O Outono e nós

Sou apaixonada pelo Outono, para mim é a estação do equilíbrio. Nele há de tudo um pouco: luz, calor, frio, vento, brisa, chuvas, todos os elementos se alternam e partilham o tempo e o espaço numa dança harmoniosa e ritmada, como bailarinos sobre um palco. O céu de Outono desfila cores únicas, com nuances e tons pouco vistos em outras estações; o jogo entre luz e sombras é discretamente sedutor. Ele não possui o colorido da Primavera, a intensidade do Verão, a frieza do Inverno. Mais parece um almágama, uma fusão perfeita dos elementos que tecem a trama da vida e da natureza. Não é a toa que o correlacionam com a maturidade. Nós, mulheres aos 50, somos outonais.

Foi-se a necessidade abusiva de marcar território, de precisar pertencer a todo e qualquer círculo para poder sentir-se aceita; de exagerar na aparência, de abrir mão de viver certos prazeres porque o cabelo não está impecável, as unhas não estão feitas. Foi-se a necessidade de “primaverar” todo o tempo, de parecer sempre radiante e florida. Também não há mais aquela intensidade que nos queima por dentro, a ansiedade de beber a vida num único gole, como se não houvesse depois. Talvez tenhamos aprendido a manusear melhor o tempo, transformá-lo em um aliado. Muito embora ele tenha trazido a modificação do nosso corpo e acrescentado marcas que não tínhamos, esse mesmo tempo nos permitiu experimentar tantas coisas diferentes e aprender com elas, que pudemos mudar a maneira de compreender o mundo por estarmos mais próximas de compreender a nós mesmas. A chama interna continua a nos aquecer, os sonhos prosseguem sonhados, mas agora entendemos que é preciso respirar entre um movimento e outro. É preciso dar tempo ao tempo para que a vida flua no seu próprio ritmo e velocidade, e não naquele que tentamos impor.

Somos discretamente sedutoras, e a sedução exercida envolve o olhar que não se acanha em penetrar nos olhos do outro; envolve uma certa serenidade que foi a duras penas conquistada; um rasgo de sabedoria de quem já correu várias maratonas e discrimina um pouco melhor o que vale ou não vale ser conquistado. Envolve um fogo que aquece mais do que queima, e é alimentado pela curiosidade, pelas ideias, pelo aprendizado, pelo desejo de estar melhor consigo mesma e de ser alguém melhor para o outro.

Assim como no Outono as árvores soltam as folhas amareladas, também nós estamos aprendendo a deixar ir o que não agrega mais, nos permitir desapegar do que já foi desgastado pelo tempo e perdeu o viço e a força, e isso vale tanto para pessoas como para conceitos, fórmulas, maneiras de estar no mundo. Sabemos que ficamos desnudas, às vezes esvaziadas, mas esperamos florir novamente assim que o Inverno passar. Talvez essa seja a mais humana das estações, e é preciso sensibilidade para percebê-la. Talvez estejamos em um momento onde seja possível nos aproximarmos mais do humano e do divino que habita em nós, e conciliar essas forças para que, amalgamadas, nos deem abrigo para quando chegar o inverno.

A curva da felicidade

Mirian Goldenberg é uma antropóloga brasileira que há 30 anos estuda sobre envelhecimento e, segundo ela, pesquisas realizadas por economistas em 80 países, envolvendo mais de dois milhões de pessoas, revelou um padrão constante: as pessoas mais jovens e as mais velhas são as que se sentem mais felizes, e as que se sentem menos felizes são as que estão entre os 40 e os 50 anos.

Essa curva da felicidade tem o formato da letra U, e indica que a felicidade é maior no começo da vida, diminui ao longo dos anos e atinge seu ponto mais baixo por volta dos 45 anos. Depois volta a subir, mostrando que as pessoas mais velhas com boa saúde e estabilidade financeira e afetiva podem sentir-se tão felizes quanto as pessoas mais jovens.

Ela também realizou uma pesquisa entre as mulheres brasileiras e constatou a mesma curva da felicidade. Isso significa que as mulheres entre os 40 e 50 anos são as que se sentem mais infelizes, frustradas e deprimidas. Reclamam pela falta de reconhecimento, de tempo e de liberdade, e não se sentem mais jovens; o corpo já não se apresenta de acordo com o ideal vinculado pela sociedade. E parece que a partir de 50 anos as coisas melhoram, e as mulheres com mais de 60 se consideram felizes, por sentirem que alcançaram a possibilidade de serem elas mesmas, de desfrutarem de um sentimento de liberdade.

