Dançar para envelhecer bem.

 

O jornal  Frontiers in Human Neuroscience  publicou um artigo onde cientistas alemães afirmam  que a dança pode ser um exercício ainda mais completo que os outros no combate a qualquer tipo de demência senil. Já está comprovado que a atividade física funciona como um antídoto para o envelhecimento do cérebro, e que exercícios regulares garantem maior longevidade com saúde, o que é fundamental. A vantagem da dança, segundo esse estudo, está relacionada com o desafio em movimentar-se de forma ritmada no aprendizado de novas coreografias ou formações através dos diferentes estilos de dança, que difere da proposta de qualquer outra atividade física onde a repetição é uma constante. Além da pessoa ganhar flexibilidade e  aprimorar o equilíbrio, há a ativação das funções sensório-motoras, como a junção dos estímulos visuais e movimentos, no trabalho simultâneo de ritmo e velocidade, além dos benefícios da música sobre o cérebro, já bem conhecidos.

Dançar para não envelhecer soa poético e simbólico; extrapolado o conhecimento científico que fala em aumento do volume do hipocampo, que é a central da memória cerebral, também podemos pensar na ideia mais sutil que é o aprendizado de ter flexibilidade e leveza para atravessar esse período desafiador da vida. A necessidade de aprendermos a nos mover em outros ritmos, diferentes dos que conhecemos até aqui; de desenvolver outras estratégias , de não perder o passo, de não endurecer para não “quebrar”. De deixar-se levar pelos sons dessa nova estação da vida e encontrar prazeres até então desconhecidos.

Envelhecer bem não é fácil, até porque estamos enraizados na fantasia da eterna juventude, da manutenção da forma, na crença de que tudo posso quando vislumbro uma vasta vida pela frente, anos a perder de vista. Dar-se conta de que essa quantidade de tempo não reside mais no futuro mas sim no passado, de que a sensação de onipotência esvai-se frente aos dados de realidade e de que a responsabilidade da vida é de cada um de nós ( lembram-se daquelas falas do tipo “com o tempo passa”..) e reconhecer as limitações, é tarefa pra gente grande, pra quem tem coragem.

Coragem para nem negar as evidências nem entregar-se a elas. Coragem para aceitar os novos ritmos e aprender os novos passos, para encantar-se com a possibilidade de dançar, de deslizar sobre essa nova etapa com graça e alegria. Coragem para cuidar de si mesma muito mais do que dos outros, o oposto do que fizemos até aqui; para entender que com o tempo só o tempo passa, e que portanto precisamos agir.

 

Lembram-se de onde vem a palavra coragem? Vem do latim “coraticum”, derivado de cor, coração. Talvez coragem seja a união da ação e do coração, o olhar para si mesma amorosamente, o acolher-se e cuidar-se para promover a saúde em todos os níveis, o amor próprio que tantas vezes na vida nos faltou. Podemos sim envelhecer bem, mas isso depende de nós e das escolhas que fazemos e faremos a partir daqui.                                                      Que possamos fazer boas escolhas e desenvolver bons cuidados em relação a nós e tudo o mais que vem de fora é lucro. A expectativa precisa mudar de lugar, de domicílio. Não esperar do outro, seja ele o companheiro, os filhos, os amigos. Contar conosco, fazer por nós, essa é a grande mudança!!

É pau, é pedra, é o fim do caminho?

Não fosse a arte com seus poetas, músicos, pintores, escultores, bailarinos, estaríamos perdidos na aridez de uma realidade esculpida a pedra, lama, chuva, arma, violência, ignorância. Não fosse a solidariedade, estaríamos no meio dos leões. Não fosse a coragem, sucumbiríamos ao extermínio. Não fosse o amor, estaríamos na “roça”. Felizmente para cada senão existe um adendo, para cada dor existe um consolo, para cada fim existe sempre a possibilidade de um recomeço. Para cada sistema que mostra sua fragilidade e seu fracasso, há a oportunidade de se refletir sobre novos rumos e buscá-los com a urgência de uma mãe que se debruça sobre o filho doente.

Tom Jobim, o poeta, ecoa na minha memória afetiva, continuo ouvindo-o cantar…são as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração…Quantas águas nos encharcando neste final de verão! Águas das chuvas, dos rios que transbordam, das lágrimas que explodem no pranto de todos nós. Dos que perdem a casa, o carro e o que conquistaram com o trabalho e o suor (água)  de cada dia. Lágrimas dos que perdem, nas enchentes que arrastam o que encontram pela frente, quem amaram e continuarão amando na ausência. Lágrimas que mais parecem queda d’água rolando olhos abaixo por todas as crianças que não brincarão mais, pelos jovens  que não mais entrarão apressados pelos corredores do colégio porque foram silenciados pela lama, pela água, pelo fogo do incêndio ou da pólvora.

