Das dores nossas de cada dia

Uma amiga fez uma postagem no Facebook que trazia a seguinte frase: “Existem dois tipos de dores no mundo: A dor que te machuca e a dor que te muda”.

Fiquei pensativa, as dores não são todas iguais, não nos ferem de qualquer maneira? Mas depois de refletir um pouco concordei com a colocação feita, há diferenças sim.

As dores que nos machucam talvez sejam aquelas que não compreendemos e, portanto, não aceitamos. Essas nos imobilizam, nos prendem pelo impacto que nos causam e pelas interpretações subjetivas que delas fazemos. Ficam doendo por tempo indeterminado, sempre presentes como se tivessem acabado de acontecer.

Costumamos senti-las como um golpe traiçoeiro que a vida resolveu aplicar em nós; ficamos indignados, muitas vezes nos sentimos injustiçados e perseguidos de alguma forma, como se houvesse alguém (o agente da dor) disposto a nos atacar justamente quando estamos distraídos. E por permanecermos grudados nelas como se tivessem um velcro, não conseguimos mudar. Nos sentimos vítimas e impotentes.

As dores que nos fazem mudar são aquelas que conseguimos compreender de alguma maneira, seja porque percebemos que somos seus cocriadores, seja porque as acolhemos como fazendo parte do jogo da vida. Elas nos entristecem, claro, mas não atuam como âncoras que seguram o barco no mesmo lugar. Pelo contrário, pela possibilidade de aceitá-las e ressignificar o propósito das coisas, acabam funcionando como vento a soprar sobre as nossas velas, nos fazem navegar, nos colocam em movimento pelo vasto oceano da existência.

E movimento é mudança, porque implica em flexibilidade, novas percepções, novos ângulos de visão. Quando mudamos, o mundo se modifica, porque nós permitimos que as transformações aconteçam.

Talvez essas sejam as chamadas dores do crescimento, que nos desafiam na superação de nossas dificuldades e resistências, que nos inspiram a necessidade de nos tornarmos pessoas melhores, mais generosas e mais empáticas. Aprendemos com elas, amadurecemos, expandimos a consciência e evoluímos um pouquinho na escala da vida. À elas, a nossa gratidão!

Consciência e Ética

Nesta semana esteve em São Paulo Jean-Yves Leloup, doutor em Psicologia, Filosofia e Teologia, padre da Igreja Ortodoxa, palestrante e autor de vários livros. Fez uma palestra intitulada Consciência e Ética onde abordou vários aspectos interessantes, com o brilhantismo e a clareza que lhes são peculiares. Dentre todas as colocações que fez, me chamou a atenção a de que a ética é proporcional à qualidade da consciência, e que a consciência, por sua vez e dependendo da sua qualidade, nos permite observar o visível e o invisível que habita todas as coisas.

Pois bem, quando eu sou apto a observar o visível e o invisível que habita todas as coisas, eu me dou conta que participamos de uma realidade chamada vida e a compartilhamos com todos os seres vivos pertencentes a todos os reinos da natureza, mineral, vegetal, animal e humano, e que há uma vida única que une todos nós.

Se estamos todos conectados e comungamos da mesma energia vital, fica claro que tudo o que eu penso, sinto e faço afeta a todos os seres que pertencem a essa teia energética.

Isso nos coloca em um lugar que é ao mesmo tempo interessante e cheio de responsabilidades, que é o de co-criador da realidade e do mundo no qual vivemos; essa constatação tira de nós o “gozo” e o ganho secundário de representarmos o papel da vítima.

A assertiva de que a mudança que desejamos ver no mundo é a mudança que precisa ser feita em nós torna-se cada vez mais clara e verdadeira. O outro é a manifestação de um aspecto meu que, embora oculto, existe. Se eu desejo erradicar a violência do mundo eu preciso trabalhar para erradicar a minha própria violência, que externamente está representada no sujeito que rouba, mata e tortura, e internamente se alimenta dos pensamentos tortuosos, dos julgamentos severos e até mesmo cruéis que fazemos em relação a nós mesmos e aos outros, de todas as segregações preconceituosas. Não tem nada mais violento do que o preconceito.

Por outro lado, não podemos esperar comportamentos éticos de sujeitos que não desenvolveram a própria consciência, que são primitivos no sentido dessa evolução. Que ainda mantém a ilusão de que trabalhar para o benefício próprio a despeito do prejuízo dos outros é um bom caminho para prosperar… esses, mal conseguem perceber o visível, que dirá o invisível… Bastaria observar o funcionamento do próprio corpo; uma célula cancerosa não consegue ficar isolada do organismo, produz metástase e a falência geral do corpo.