E isso vem do desapego da necessidade de agradar e cuidar de todos e de tudo, e o tempo passa a ser usado no sentido de fazer coisas para si mesma, viver o que antes não foi vivido, priorizar a própria felicidade. Para isso tiveram que aprender a dizer não, o que é muito libertador para nós mulheres, uma vez que sempre assumimos o papel de cuidadoras alheias. Cuidamos da casa, do marido, dos filhos, dos pais, depois dos netos, e por aí vai, mas, pela dificuldade de usar o não como um limite, acabamos por não cuidar de nós mesmas. Pela pesquisa, essas mulheres também fizeram uma faxina na vida, se desfizeram de tudo que não é mais importante, mas principalmente, se afastaram das pessoas consideradas “vampiros emocionais”, que só criticam e sugam nossa energia. E, por fim, ligaram o “foda-se”, não no sentido da falta de empatia ou generosidade com o outro, mas no sentido de prescindir da aprovação alheia.

Ou seja, eu decido o que eu quero e gosto de fazer, e uma vez decidido, faço! Perco o medo do julgamento e da crítica do outro, não tenho mais a necessidade de me preocupar com o que vão pensar de mim. Lembram quando a Beth Faria, com 72 anos, foi duramente criticada por ir à praia de biquíni? E lembram-se do que ela respondeu? Que o que queriam é que ela se envergonhasse por ter envelhecido, queriam que ela fosse à praia de burca, mas que ela priorizava a liberdade, o prazer e a alegria.

Não precisamos esperar chegar aos 60 para conquistar a liberdade de viver de acordo com o que trazemos dentro, por que não buscar isso agora? O despir-se dos personagens que assumimos e dos papéis sociais que nos foram impostos e que acolhemos, é um processo de desconstrução. Talvez não seja fácil nem rápido, mas vale a pena adentrar a terceira fase da vida com transparência, leveza, autenticidade. Com clareza dos sentimentos e dos desejos, com consciência nas escolhas que contemplam o próprio coração. Já somos suficientemente amadurecidas para discriminar o que nos pertence e o que não nos pertence, o que é desejo meu e o que é expectativa do outro.

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

Mulheres maduras

Nós, ditas mulheres maduras, já vivenciamos por meio século, um montante de experiências e aventuras das mais variadas matizes. E tudo que vivemos está registrado em nós, tanto no corpo físico quanto na nossa alma. Somos criaturas pulsantes, buscadoras, corajosas, curiosas. Já fomos mais intempestivas do que somos agora, já nos deixamos inundar pela enxurrada de emoções, já nos deixamos cortar e florescemos novamente. Sabemos o sabor da alegria e também da tristeza, o doce e o amargo, temos aprendido a navegar nas cheias e nas vazantes. Somos seres sensíveis e caminhamos pela vida à luz do sol e à sombra da lua, desejamos compreender a nós mesmas e encontrar o que nos complementa. Já recebemos nossos filhos e, de certa maneira, já os deixamos ir. Fomos filhas e nos tornamos mães de nossos pais. De cuidadas, passamos a cuidadoras. Sabemos nos virar na cozinha, arrumar a mesa, receber os amigos, nos tornamos profissionais em busca de realização e reconhecimento. Também sabemos olhar o céu e nos comunicarmos com as estrelas. Entendemos que a vida é cíclica, uma roda gigante sem começo nem fim, e tentamos desfrutar da subida e nos manter equilibradas nas descidas.

Continuamos tendo sonhos e medos, protegendo e querendo proteção, alimentando certezas e acalentando dúvidas. Tudo o que fomos permanece em nós, como tintas sobre tela. Com o passar dos anos algumas ficam esmaecidas e outras continuam vívidas, mas nada se apaga no ser atemporal que em nós habita. Somos amadas e amantes, e o tempo nos ensina a necessidade de aproximação com a natureza, uma vez que reconhecemos que fazemos parte dela. O som da chuva e o cheiro da terra nos acalmam, precisamos do mar, das montanhas, do azul e do verde. O vermelho do fogo também nos atrai, e com ele aprendemos a permanecer, a manter acesa a labareda do desejo. Desejo pela vida, por novos trajetos, por percursos ainda a descobrir. Desejo de continuar e viver intensamente cada novo dia, cada nova noite.

Somos assim, nada nos define, nem poderia, porque trocamos de pele sempre, metamorfoses ambulantes. Sabe aquela velha opinião formada sobre tudo? Não temos, se é que um dia tivemos. Compreendemos que sabemos quase nada a respeito desse todo complexo e inatingível. Mas caminhamos, mantemos a marcha, como quem segue por uma estrada cuja paisagem sempre se modifica. Sabe-se lá onde essa estrada vai dar, mas pouco importa. O que importa é o caminhar.