E a promessa de vida no teu coração, no meu coração?  É pau, é pedra, é um pouco sozinho, é um caco de vidro, é a noite, é a morte. Mas também é a vida, é o sol, é o mistério profundo, é a marcha estradeira, é um gesto, é a luz da manhã, é um pouco sozinho, é um passo, é uma ponte, é a promessa de vida no nosso coração.

 Não há fim nesse caminho porque, a despeito da dor, a vida segue seu fluxo feito rio que corre pro mar, já que esse é seu destino e propósito. Que toda essa água lave e leve a inconsciência, a irresponsabilidade, a falta do olhar que detectaria o prenúncio do desastre. Que a água lave nossos pecados de omissão, egoismo, abandono. Que possamos aprender e evoluir com nossos erros (destino e propósito) , alçar voo na consciência expandida onde a vida de fato acontece. Para isso é imprescindível resgatar a energia amorosa que trazemos no coração, a força que regenera, perdoa, salva e redime!                 Só a partir dela seremos capazes de redesenhar a realidade e recomeçar, fazendo novas escolhas!

Mulheres

8 de Março, um dia dedicado às mulheres, cheio de comemorações, protestos, reivindicações. Mas afinal, por que temos um dia no calendário anual para celebração da mulher? Pode até parecer homenagem, deferência, mas não é. As aparências enganam… vamos voltar um pouco na história?

Houve um período, há muito tempo atrás, onde a mulher ocupava um lugar completamente diferente dentro da sociedade, uma vez que ela era a representação humana da Grande Mãe. Em todas as antigas civilizações cultuava-se a Deusa, princípio feminino da divindade, a Mãe Criadora e Mantenedora da Vida, e as mulheres eram honradas e respeitadas por terem o dom de gerar a vida e mantê-la através do seu próprio corpo; do útero onde essa vida era fecundada e desenvolvida até o nascimento, dos seios por onde jorrava o leite que nutria a vida que começava.

Esculturas pré-históricas da Grande Mãe

As mulheres conheciam secretamente os mistérios da vida e da morte porque os vivenciavam em seu próprio corpo, com a fertilidade, o ato de gerar e parir os filhos, o sangramento mensal e a intimidade que tinham com a natureza. Eram curandeiras, conheciam as ervas e sabiam como usá-las para mitigar as enfermidades; eram intuitivas e transitavam com desenvoltura pelos dois mundos, tornaram-se benzedeiras, sacerdotisas, encarregadas de celebrar não só os ritos de passagem mas também as festividades relacionadas ao plantio e a colheita. À medida em que envelheciam e tornavam-se cada vez mais sábias, também cresciam no respeito e reconhecimento da comunidade à qual pertenciam. Eram as mulheres que se ocupavam das estações da vida, desde trazer crianças ao mundo até auxiliar na passagem daqueles que deste mundo se desligavam.

Lakshmi – Deusa hindu da prosperidade e da riqueza

Essas mulheres são nossas ancestrais e embora tenham sido perseguidas e mortas no desenrolar da história, o que viveram e conquistaram está preservado e guardado dentro de nós, através da memória celular e do inconsciente coletivo. Essas mulheres estão em nós e nós estamos nelas. Para resgatar tamanha força adormecida e retomar o poder pessoal é necessário voltar o olhar para dentro e buscá-las. Há um caminho a ser trilhado, como se fôssemos adentrar no bosque do esquecimento que nos impuseram, pela distorção da história e dos fatos. Para chegar até elas (até nós) precisamos de amor, consciência e coragem; diante da truculência sofrida durante séculos, de todo obscurantismo e engodo, talvez esse seja o único caminho possível.

Arianrhod – deusa Celta da fertilidade

Vivemos um momento onde a violência contra a mulher parece ter aumentado, mas talvez ela só esteja sendo vista, nomeada e denunciada mais do que antes; durante séculos essa violência foi negada e mascarada como proteção, punição justa e devida, hierarquia, e tantas outras expressões perversas de indivíduos doentes dentro de uma estrutura social também doente. E se considerarmos a hipótese de que a doença é o resultado da falta de contato com a alma ou essência, a cura só vai acontecer quando percorrermos o caminho de volta, o regresso a quem somos e a desconstrução de todas as imagens falsas e distorcidas que aceitamos como sendo nós.

