Expectativas x realidade = decepção

Se há uma vivência nesta vida que todos partilhamos, não importa a idade, é a decepção. Essa sensação permeia a existência humana desde sempre e por mais que a tenhamos vivido inúmeras vezes parece que nunca é o suficiente para que possamos eliminá-la do repertório emocional. É o famoso balde de água fria jogado sobre água em ebulição; é o muro contra o qual batemos onde vislumbrávamos um caminho, é o sabor amargo que, pretendíamos, fosse doce. É a negativa onde esperávamos o sim, ou é o sim quando apostávamos no não.

Decepção parece ser a contra mão da rota traçada. Eu vou lá, imagino uma história, disponho pessoas e situações exatamente onde gostaria que estivessem, capricho nos detalhes, acerto o relógio para que tudo ocorra no tempo “certo”, me visto de expectativas e me coloco no centro do mundo, confortavelmente sentada, à espera de que o que decretei como realidade aconteça. Porém (e sempre tem um porém) aquilo que projetei não acontece, ou acontece de outra maneira diferente da que eu queria, ou fora da hora. Aquela realização pessoal não rola, o afeto que eu contava em ganhar não vem, aquele sorriso pelo qual eu estava babando nem dá as caras, o pneu do carro fura, o avião atrasa, a vaga foi preenchida, o estacionamento está lotado, o dinheiro acabou antes do mês. A conversa ficou truncada, o encontro foi cancelado, a amiga não compareceu no jantar que eu me esmerei para fazer, o filho não agradeceu o presente, o saco de bolachas no armário está vazio.

E agora? Não deu nada certo, não mereço isso, o mundo está contra mim, fiz tudo que podia, não tenho como fazer alguma outra coisa para reverter o quadro, que injusto, que ingrato, que insensível, que maldade!! Bem, quando chegamos nessa esquina onde o mental e o emocional colidem, a confusão está feita. Daí para descambar é um passo, caímos direto no canteiro das mágoas que se alastram feito erva daninha. A semente da mágoa floresce no ressentimento, ganha corpo, ramifica em tristeza, raiva, retaliação, vingança. Nesse ponto já estamos entregues à própria sombra e já assumimos o lugar do vitimismo, da impotência e da dor.

E a vida, em vez de ser rio que flui, transforma-se em água estagnada… O mais insano dessa história é que não conseguimos perceber que fomos nós que escrevemos esse roteiro e demos a ele esse desfecho. Claro que não fizemos isso de forma consciente, proposital, mas fizemos e o resultado vem. Essa história começa na primeira expectativa que alimentamos e cresce quando abrimos mão do poder pessoal e depositamos no outro ou em qualquer lugar fora de nós a possibilidade da felicidade. Esse conto é pior e mais assustador do que o de Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos ou qualquer outro que vocês possam recordar, e sabem por que? Porque nós agimos em relação a nós mesmos como o mais malvado de todos os lobos.

Criar expectativas é colocar no outro ou na vida a obrigação de nos atender, nos contemplar, a despeito do desejo ou da possibilidade alheia. Precisamos acordar desse pesadelo e sair na direção do que queremos conseguir caminhando com os próprios passos. Com mais serenidade, sabedoria e apropriação: do que somos e do poder criador que carregamos ao longo da vida. Esse poder é como se fosse uma flecha pronta para ser apontada e atingir o alvo. Mas precisamos recordar que nós somos os arqueiros e temos a liberdade para escolher onde direcionar essa flecha. E como dizem que a direção é mais importante que a velocidade, tome seu tempo. Respire, concentre-se e solte sua flecha no alvo que quer acertar, sem expectativas. Faça sua parte e confie!

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