Insanidades

por Ana Amorim /

Insanidade parece ser a palavra que melhor traduz o momento que estamos vivendo, imersos no surrealismo comparável à obra de Salvador Dalí pela combinação de situações de uma bizarrice sem precedentes. Há uma abundância de personagens que encarnam o realismo fantástico com muita propriedade ao transformarem o irreal, estranho e esdrúxulo em algo totalmente corriqueiro. Há homens e mulheres ocupando cargos importantes que mais parecem pacientes da ala psiquiátrica de algum hospital, tamanha insensatez e incoerência na percepção de mundo, organização das ideias e na falta de capacidade de integrar as partes no todo. E como se isso não bastasse, ainda há quem se envolva em embates intermináveis nas redes sociais a favor ou contra este ou aquele maluco.

Tudo isso me leva a questionar se o planeta e a sociedade enquanto estrutura ética sobreviverão ao surto humano, à cisão que fortalece a polarização entre o bem e o mal, a verdade e a mentira, o lado certo e o lado errado, em um movimento de quase idolatria a uma das partes como se esta fosse o todo. O discernimento, a empatia e a compaixão parecem ter sumido da cena e aberto espaço ao caos, ao ódio e à intolerância em suas mais variadas formas.

Há um projeto incrível em muitas praias do litoral brasileiro que tem como proposta levar pessoas com deficiência para tomarem banho de mar e passearem pela areia através do uso de cadeiras de rodas adaptadas, que também possibilitam a prática de esportes aquáticos. A orla de Cabo Branco, em João Pessoa é um desses lugares onde esse projeto Praia Acessível acontece todos os sábados pela manhã. Porém, nesta semana, um pequeno grupo de senhoras moradoras da região procurou uma vereadora com o pedido de transferência desse projeto para outro lugar, uma vez que, segundo elas, a presença de pessoas com deficiência deixa a orla mais feia. Curioso não?

A deficiência física das pessoas “enfeia” a praia, mas parece que com a deficiência ética, moral, de caráter e valores podemos perfeitamente conviver, é isso mesmo? Já que essa não está estampada no rosto ou no corpo podemos fingir que não existe, afinal vivemos na sociedade da vitrine, da imagem, das aparências.
Espero que um dia possamos encontrar o “elo perdido”, a conexão com a energia amorosa do coração e que possamos então nos relacionar com o mundo/outro através desse caminho. Então descobriremos o Paraíso na Terra, porque teremos por nós mesmos amor e respeito, e teremos pela natureza e pelos outros o mesmo amor e respeito. Nesse dia jogaremos sementes ao solo e não fogo na floresta, enxergaremos o outro como enxergamos a nós mesmos. Talvez aí, a partir desse dia, possamos abandonar a insanidade e resgatar a saúde física, emocional e mental de tal modo que nosso caminhar pelo mundo ilumine os cantos mais sombrios com a luz que emana do nosso ser.

“Encontro de dois.
Olho no olho.
Cara a cara.
E quando estiveres perto
eu arrancarei os seus olhos
e os colocarei no lugar dos meus.
E tu arrancará os meus olhos
e os colocará no lugar dos teus.
Então eu te olharei com teus olhos
e tu me olharás com os meus.”

Jacob Levy Moreno

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