Cansaços.

 

 

 

por Ana Amorim

As vezes ele bate à porta, entra a despeito de não ser convidado, espalha-se pelos cantos da mente, da alma, do corpo. Infiltra-se nos pensamentos e os manipula de tal maneira que passamos a acreditar que a luz no fim do túnel está queimada. Pior quando invade a alma, ou o que imaginamos que ela seja. Acampa nas emoções, finca pé, arretado que só, teimoso, persistente. Provoca uma avalanche de sensações desconfortáveis e amigo que é do tédio, convida-o a instalar-se também. Tudo fica repetitivo, chato e sem graça.. A paisagem fica toda da cor de vão de cerca ou de burro quando foge, como dizia minha avó, E quando resolve abrigar-se no corpo? Aí é um Deus nos acuda! Caminhar do quarto para a cozinha vira percurso da São Silvestre, lavar a louça então parece ser tarefa mais desafiadora que lavar as escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim…

Parecem nunca vir só, chegam em bando, são muitos e múltiplos. Há o existencial e esse é o mais difícil de lidar por ser mestre em nocautear, sabe como nos levar ao chão em um único golpe! Há também os mais específicos, das minúncias. Podemos classificá-los como o da rotina diária (…todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã…), o das manobras para encaixar o carro na vaga estreita sem ralar nas colunas da garagem, o de ficar nas filas esperando para ser atendido, o de tentar equilibrar o dinheiro para que haja vida pós pagamento das contas; o dos boletos vencidos melhor nem mencionar.

Mas há sem dúvida aqueles que pertencem a uma categoria especial, são sempre atuais, as circunstâncias os impedem de cair de moda. Há o cansaço da intolerância, do preconceito, de todos os radicalismos e extremos. Dos que assumem o personagem de juiz e se acham em pleno direito de transgredir o Estado laico e confiscar livros em nome da defesa da moral e bons costumes. Há o cansaço pelos “bons costumes”, pelas ideologias separatistas, pelos que se deixam dominar por este ou aquele lado da moeda e se tornam subservientes à manipulação alheia. Há o cansaço das desculpas que usamos como escudo protetor para não sairmos da zona de conforto, de todos os ” não sei, não posso, não consigo “. O cansaço do vitimismo assim como da onipotência, do descaso, do descuido com o coração do outro.

Há por fim um cansaço de nós mesmos quando nos pegamos reeditando antigos modelos, quando nos vemos envoltos pela nuvem negra que paira sobre a sociedade, quando colocamos os medos na frente dos sonhos, quando trocamos o aventurar-se pelo conformar-se. Quando nos calamos e nos tornamos cúmplices de todas as formas possíveis de ignorância por não dimensionarmos a potência da nossa voz, a força de nossas asas e o poder da nossa vontade. Estamos cansados porque estamos adormecidos, reféns de um sono profundo. É mais do que urgente acordar!!

 

 

 

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