Isis – Grande Mãe da magia no antigo Egito

Duvide quando ouvir de alguém que você não sabe, não pode, não consegue. Que você está gorda, ou feia, ou velha demais para fazer qualquer mudança de rota. Duvide se ouvir que você é frágil, insegura, incapaz de gerenciar a própria vida. Duvide se te disserem para não entrar na floresta porque é perigoso demais, porque o lobo mau vai te perseguir, te enganar e ainda por cima vai comer a vovozinha. Lembre-se que conhecemos as florestas como ninguém, que sabemos caminhar entre as sombras, que sabemos intuir qual a melhor direção, que temos um sexto sentido que é uma bússola existencial não revelada. Lembre-se do percurso do feminino através do tempo, das ancestrais, da conexão com a Grande Mãe.

Existe uma deusa dentro de você. Desperte-a!

E, principalmente, lembre-se que nenhuma de nós pode tanto quanto todas nós juntas; as mulheres sempre se reuniram em rodas, cirandas, círculos, porque mesmo inconscientemente sentiam que a irmandade entre mulheres ativa e libera o poder mágico da transformação. E quando uma de nós se transforma, todas as mulheres se transformam!

Cheiros da Infância

Não sei se já aconteceu com vocês de estarem andando por algum lugar e sentirem, sem mais nem menos, um aroma que se transforma em um túnel por onde desliza-se imediatamente de volta ao passado. De repente vem um cheiro de algodão doce, de maçã do amor, de bexiga quando fica murcha dentro do quarto, de tênis molhado em dia de chuva. E cheiro de guarda roupa quando nos escondíamos dentro dele, quem lembra? Cheiro de festa, de bolo de mãe assando no forno, de massa de brigadeiro quente.

Isso sem falar na lembrança do cheiro das pessoas, porque afinal cada um de nós tem um cheiro particular e as crianças são muito sensíveis a isso. Outro dia um pacientezinho de 8 anos me confidenciou, em tom quase cerimonial, que ele sentia cheiro de gente e que o meu cheiro era igual ao da mãe de um amigo; eu argumentei dizendo que talvez nós duas usássemos o mesmo perfume. Prontamente ele contestou e, um pouco irritado com a minha dificuldade em compreender o óbvio, retrucou: “- Eu não estou falando de perfume, eu estou falando de cheiro de gente!!”. Sorri agradecida por ele me fazer recordar os cheiros de gente que eu também sentia! O da tia legal era diferente do da tia chata, assim como cada professora tinha o seu. Mas o cheiro da mãe, do pai, dos irmãos era inconfundível e único.

Há também a lembrança de aromas muito mais antigos, nem sei se vividos ou adivinhados… cheiros de floresta, de terra molhada, de madeira queimando na fogueira. Cheiro das estações, das roseiras e dos campos de lavanda, de benjoim, alecrim, alfazema. Da defumação nas igrejas durante os rituais da Semana Santa, de mirra e incenso.

Há o cheiro dos temperos, cebola, alho salsa e manjericão que saiam da cozinha da avó, da mãe, da tia, das mulheres da família. Cheiro de pudim de pão coberto de canela, de cravo da Índia no doce de abóbora, no arroz doce e na canjica. Do feijão nosso de cada dia, feito a cada dia.

Sabem de uma coisa? Essa história de divisão do tempo em passado, presente, futuro, isso é história pra boi dormir, como diziam os antigos. O Inconsciente é atemporal, postulou Freud, e nessa atemporalidade vivemos todos nós. Somos tecido feito de linhas do que vivenciamos e sonhamos, tudo junto e simultaneamente. Assim como no Samsara, também transitamos pelas nossas vivências em um looping sem começo nem fim. Basta um descuido ou um convite, uma urgência ou sugestão para que a criança que carregamos dentro desperte e traga em seu rastro o novelo da memória com um fio solto, o qual passamos a desenrolar e desfiar, lembrança por lembrança.

Sentimos os cheiros, ouvimos os sons, revivemos as cenas. A emoção brota, a saudade também. Saudades de um tempo onde tínhamos a sensação que seríamos eternamente jovens e que teríamos todo o tempo do mundo para viver a vida. Passou rápido, muito rápido, acho que nos enganamos, que não era tanto tempo assim… ou não sabíamos o suficiente de Física para compreender o conceito da dilatação do tempo, da teoria da relatividade.

Que seja! O melhor da história é que tudo vive em nós, está aqui, armazenado, guardado ou não, quem sabe continua acontecendo em um Universo paralelo. Quem sabe estamos todos brincando de pega-pega no parque da escola, em algum ponto fora da curva do tempo!!

