Passado

Por Ana Amorim /

Outro dia li a seguinte frase: O passado é um lugar de referência, não de residência.
Pois não é que a carapuça me serviu? Embora saibamos disso racionalmente, embora tenhamos uma crítica em relação a determinadas pessoas do nosso convívio, principalmente as mais velhas, sobre as quais dizemos viverem no passado, nós também caímos nessa armadilha vez por outra. O próprio processo psicoterapêutico nos convida a revisitar o passado com o propósito de estabelecer uma relação com o momento presente e perceber a sequência que existe, não a nível externo e sim do ponto de vista subjetivo, como se fosse um filme onde é preciso assistir desde o inicio para entender a trama; entretanto, há uma grande diferença entre revisitar e alojar-se lá.

E o que é o passado? Não é um lugar para onde possamos nos dirigir nem voltar; talvez seja a memória de acontecimentos que compõe nossa linha do tempo e as lembranças subjetivas das nossas percepções e vivências sobre eles. O que de fato determina a qualidade de nossas vidas não é necessariamente o que aconteceu conosco mas, principalmente, o que fizemos e fazemos com isso.
O passado pode nos atrair basicamente por duas razões contrárias entre si: ou porque existem dores que não conseguimos elaborar, ficando portanto presos a elas, ou porque existem lembranças de momentos felizes cuja vivência não conseguimos reproduzir no presente, no aqui e agora, o que também nos aprisiona.

O que será que é necessário para que cada um de nós possa se libertar do passado? Aceitação, perdão, gratidão? Reconhecimento de que tudo que foi vivido constitui partes do caminho maior de nossa existência?  Feito degraus de uma escada que precisam ser alcançados e suplantados para que se chegue ao topo? Sim, talvez tudo isso junto e misturado. E além disso, o desejo de prosseguir, a curiosidade de viver o ainda não revelado, a certeza que há estrada a ser desbravada, oportunidades a serem vividas, que o fluxo da vida é inesgotável e está disponível a todos aqueles que têm fome e sede de viver.

O desafio é transformar o passado em uma lembrança leve, uma pluma que dança na nossa frente ao sabor dos ventos, só para nos ajudar a recordar que temos percorrido um longo caminho para chegarmos até aqui e que, portanto, merecemos estar aqui. E que o momento presente é a grande possibilidade que a vida nos oferece para que possamos sonhar e realizar nossos sonhos, buscar o que de fato nos nutre e preenche. Aportar no aqui e agora é escolha, decisão a ser tomada. Solta o que te prende e flutua, dança, mergulha neste momento e se faça feliz!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.