O silêncio

Sempre fui uma pessoa notívaga, adoro dormir tarde, circular pela casa de madrugada, espiar pela janela a rua vazia, espichar o olho até o céu e procurar estrelas; mas principalmente, gosto do silêncio.

Cada som que ouvimos é um estímulo, e a junção deles todos no decorrer do dia produz um barulho ensandecido, como se fosse um cruzamento de impulsos dissonantes que nos levam a um estado constante de stress. Nas cidades já estamos tão acostumados a ele que mal nos damos conta de sua presença; o incorporamos na nossa vida como fazendo parte de nós. Entretanto, isso não significa que ficamos imune aos seus efeitos, muito pelo contrário.

A dificuldade na concentração, a sensação de permanente cansaço, a intolerância frente a coisas tão pequenas, a respiração curta, a musculatura rígida e tantos outros indícios de que estamos sob stress se fazem presentes no nosso cotidiano. Os barulhos internos e externos nos bombardeiam numa batalha sem fim.

Mas, na medida em que a noite avança e as luzes de nossas casas se apagam, um som diferente surge e nos envolve, o silêncio! Isso me remete à histórica apresentação de Simon and Garfunkel no Central Park , na década de 80, cantando “The sound of silence”.

O silêncio é uma trégua, um momento precioso onde as manifestações do mundo externo parecem cessar. Me transporta a um lugar sagrado dentro de mim, um vale tranquilo cortado por um riacho, onde me sinto alforriada das amarras que me mantem refém de um mundo apressado e barulhento.

Mas o silêncio, para ser benção, precisa vir principalmente de dentro. Nossos pensamentos parecem gralhas, são incessantes e repetitivos; nos inundam feito água de enxurrada, vão tirando tudo do lugar, incitam emoções e vícios, preocupações e cismas.

Silenciar os pensamentos é abrir uma porta para outro mundo, é a possibilidade de entrar em contato com um universo diferente, muito mais amplo e mágico. O lugar onde habita quem de fato somos, a alma que pulsa para muito além do racional e do concreto, dos zumbidos e das limitações desta suposta realidade.

Entre mulheres

Nesta semana foi comemorado o dia da mulher, e muitos posts apareceram nas redes sociais em homenagem a todas nós. Alguns contavam sobre a origem dessa data, que representa a luta das mulheres por melhores condições de vida e de trabalho desde o século XIX, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na época elas reivindicavam a redução da jornada de trabalho de 15 horas diárias (você não leu errado, eram 15 horas!) e protestavam contra a discriminação de gênero. Com o passar do tempo esse movimento cresceu e, em maio de 1908, nos Estados Unidos, foi celebrado o primeiro Dia da Mulher com uma manifestação que reuniu mais de 1500 mulheres em favor da igualdade política e econômica no país. Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, operárias russas juntaram-se a outros segmentos da população e manifestaram-se contra o Czar Nicolau II, contra as péssimas condições de trabalho, a fome e a guerra em um protesto que ficou conhecido como “Pão e Paz”.

Como a história nos mostra, a luta das mulheres por seu reconhecimento junto à sociedade não é recente, e tão pouco seu fim parece próximo. Embora tenhamos avançado muito na conquista desse espaço, é inegável que o caminho pela frente ainda é longo e tortuoso. Para cada avanço existe uma tentativa de retrocesso, dentro de um sistema patologicamente machista, e a fala do Presidente da República esta semana sobre a “importância” das mulheres vem de encontro a esse ranço preconceituoso e retrógrado.

Mas isso não é importante; de nada adianta esperar que a conscientização baixe sobre toda a humanidade como uma luz e acenda as mentes obscuras e sombrias. O que vale é lembrar com imensa gratidão de nossas ancestrais, mulheres que abriram caminho onde antes nada existia, que se atreveram a pensar, contestar, lutar, pagando muitas vezes o preço com suas próprias vidas. O que vale é a nossa conscientização diária de que temos o dever e o privilégio de continuar lutando e alargando esse caminho para aquelas que virão depois de nós, nossas filhas, netas, bisnetas, todas as nossas sucessoras.

