outra fase, de experimentar possibilidades diferentes, de fazer novas escolhas e aprender a sonhar outros sonhos.

Mudamos não só na aparência mas principalmente na maneira de entender e sentir nossa vida, assim como nossas prioridades e expectativas também mudaram. O que eu quero viver daqui para a frente? Como vou conseguir me organizar para alcançar esse objetivo? O que tenho que colocar na minha vida que está faltando e do que tenho que abrir mão porque está sobrando? Como fazer diferente do que sempre fiz?

A necessidade do auto conhecimento cresce afinal vou ter  que contar comigo e buscar em mim as novas ferramentas para essa nova etapa; como posso ser confiável se eu não souber quem sou? Que imagens eu construí a meu respeito e quais delas são verdadeiras? O que tanto carrego que nem me pertence??

Engana-se quem pensa que tornar-se alguém mais maduro pressupõe a diminuição do ritmo de trabalho. Talvez o ritmo que diminua é o que está automatizado, as tarefas e deveres externos. Por outro lado há acréscimo do trabalho interior, há o confronto com aspectos que nos amedrontam simultaneamente ao descobrimento de outros muito interessantes que sequer desconfiávamos existirem. O luto e o nascimento convivem lado a lado, a dor e a alegria, os pares de opostos que buscam integração.

Muito trabalho a ser feito, pouco ou nenhum tempo a se perder, pois o tempo tornou-se instrumento valioso de vida. Precisamos renascer, recriar a vida através de novas escolhas, novos interesses, novas direções. A estagnação não é uma possibilidade, a música continua tocando e nos convida a prosseguir com os movimentos para que possamos criar outras coreografias. Nem ouse perder o ritmo e a leveza, merecemos estar aqui e desfrutar com prazer e alegria desta nova estação, a maturidade. O trabalho continua, a necessidade de investimento também. Sabe tudo que foi postergado para ser vivido depois? Pois bem, o depois chegou e transformou-se no agora. Vamos exorcizar as mágoas, frustrações, culpas e arrependimentos, vamos finalmente apostar na felicidade, combinado?

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