Renova-te!

Semana Santa, Páscoa para os católicos, Pessach para o povo judeu, simbologias ligadas ao final de um ciclo (a morte e a fuga do cativeiro) e ao inicio de um novo ciclo (ressurreição de Jesus e o caminhar em direção à Terra Prometida). Guardadas as diferenças de enfoques religiosos, a proposta é de libertação. Para libertar-se é preciso fazer sacrifícios, é preciso sair de uma zona de conforto e dirigir-se ao desconhecido, é preciso morrer para velhas crenças e estruturas, reformular posturas, reinventar-se.

E não é isso que a vida nos pede constantemente, que nos reinventemos? Vocês já repararam que sempre que nos acomodamos em uma determinada situação e julgamos que está tudo mais ou menos tranquilo, despenca um acontecimento, interno ou externo, que nos obriga a repensar e redirecionar nossas escolhas? Somos sempre lembrados que nenhuma forma de escravidão é válida para nosso desenvolvimento, que precisamos reciclar percepções, emoções, ações, pensamentos, escolhas e reinventarmos nossas vidas tantas vezes quantas forem preciso. Talvez seja para isso que estamos aqui, para aprendermos a caminhar, a nos mantermos em movimento em busca de algo melhor em nós mesmos.

Para isso é preciso coragem, a mesma que teve Jesus quando aceitou morrer para renascer; a mesma que teve o povo hebreu, quando abandonou o Egito e fez a travessia rumo a Terra Prometida. Coragem, fé e determinação para renascermos de nós mesmos, para nos libertarmos do que nos aprisiona interna e externamente, para criarmos uma nova perspectiva de vida que valide nossos sonhos.

Há que se trocar a maneira de olhar, o ritmo dos passos, há que se esvaziar o coração das magoas acumuladas, há que se perdoar. Há que se criar o novo, e encher a boca de novos sons, o coração de bons afetos. Que a Boa Nova venha !!

Cântico 13 – Renova-te

“Renova-te. 
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços, para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.”

 (Cecília Meireles)

A hora é agora!

Nós, seres humanos, temos uma dificuldade muito grande em lidar com a finitude, e criamos mecanismos de defesa dos mais variados para não entrar em contato com essa constatação. Um dos mais prejudiciais à nossa felicidade é o de postergar o que queremos de fato fazer, como se tivéssemos a eternidade para realizar nossos sonhos. Costumamos nos encher de obrigações, a lista das tarefas é interminável, e o prazer, via de regra, fica para quando sobrar tempo, ou seja, fica sempre para amanhã.

Quantos livros estão enfileirados na cabeceira da sua cama aguardando o momento de serem lidos? Quantos filmes você se interessou em assistir e continuam na fila de espera? Sabe aquela amiga querida com quem você combinou um almoço, há quanto tempo você não a encontra? E aquela viagem tão desejada, que fica sempre para as próximas férias? Ah, tem também aquele dia de não fazer nada que nunca acontece, o final de semana sem nenhum compromisso que não vem. Quem já não se prometeu um dia de rainha, com Spa, ofurô, massagem, e quem conseguiu cumprir? Até mesmo aquele banho mais demorado, com direito a esfoliante e hidratação é difícil de acontecer.

Não sei de onde tiramos que o sentido da vida está em nos mantermos ocupadas o tempo inteiro, que somos imprescindíveis nas multitarefas que realizamos, que a rotina não pode ser quebrada. Que culpa é essa que carregamos inconscientemente e que nos mantem reféns dos deveres que acreditamos ter?

Fica aqui uma sugestão: dê uma espiadinha no seu passado e perceba o quanto você já fez, já correu, já se desdobrou para tudo e para todos num ritmo acelerado, alucinado. É claro que vai continuar fazendo, mas precisa ser nesse ritmo? Quando é que vai conseguir olhar para você mesma e identificar o que você precisa, o que você quer, como você quer, e se acolher tanto quanto já acolheu os outros?

Reconhecer as nossas necessidades e limitações é um passo importante para mudar a relação com nós mesmas, assim como aprender a respeitar as prioridades, não as que o outro coloca, mas as que de fato identificamos como nossas. Essa história de deixar para depois não sugere um final feliz; o depois está muito longe, em algum lugar difícil de ser alcançado. Tudo o que temos é o aqui e o agora, e este é o melhor momento para viver o que se deseja. O passado é pó e o futuro é bruma, mas o presente está aqui, inteiro, disponível para todas nós!