O que nos redime?

 

Ana Amorim

 

Caminhamos pela vida entre luzes e sombras. Há em nós infinitos labirintos pouco conhecidos, uma vez que nos dedicamos muito mais a explorar o universo externo que o universo interno. Nossos labirintos contem estreitas passagens, curvas sinuosas, becos sem saída onde, ao entrarmos, ficamos presos, retidos de alguma maneira naquela dor, naquele pensamento tortuoso, naquela mágoa muitas vezes deslocada, fora de lugar, que insiste em permanecer porque não fomos capazes de cuidar dela. Há também outros espaços internos muito mais largos, amplos, com boa visibilidade e por esses passamos sem dificuldade.

Isso nos dá a dimensão de como temos uma estrutura psíquica complexa, cheia de nuances, com aspectos mais saudáveis e menos saudáveis, e de como estes ou aqueles ficam evidenciados em determinados momentos e acabam por dirigir nossa vida; ficamos reativos às suas manifestações e na maioria das vezes sem consciência do que de fato está acontecendo dentro de nós. Quantas vezes o caos interno salta para a vida externa, invade nossas relações, ataca o corpo, compromete a execução das tarefas corriqueiras do dia a dia! Quantas vezes corremos o risco de por a perder o que construímos ao longo de muitos anos, seja na vida pessoal ou profissional.

Quando isso acontece é imprescindível o retiro para “dentro”, a diminuição do ruído externo, a possibilidade de mergulhar em si mesmo para observar, entrar em contato, buscar colocar luz na sombra que tudo encobre, esconde, dissimula. Marcar encontro com  o antagonista interno e encará-lo de frente, com transparência, com coragem para que possamos compreender o que ele está provocando, e porque.

O que nos redime de nossos erros, ataques e enganos é a busca pelo auto conhecimento e a capacidade de nos perdoar por aquilo que ainda não pudemos aprender, amadurecer, evoluir. É a possibilidade de acolher esse antagonista para conhece-lo e não para passar a mão em sua cabeça, para decifrar seus códigos secretos e traze-lo para a luz. Quando fazemos isso a grande neblina se dissipa e somos capazes de perceber a realidade mais nítida e clara, somos capazes de parar de projetar no outro aquilo que pertence a nós, somos capazes de nos libertar de tudo que atravanca a vida e impede que nos tornemos pessoas mais felizes.

 

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