Do luto ao lixo

Parece que uma nuvem de tristeza encobriu os céus do país, e que os ventos não são fortes o suficiente para fazê-la mover-se.  Estamos todos enlutados diante da perda de tantas vidas interrompidas pela lama, pelo fogo, por falhas técnicas, por descasos de toda ordem. O mar de lama que cobriu Brumadinho continua expandindo-se, entra em nossas casas através de imagens, fatos, relatos, hipóteses e apurações. O fogo que consumiu a vida e os sonhos de meninos pobres e suas famílias arde desconfortavelmente em nossos pensamentos, nos coloca frente a frente não apenas com a impermanência, mas também com a precariedade do cuidado com a vida humana. E a voz lúcida e íntegra que denunciava e expunha as feridas desta sociedade doente, calou-se para sempre!

RIP jornalista Ricardo Boechat

Entre um acontecimento e outro eis que surgem nas redes sociais fotos e mais fotos de uma festa, comemoração dos 50 anos de uma mulher branca, rica, poderosa, diretora da revista Vogue Brasil. Essas imagens poderiam até trazer alguma alegria, desviar um pouco nosso olhar da dor, não fossem elas reveladoras do entulho no qual, enquanto sociedade, estamos mergulhados.

Não sei como é para vocês, mas para mim é inimaginável como alguém pode ter a ideia de fazer uma festa cujo cenário e fantasias façam menção ao Brasil Colônia e escravocrata, que dividia os homens entre brancos e negros, senhores e escravos, sendo que aos primeiros era dado o direito à vida, e aos segundos era dada a sentença de morte. Um período manchado de sangue, de tortura, de apropriação da vida alheia; um período onde o mar da inconsciência e do obscurantismo parecia afogar a sociedade brasileira. Fala sério, como isso pode ser tema de uma festa? Como mulheres negras aparecem fantasiadas de escravas com abanadores nas mãos e se colocam ao lado de cadeiras que lembram os “tronos de sinhá”, para que os convidados brancos lá sentassem e posassem para fotos??

Donata Meirelles pediu demissão da Vogue Brasil após polêmica festa

Como não acredito em coincidência e sim em sincronicidade, não consigo deixar de relacionar os fatos. Se alguém, de alguma forma, reedita a história desta maneira é porque deve existir, mesmo em um nível mais inconsciente, um ranço preconceituoso, um racismo que se manifesta disfarçado de brincadeira, de modismo fashion ou qualquer coisa do gênero. Ou seja, persiste a crença que somos diferentes, não em razão da individualidade, porque aí sim somos diferentes, mas em razão da cor da pele, da classe social ao qual cada grupo pertence, das aquisições econômicas e culturais, a tão antiga e caduca sociedade de castas, de classes. E abro um parênteses para colocar que do meu ponto de vista isto não tem nada a ver com posição política de direita ou de esquerda, uma vez que a corrupção corre solta sem respeitar lados, e a possibilidade de expandir a consciência não está restrita a uma ideologia específica, é maior e transcende tudo isso.

Da mesma maneira acredito que se a barragem de Brumadinho estivesse debruçada sobre grandes propriedades de pessoas ricas e influentes, os cuidados com segurança, manutenção e conservação seriam bem diferentes. E caso os meninos mortos fossem brancos e ricos, a questão já teria ultrapassado a comoção geral, e o clube já estaria sendo arguido de maneira mais precisa, rápida, eficiente e inflexível.

Infelizmente grande parte desta sociedade é racista, homofóbica, preconceituosa. Grande parte ainda acredita que há pessoas superiores a outras, e que portanto tem que haver distinção na maneira como são tratadas. Infelizmente há pessoas que não tem nenhuma empatia com a dor alheia, nem vergonha de fatos que mancharam a história e massacraram milhões de seres humanos, e que se dão ao luxo de brincar com eles.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/02/camara-faz-minuto-de-silencio-por-mortos-presidente-da-vale-nao-se-levanta.shtml

Infelizmente também, o CEO da Vale parece demonstrar solidariedade zero com todos os mortos de Brumadinho e suas famílias pobres, e sequer teve a capacidade humana de levantar-se da cadeira para honrar a memória dos mortos no minuto de silêncio que foi feito na Câmara dos Deputados, em uma reunião da Comissão Externa. Diante de uma sala toda em pé, ele manteve-se sentado. Talvez estivesse com cãibras nas pernas… ou talvez não considerasse que pobres e negros merecessem seu esforço em levantar-se. Sua declaração após a tragédia: “A Vale é uma joia, e não pode ser condenada por um acidente, por maior que tenha sido a tragédia”. Hein??!? Presidente da Vale, Fabio Schvartsman – um ser que só enxerga lucros, dividendos e negócios, e para quem a vida humana não tem qualquer valor.

A boa notícia é que outra grande parte da sociedade não é assim, não pensa nem age assim. A outra parte é capaz de fazer mutirões que atravessam dias e noites para socorrer o próximo. A outra parte é capaz de sentir vergonha alheia!!