Pai

Hoje é domingo, dia dos pais. Há casas com a família reunida em torno de uma mesa farta, com pais de diferentes gerações, celebrando seu dia. Há casas onde, ao redor da mesa, fica uma cadeira vazia e corações cheios de saudades.

Há pais de todos os perfis: os patriarcas que passaram a vida trabalhando para cumprirem o papel que entendiam ser o seu diante da família, o de provedor e responsável por sua manutenção. Esses foram roubados do convívio mais próximo com os filhos, de relações mais abertas e afetivas, uma vez que a eles também cabia a transmissão da lei e da ordem, e não puderam perceber que esses papéis poderiam caminhar junto com brincadeiras divertidas e abraços longos. Sabiam dos filhos através do relato das esposas, das queixas desfiadas ao início da noite quando chegavam em casa, da lista de malcriações que as crianças fizeram, e lá ia o pai, cansado porém decidido a cumprir a última tarefa do dia, a de ralhar com os filhos e colocar-lhes um castigo. Imagino o peso que esses homens carregavam sobre os ombros, a vida árida com emoções trancafiadas, os medos engolidos e as certezas – que não tinham – colocadas como grandes e definitivas verdades!

Há os filhos dessa geração, homens que tornaram-se pais dispostos a não repetir esse modelo, que desejavam maior proximidade com os filhos, que já não se encaixavam no papel da provedor único e autoridade máxima, que desejavam respeito com afeto, que pleiteavam o direito de assumir seus medos e incertezas, e de viverem uma vida emocionalmente mais rica e destravada. Esses pais viveram a insegurança da transição de modelos, experimentaram o vazio da travessia, o sair de um lugar e não saber ainda onde aportar. Perderam a clareza de seu papel, erraram na medida, por vezes foram condescendentes demais por receio de serem intransigentes demais como seus próprios pais. Mas ganharam abraços mais longos, relatos espontâneos dos próprios filhos, pedidos de cumplicidade. Ganharam também algum tempo para brincar, jogar bola, ir ao estádio, sentar no chão para o um jogo antes de ajudar a esposa a colocar os filhos na cama.

Há os pais jovens, recém saídos da primeira experiência da paternidade, netos desses patriarcas. Homens que vivem outra realidade, pertencem a outro universo. Presenciaram um pouco a relação de seus pais com seus avôs, tiveram pais mais próximos e mais “perdidos” em sua função. Jovens conscientes da necessidade de construção dessa relação na rotina diária, no acompanhamento de perto do desenvolvimento desses filhos. Jovens que dividem com suas companheiras tanto a responsabilidade pelo sustento da família quanto pela troca de fraldas, pelo levantar a noite com o choro do filho. Jovens que encaram a pia cheia de louça suja com a mesma naturalidade com que encaram o mercado financeiro e suas variações.

E assim caminhamos enquanto humanidade, descobrindo e redescobrindo nosso lugar no mundo, revendo papéis e aprimorando relações. Assim caminham esses pais, exploradores de possibilidades até então desconhecidas, buscadores de extrair da relação com os filhos a grande benesse do amor fluido e do companheirismo que permite às diferentes gerações caminharem juntas, lado a lado, sem acusações e sem culpas.

A todos os pais, que possam receber dos filhos um olhar de reconhecimento e de amor; ao meu pai, ao pai dos meus filhos e a todos os outros, um feliz domingo!

Sobre asas e voos

Há um mês não escrevo para este blog, estive ausente, viajando. Não foi uma viagem comum, dessas que amiúde fazemos; para mim foi uma viagem muito especial, e sabem por que? Porque me dei de presente a possibilidade de estar feliz. Mas todo presente tem um preço, e com este não foi diferente. Não vou generalizar dizendo que quanto melhor o presente, mais ele custa. Entretanto sabemos que, via de regra, coisas valiosas custam caro.

O preço a que me refiro não se restringe ao aspecto econômico; no caso da minha viagem esse aspecto teve uma representação significativa, mas certamente não a mais importante. Para adquirirmos alguma coisa precisamos desembolsar outras coisas. Se você resolver trocar o sofá de sua casa, por exemplo, não basta apenas ter o dinheiro; na verdade, muitas vezes nem o temos em sua totalidade, e damos um jeito de parcelar o valor, economizar em outras coisas e por aí vai; o processo vai muito além disso.

Você precisa perceber que existe a possibilidade de fazer uma mudança, embora aquele sofá antigo ainda te sirva; depois ou simultaneamente você precisa desejar o novo sofá, criar uma motivação que te fará movimentar-se de encontro a ele. Precisa também silenciar o lado racional que vai tentar te convencer de que essa aquisição não é importante, que talvez você pudesse guardar esse valor que vai desembolsar para uma emergência, afinal imprevistos acontecem. E que também corre-se o risco de alguma coisa não dar certo, do sofá novo ficar esquisito dentro da sala, de ser menos confortável do que aquele do qual você pretende desvencilhar-se, e etc., etc., etc.

É claro que não estou escrevendo nem sobre sofás nem sobre a minha viagem, já que ela é uma experiência pessoal; estou escrevendo sobre relembrar que temos asas, e que asas servem para nos fazer voar. No início da vida, quando éramos crianças e ainda não havíamos sido domesticados no medo, fazíamos todo tipo de experimentações possível, nos atirávamos no mundo, fascinados pela grandeza e diversidade de tudo. Fomos crescendo e continuamos a experimentar: é só recuperar na memória o período da adolescência e início da vida adulta que não faltarão exemplos.

Mas o que acontece conosco quando nos tornamos pessoas “maduras”? Por que cargas d’água recolhemos as asas e fazemos de conta que não as temos mais? Por que o mundo torna-se tão chato, e nosso universo tão restrito? Certamente essa não é uma condição imposta pela suposta maturidade, claro que não! Isso é fruto da descrença na força da vida que habita em nós, da nossa capacidade de voltar a levantar voo toda vez em que nos permitirmos sonhar com isso, toda vez em que decidirmos imobilizar o medo, ao invés de permanecermos imobilizados por ele.

E quando levantamos voo, apesar da instabilidade inicial, despertamos o encantamento adormecido e a alegria que já sentimos e nem nos lembrávamos mais. E o mundo visto lá de cima torna-se amplo, a perder-se de vista, tão fascinante e convidativo que dá até vontade de alcançar a linha do horizonte só para espreguiçar-se sobre ela, despretensiosamente, e esperar o sol se pôr já sonhando com o novo céu repleto de estrelas…

Não sei quantas almas tenho

  • Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Lua adversa

  • Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu.