O que não pode ser roubado

por Ana Amorim /

Vivemos em um mundo dominado pela incerteza e temos muita dificuldade em aceitar esse fato. Aceitar que a vida é um rio caudaloso que corre à revelia do nosso comando; aceitar  que não somos capazes de prever o que vai acontecer, que não temos o poder de mudar os eventos externos ( ainda não), tão pouco de manipulá-los de acordo com nosso desejo. Se tivéssemos sabedoria para  encarar a incerteza com naturalidade, o espírito de aventura se faria presente onde hoje habita o medo. Já pensou que legal, quanto sofrimento seria evitado.

Será que essa relação vai dar certo? O friozinho na barriga seria de excitação diante da possibilidade de experimentar o não conhecido ao invés de causar “gastura” ante o medo do fracasso. Será que vou conseguir o que desejo? Esse questionamento serviria como uma motivação para o movimento no lugar da paralisação diante da incerteza; eu poderia enumerar aqui uma infinidade de exemplos mas acho que já me fiz entender, não é mesmo?

Insistimos em fantasiar o controle que nunca tivemos e acabamos por acreditar nessa história contada por nós mesmos. Quando a máscara cai, quando nos deparamos com algo escancarado demais que interdita a  manutenção  da mentira e da representação do personagem comandante, entramos em pânico. E aí o medo se alastra feito praga no mato descuidado.

E um dos medos recorrentes é o de sermos roubados. Tememos que nos roubem a bolsa, o celular, o carro, o emprego, o pé de meia que juntamos; tememos que nos roubem a convivência com os filhos, os amigos, as pessoas que amamos. E também a auto estima, os sonhos, a fé, a sanidade, o equilíbrio, a paz, a a alegria, a doçura, a força, o entusiasmo….

Existe bem na nossa frente o óbvio, sempre tão difícil de ser percebido; e nesse caso ele nos mostra que tudo que vivemos não pode ser tirado de nós. Talvez um dia a memória não ajude e venhamos a esquecer nomes, datas, eventos e até mesmo o que fizemos das nossas vidas. Mas podem ter certeza que tudo que vivemos, sentimos, trocamos, estará para sempre impresso em algum lugar secreto, inatingível, longe de olhos e mãos alheias, bem guardado de toda e qualquer intenção.

Podemos ser roubados no aspecto material, podemos ser pegos em um dos inúmeros imprevistos da vida, podemos voar na turbulência constante da incerteza. Mas jamais seremos roubados dos beijos que demos, dos abraços que recebemos, das risadas com os amigos, da emoção com os filhos. Amor, amizade, carinho, gratidão não são passiveis de roubo. Podemos relaxar, afinal o que é importante se eterniza, vive em nós, morre conosco!

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