Respeito, todos querem e poucos tem.

Por Ana Amorim

 

 

Esta semana fui assistir a uma missa de falecimento. Cheguei cedo, a igreja estava vazia. Sentei-me em um banco e logo as pessoas foram chegando. Antes do padre entrar para iniciar o ritual já fiquei a par de histórias das pessoas que estavam acomodadas ao meu lado e no banco de traz. Percebi como o silêncio faz falta em determinados momentos e situações, mas imaginei que ele viria assim que a missa começasse. Pois bem, entra o padre e começa a missa. No decorrer dos primeiros dez minutos soube que um homem cujo rosto não via, uma vez que estava no banco posterior ao meu, havia sido recentemente operado e antes mesmo que eu pudesse me preocupar, soube que a cirurgia foi um sucesso. Também tomei conhecimento, pela fala de duas mulheres no mesmo citado banco, que uma criança cujo nome não me recordo está uma graça, grande e desenvolta; a família toda está babando, segundo ela. Também ouvi seus planos para as próximas férias, onde pretendiam passar o final de ano e outras conversas triviais, daquelas que temos no bar, entre uma e outra cerveja. Ao final da missa não me contive: ao passar por elas fiz um discreto comentário de como haviam conseguido por a vida em dia enquanto a missa acontecia.

Entendo que aquelas pessoas estavam na igreja cumprindo um dever social, que certamente um conhecido ou familiar havia falecido e elas lá estavam para se solidarizarem com a família. Entendo que talvez não fossem católicas, talvez até pudessem ser ateias e que todo aquele ritual não tivesse o menor significado para elas. Mas o que é de difícil entendimento para mim é a atitude desrespeitosa, a falta de crítica, empatia, consideração, a tranquila transgressão isenta de culpa ou desconforto, a indiscriminação quase infantil das regras implícitas em cada situação.

O que é que está acontecendo conosco enquanto indivíduos e sociedade? O que fizemos da nossa sensibilidade, da percepção da existência do outro e do respeito ao seu espaço? E o que é pior, a faixa etária das pessoas sentadas nesse banco e que conversavam entre si era dos 60 para cima!! Essa historinha de que os jovens não tem limites é conversa pra boi dormir, ao que parece o limite está esgarçado em todas as faixas etárias. Basta ver o comportamento das pessoas no trânsito, por exemplo. As vagas de estacionamento de idosos e cadeirantes é frequentemente ocupada por motoristas que não estão nem em uma nem em outra situação.E aqueles estabelecimentos comerciais que tem duas ou três vagas delimitadas por faixas pintadas no chão para estacionamento, e via de regra alguém para o carro no meio de duas vagas, sobre a faixa pintada, inviabilizando a outra vaga?

Estou falando da falta de respeito em situações corriqueiras, em coisas simples do dia a dia. Mas além dessas descortinam-se outras tão mais dolorosas e complexas…a ausência de respeito pelas diferenças, pela riqueza da diversidade. Pelas opiniões contrárias, pelo posicionamento político diverso. Por todos aqueles considerados à margem da sociedade, a chamada minoria ( que de minoria não tem nada), a falta de respeito pelo tempo de cada um, principalmente das crianças que são obrigadas a crescerem no ritmo imposto por esta sociedade enlouquecida. A falta de respeito pelas estações da vida, a infância encurtada, a adolescência antecipada, a velhice desconsiderada. A falta de respeito pela palavra dada, pelo compromisso assumido, pela dor do outro, pelo direito alheio.

Entre tantos valores que precisamos resgatar para não sucumbirmos à mediocridade está o respeito, pilar de qualquer relação entre eu e o outro, eu e a natureza, eu e o sagrado. Respeito por nós mesmos, início de todo processo. Esse respeito que tanto exigimos do outro é o mesmo que temos que cultivar e ter como referência básica, como norte de vida, como princípio e fim de qualquer pensamento, atitude, fala, movimento. O amor não floresce onde não há o respeito, e se não há amor não há mais nada!

 

 

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