Respeito, todos querem e poucos têm

Esta semana fui assistir a uma missa de falecimento. Cheguei cedo, a igreja estava vazia. Sentei-me em um banco e logo as pessoas foram chegando. Antes do padre entrar para iniciar o ritual já fiquei a par de histórias das pessoas que estavam acomodadas ao meu lado e no banco de traz. Percebi como o silêncio faz falta em determinados momentos e situações, mas imaginei que ele viria assim que a missa começasse. Pois bem, entra o padre e começa a missa. No decorrer dos primeiros dez minutos soube que um homem, cujo rosto não via uma vez que estava no banco posterior ao meu, havia sido recentemente operado e antes mesmo que eu pudesse me preocupar, soube que a cirurgia foi um sucesso. Também tomei conhecimento, pela fala de duas mulheres no mesmo citado banco, que uma criança cujo nome não me recordo está uma graça, grande e desenvolta; a família toda está babando, segundo elas. Também ouvi seus planos para as próximas férias, onde pretendiam passar o final de ano e outras conversas triviais, daquelas que temos no bar, entre uma e outra cerveja. Ao final da missa não me contive: ao passar por elas fiz um discreto comentário de como haviam conseguido por a vida em dia enquanto a missa acontecia.

Entendo que aquelas pessoas estavam na igreja cumprindo um dever social, que certamente um conhecido ou familiar havia falecido e elas lá estavam para se solidarizarem com a família. Entendo que talvez não fossem católicas, poderiam ser de qualquer credo ou de nenhum, e todo aquele ritual não tivesse o menor significado para elas. Mas o que é de difícil entendimento para mim é a atitude desrespeitosa, a falta de crítica, empatia, consideração, a tranquila transgressão isenta de culpa ou desconforto, o afastamento quase infantil das regras implícitas em cada situação.

O que é que está acontecendo conosco enquanto indivíduos e sociedade? O que fizemos da nossa sensibilidade, da percepção da existência do outro e do respeito ao seu espaço? E o que é pior, a faixa etária das pessoas sentadas nesse banco, e que conversavam entre si, era dos 60 para cima!! Essa historinha de que os jovens não têm limites é conversa pra boi dormir, ao que parece o limite está esgarçado em todas as faixas etárias. Basta ver o comportamento das pessoas no trânsito, por exemplo. As vagas de estacionamento de idosos e cadeirantes é frequentemente ocupada por motoristas que não estão nem em uma, nem em outra situação. E aqueles estabelecimentos comerciais que têm duas ou três vagas delimitadas por faixas pintadas no chão para estacionamento, e via de regra alguém para o carro no meio de duas vagas, sobre a faixa pintada, inviabilizando a outra vaga?

Estou falando da falta de respeito em situações corriqueiras, em coisas simples do dia a dia. Mas além dessas descortinam-se outras tão mais dolorosas e complexas… a ausência de respeito pelas diferenças, pela riqueza da diversidade. Pelas opiniões contrárias, pelo posicionamento político diverso. Por todos aqueles considerados à margem da sociedade, a chamada minoria (que de minoria não tem nada), a falta de respeito pelo tempo de cada um, principalmente das crianças que são obrigadas a crescerem no ritmo imposto por esta sociedade enlouquecida. A falta de respeito pelas estações da vida, a infância encurtada, a adolescência antecipada, a velhice desconsiderada. A falta de respeito pela palavra dada, pelo compromisso assumido, pela dor do outro, pelo direito alheio.

Entre tantos valores que precisamos resgatar para não sucumbirmos à mediocridade está o respeito, pilar de qualquer relação entre eu e o outro, eu e a natureza, eu e o sagrado. Respeito por nós mesmos, início de todo processo. Esse respeito que tanto exigimos do outro é o mesmo que temos que cultivar e ter como referência básica, como norte de vida, como princípio e fim de qualquer pensamento, atitude, fala, movimento. O amor não floresce onde não há o respeito, e se não há amor não há mais nada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.