Que as mulheres do futuro possam se beneficiar da nossa luta, assim como nós usufruímos os benefícios da luta das mulheres que nos precederam. Que possamos criar nossos filhos homens com muita atenção e sabedoria, dando a eles a oportunidade de se tornarem homens íntegros, conhecedores do sentido de igualdade entre todos os seres humanos. Que possamos criar nossas filhas com asas, para que seu vôo seja maior e tenha um alcance para muito além do nosso. E que possamos honrar o sagrado feminino que carregamos em nós, o princípio do amor, da sabedoria, da força e do poder.

Tudo isso só é possível na medida em que nos conectamos, tanto com a nossa essência quanto com nossas companheiras de jornada, mulheres que seguem conosco pela vida, com quem podemos estabelecer relações de confiança, de ajuda, de suporte, de troca. Cada uma de nós é uma árvore plantada no solo da Grande Mãe Terra, nossas raízes se comunicam e se amparam, potencializando a força de cada uma e criando uma grande rede de energia feminina, que gesta interruptamente o processo de evolução humana.

É imprevisível

Vocês lembram da cena inicial do filme Forrest Gump? Tom Hanks está sentado em um banco enquanto uma pequena pena voa ao sabor do vento até cair sobre seus pés, quando então ele a recolhe. Por que lembrei disso agora? Justamente porque estava pensando em como a nossa vida assemelha-se a uma pena que dinamicamente se move, para cá e para lá, à mercê dos ventos.

Às vezes sopra uma brisa suave, e temos a ilusão de que podemos controlar sua direção. Outras vezes sopra uma rajada mais forte, vem uma turbulência, e demoramos um pouco para nos aprumar. Mas difícil mesmo é quando uma ventania se faz presente, e a pena que estava movendo-se em uma determinada direção, abruptamente é carregada para o outro lado, de uma maneira desordenada e num ritmo completamente diferente. Aí sim somos forçados a constatar que houve uma mudança, a despeito da nossa escolha ou desejo, a despeito sequer de nos sentirmos preparados para enfrentá-la, e que se faz necessário corrigir a rota que estávamos seguindo e criar condições internas para aceitar a mudança que já aconteceu.

E de nada adianta a perplexidade ou a lamentação; tão pouco parece útil a tentativa de justificar o que aconteceu, atribuir-lhe causas, razões. O nosso choque é resultado de vivermos tão resistentes e inconscientes diante da constatação de que a impermanência é a regra do jogo.

Um placar favorável não é garantia de que o jogo está ganho, assim como um placar desfavorável não é uma sentença de condenação. Vamos recordar a dualidade da nossa existência? Dia e noite, sol e chuva, frio e quente, passado e futuro, amor e ódio, e por aí vai… Eu pessoalmente acredito que estamos aqui para aprendermos justamente a encontrar o caminho que nos leve à unificação e integração das experiências; e vivenciar os pares de opostos talvez seja o método para essa aprendizagem.

Então vamos lá, força na peruca!! Seja inteiro e esteja inteiro em tudo que faz. O momento presente é o único lugar possível para aportarmos. Se você está ganhando o jogo, mergulhe de corpo e alma nessa alegria. Divirta-se, aproveite cada oportunidade de ser feliz. Encante-se com cada por do sol, ria até doer a barriga, fique até o último minuto, depois de acabar o sorvete não esqueça de lamber os dedos. Não economize beijos, abraços, encontros para jogar conversa fora; ouse!

Porque quando o placar ficar desfavorável, você vai encontrar uma reserva de força e de alegria dentro de você que vai ser imprescindível para que possa atravessar o caos e manter-se inteira, firme e forte, até reencontrar um porto feliz.

Carnaval

Há quem adore e quem deteste, quem já nasceu com um folião preso nas veias, esperando essa data para libertá-lo, e quem não consegue nem ouvir falar de trio elétrico. Há quem passe madrugadas nas arquibancadas cantarolando o samba das escolas que desfilam na avenida. Há quem passe as madrugadas no sofá cochilando entre uma escola e outra.

Há quem vá para as ruas no meio da multidão, há quem aproveite para esconder-se no meio do mato. Há quem acredite que, no carnaval, todas as transgressões serão perdoadas, há quem se autorize a rebaixar a própria censura e fazer o que condena no resto do ano. Há quem vá à igreja para blindar-se de todas as tentações, há quem mergulhe de cabeça em todas as tentações. Há quem se fantasie de algum personagem, e há quem se dispa de seus personagens.