Talvez o mais importante seja que cada um de nós desenvolva a auto-observação e o exercício da presença consciente na própria vida. Que nossas atitudes não sejam aleatórias, mas que estejam em ressonância com um propósito consciente de busca de equilíbrio e harmonização com o Universo como um todo. Que possamos acertar o passo e bailarmos no ritmo dos astros, uma vez que, dizem, somos feitos de pó das estrelas!

Jogo rápido

A vida é jogo rápido, estamos aqui e, de repente, não estamos mais. Aparecemos e desaparecemos em um piscar de olhos, muitas vezes sem aviso prévio ou explicações plausíveis; estamos no meio de uma atividade e somos retirados da cena, simples assim.

As justificativas? Aneurisma, ataque cardíaco, bala perdida ou endereçada, acidente, e por aí vai. O fato é que não sabemos a data do bilhete de partida e agimos como se fôssemos permanecer encarnados nesse corpinho por séculos!

Que essa ilusão permeie nossa existência enquanto somos jovens é compreensível, afinal quando se tem 18 anos, a sensação é de uma estrada sem fim pela frente, e o sentimento de onipotência é largo, vamos mudar o mundo e temos todo tempo do mundo para fazer isso. Mas, passada essa fase, e todos nós sabemos que ela passa rápido, a ficha precisa cair.

Postergar as realizações e prazeres é como jogar água para fora da bacia, é preciso entender que cada dia neste planeta lindo é precioso, e que merecemos aproveitá-lo com vontade. Já vivemos meio século, experimentamos de tudo um pouco. Enfrentamos desafios de tamanhos e intensidade variados, nos viramos de todas as maneiras possíveis para “ganhar a vida”, nos lotamos de deveres e obrigações, nos responsabilizamos e nos cobramos por um monte de coisas, e sonhamos que um dia curtiríamos a vida sem pressa.

Pois bem, parece que o tempo de fazer isso é agora, afinal os primeiros 50 anos já se passaram… Mas essa é uma mudança importante, que requer muitas outras mudanças para, de fato, acontecer. Implica em olhar para nós mesmos de um jeito diferente e dimensionar o tempo de outra forma. Implica em rever prioridades, reformular conceitos, perdoar-se e colocar-se como merecedor do prazer. Falando nisso, é preciso procurar por ele no final da lista e trazê-lo para encabeçá-la.

Implica em sair do piloto automático e dirigir a própria vida, em questionar-se sobre o que se deseja a cada momento. Escolher o que se quer comer, beber, vestir; o que queremos e o que não queremos mais ouvir, com quem queremos nos relacionar e de quem precisamos criar saudável distância. Implica em trocar obrigações por concessões, abaixar o volume do coro interno que repete a ladainha da culpa.

Parece difícil? Mas não é, talvez seja apenas um pouco trabalhoso. Esta sexta eu havia terminado de trabalhar mais cedo e resolvi abrir os armários do consultório e organizar as inúmeras pastas de textos, relatórios e anotações. Recebo um telefonema do meu filho que estava na porta de casa e se deu conta que havia esquecido a chave, não tinha como entrar. Disse a ele que viesse até o consultório pegar a minha chave de casa, são três quarteirões de distância. Desliguei o telefone e olhei para a minha mesa lotada de papéis, mas consegui olhar também para a oportunidade de encontrar meu filho no meio da tarde, e pensei que gostaria muito de aproveitar aquele momento.

Quando ele chegou para pegar a chave convidei-o para sairmos e comermos alguma coisa gostosa, convite que foi prontamente aceito. Olhei para a mesa e tive a certeza que tudo aquilo podia esperar para ser arrumado. Saímos, fomos comer, conversamos sobre muitas coisas, ele foi me contando o que havia acontecido na semana, o que ele estava planejando, e foi uma delícia!! Senti que ele retribuiu meu convite convidando-me a entrar um pouco na vida dele.

Fica aqui o convite para você rever suas prioridades, fazer o que te dá prazer, ter tempo para jogar conversa fora, regar as plantas, olhar o por de sol pela janela, ouvir aquela música que tanto gosta. Estar atento para aproveitar cada pequena oportunidade e transformá-la em um momento de prazer!

Avanços e retrocessos

Que a vida é feita de ciclos todos nós sabemos, que a humanidade movimenta-se para frente e para trás, também. Avançamos e recuamos, conquistamos e perdemos, no eterno jogo entre ganhar a liberdade e retornar à escravidão. Mas ultimamente estamos mais para siri do que pra gaivota… parece que olhamos pelo retrovisor, engatamos uma ré e decidimos voltar ao tempo do preconceito. Não que de fato tivéssemos saído dele, mas parecia que estávamos ao menos caminhando na superfície, e agora resolvemos mergulhar.