Há quem está sozinho buscando um amor de carnaval, ou dois, ou mais. Há quem se faz sozinho para buscar uma paixão de carnaval, ou duas, ou mais. Há quem fique nas filas dos pedágios, dos guichês dos aeroportos, das estações rodoviárias. Há quem fique nas janelas olhando as ruas vazias, olhar distante repousando sobre o silencio.

Há quem traia e quem se sinta traído, há quem pula junto de seu amor. Há quem aproveita para por a leitura em dia, ou para assistir a todos os filmes que concorrem ao Oscar. Há quem dê plantão em pleno feriado. Há os que viajam e os que ficam em sua cidade, os que preferem ir a praia e os que gostam do interior. Há quem emende e viaje para fora do país, há quem espera que esses dias passem logo para voltarem ao trabalho.

Há neste mundo de meu Deus de tudo um pouco, há gostos e desgostos, há desfile de máscaras em Veneza, e mulheres semi nuas desfilando nos bailes da vida.

Mas há sempre Chico Buarque, eternizando o Carnaval na sua música “Noiite dos Mascarados”

– Quem é você?
– Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

– Quem é você, diga logo…
– Que eu quero saber o seu jogo…
– Que eu quero morrer no seu bloco…
– Que eu quero me arder no seu fogo.

– Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
– O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
– Eu tenho um pandeiro.
– Só quero um violão.
– Eu nado em dinheiro.
– Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
– Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
– Eu sou tão menina…
– Meu tempo passou…
– Eu sou Colombina!
– Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

Fim do mundo

Vocês repararam, abrindo o feed de notícias do Facebook ou as sugestões do Youtube, a quantidade de possíveis datas para o fim do mundo? A quantidade de reportagens que mencionam que um asteroide vai passar ou passou raspando pela Terra em tal dia? Se eu fosse assinalar na folhinha pendurada na minha cozinha todas as datas citadas para o apocalipse, provavelmente ela já estaria toda rabiscada… Parece que, como o mundo não acabou em 2012 conforme o “previsto”, continuamos apostando que esse dia em breve chegará.

Do ponto de vista do comportamento humano, qual é o significado dessa expectativa? Realmente desejamos que o mundo acabe e fazemos um jogo de estipular datas? Ou achamos divertido brincar de roleta russa com asteroides e afins? Qual a razão de tantos filmes catastróficos renderem milhões nas bilheterias dos cinemas pelo mundo afora?

Difícil responder a essas perguntas; por que o trágico nos atrai?

Às vezes me ocorre que o nosso aspecto destrutivo enquanto humanidade não aguenta ficar circunscrito às esquisitices diárias, e precisa projetar-se através das câmeras de Hollywood. Outras vezes me parece que a consciência da impossibilidade em controlar a vida nos leva ao excesso da vitimização, e lá vai a gangorra no sobe e desce entre a onipotência e a impotência total. Pode ser também que nos damos conta dos ataques constantes que fazemos à natureza, tanto a interna como a externa e, para expiar a culpa, fantasiamos o merecido castigo. Ou porque somos educados para o medo e pelo medo, desenhamos um futuro sombrio a nos espreitar.

Seja lá como for, por este ou aquele motivo inconsciente, ou pela somatória de vários, nossa veia sadomasoquista se deleita diante de tanta calamidade… E isso não tem a ver só com previsões sobre o fim do mundo, mas também sobre especulações desalentadoras de todas as espécies e em todos os setores.

Esquecemos a nossa origem divina, a harmonia que rege o Universo como um todo, a possibilidade adormecida em nós de criar uma realidade completamente diferente dessa que tememos e projetamos. O mundo é a projeção do sonho coletivo, e nós fazemos parte desse grupo enorme de sonhadores. Se cada um cuidar de ser um bom sonhador, conseguiremos transformar os pesadelos em sonhos leves e gostosos. E no lugar de esperar pelo pior, vamos desenhar caminhos que, ao serem percorridos, nos proporcionem prazer e gratidão por estarmos aqui!