Que mergulho vergonhoso! O que será que estamos buscando com isso? Há quem peça a cura gay, a volta da ditadura, há quem incendeie templos religiosos de origem africana, há quem vote a favor do ensino religioso (de uma única religião) nas escolas públicas. Há quem persiga e agrida mulheres, homossexuais e negros, há quem acredite na supremacia da raça branca. Há quem defenda fronteiras como se fosse o dono daquele pedaço de mundo, há quem considere que o bem mora de um lado e o mal mora do outro, e que devemos dividir o planeta entre os que servem e os que são servidos.

Fala sério, o que está acontecendo conosco enquanto humanidade? Resolvemos revisitar a Idade Média e reeditar suas barbáries? Caminhamos tão orgulhosos dos nossos avanços tecnológicos, fomos à Lua e mandamos uma sonda até Saturno, temos fotografias incríveis do Sistema Solar, descobrimos a cura de várias doenças, desenvolvemos vacinas, mas fomos incapazes de remir o preconceito, que sempre nos remete à idade das trevas.

O preconceito é separatista, trabalha a favor da desintegração, faz com que as pessoas se achem na condição de julgar seus semelhantes quando esses não são tão semelhantes assim, ou seja, quando apresentam diferenças em relação ao modelo vigente. Fomenta a desigualdade, distorce a realidade, é laboratório para o ódio e a violência. Condena e pune grande número de pessoas por razões étnicas, religiosas, de gênero, sociais. É irracional, cruel e fatal.

Enquanto não pudermos compreender que o avanço da humanidade e seu progresso está intrinsicamente relacionado com a evolução de consciência de cada ser humano, vamos continuar patinando sobre a superfície lisa da ignorância. Não adianta erguer uma sociedade sob o aspecto da forma se não houver um alicerce que garanta sua estrutura interna.

O crescimento do preconceito traz junto de si o crescimento de grupos de pessoas que se auto intitulam guardiões da moral e dos costumes, fiscais da vida alheia, que em nome de defenderem o que consideram a “ideologia correta”, se permitem transgressões mais perigosas e nefastas do que aquelas que condenam.

Assim como o espelho de casa reflete a imagem do nosso corpo, a auto- observação reflete a imagem do que somos, sentimos, pensamos e trazemos dentro de nós, quase como se fosse o espelho da alma. Que possamos usá-la a serviço do auto conhecimento e nos darmos conta que nada nos faz melhores do que o outro, seja ele parecido ou diferente de nós. Que atire a primeira pedra aquele que de fato for um ser humano íntegro!

Equinócio da Primavera

Na sexta passada, dia 22, o Sol entrou no signo de Libra e anunciou o equinócio da Primavera aqui no hemisfério Sul, e o de Outono no hemisfério Norte. Equinócios acontecem duas vezes por ano, em março e setembro, e marcam o momento em que o Sol incide com maior intensidade sobre as regiões que estão próximas à linha do Equador. Com a passagem do Sol no meio da Terra,os dois hemisférios do nosso planeta recebem a mesma quantidade de luz, o que faz com que o dia e a noite tenham a mesma duração, exatamente 12 horas.

Para nós é Primavera, e a natureza já assinala o início de um novo ciclo; as árvores já estão cobertas de folhas e algumas começam a florescer; mais um pouco, estarão completamente floridas.

A passagem das estações e as mudanças que provocam na natureza nos mostram tudo que precisamos aprender. A vida acontece em ciclos, e cada um deles traz uma dimensão da manifestação da energia vital. Na Primavera o tom é dado pela energia da renovação.

As árvores, que viveram sua plenitude no Verão, permitiram desfolhar-se no Outono, deixam suas folhas secas desprenderem-se, nos ensinando que nada é eterno, e que é preciso aprender a trabalhar o desapego. No Inverno tornaram-se silenciosas, discretas, como se voltassem para dentro de si mesmas, e manifestam a beleza na força da resistência. Agora, voltam a florir, renascem, renovam-se, tornam-se exuberantes e explodem nas cores das flores e nos sabores dos frutos.

Viver e morrer, renascer, esse é o movimento de todos nós que ainda estamos presos à Roda do Samsara, ao fluxo contínuo de vida e morte, sequência infinita de causa e efeito, sequência dos vários despertares da consciência no transcorrer da vida. Assim como as estações, repetimos o longo percurso da aprendizagem até o momento da iluminação, do insight maior que nos permitirá compreender o propósito da nossa existência, trazendo a possibilidade de romper com o ciclo das repetições e construir um novo modelo.

Que da Primavera possamos aprender a necessidade da renovação, da busca da beleza e da alegria, do erguer-se após cada queda, do brotar após cada poda. Que possamos plantar as sementes do novo sonho, regá-las com entusiasmo e perseverança, acreditar que tudo que vivemos pode transformar-se em instrumento de mudanças.

Adoro Cecilia Meireles:

“Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.”

Que assim seja com todas nós!