Você já encontrou sua tribo?

Faço parte de um grupo de estudos transdisciplinares. Esse grupo surgiu há alguns anos dentro de uma universidade, entre professores interessados em adquirir conhecimentos diversos. Depois migrou para fora da instituição, e hoje nos reunimos semanalmente no espaço de um amigo querido que participou da fundação desse grupo e que o coordena, muito embora sejamos todos responsáveis por ele.

De fato é um grupo transdisciplinar; na primeira hora fazemos meditação intercalada com sugestões dos participantes, seja dança, movimentos corporais, alguma criação artística. Depois fazemos a leitura de um livro escolhido pelo grupo e, cada parágrafo lido, abre espaço para a discussão, tudo com muito humor e muitas risadas.

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Mas o que mais me encanta nesse grupo é a afinidade e a amorosidade, de tal maneira que as quintas-feiras, que é o dia do nosso encontro, acabam sendo especiais. Sentamos em círculo, nos olhamos nos olhos, falamos sobre a vida e o viver, trocamos impressões e afeto; me sinto como uma velha índia que junta-se à sua tribo.

Durante a vida cruzamos com um grande número de pessoas com quem compartilhamos o tempo. Já nascemos inseridos dentro do grupo familiar; depois, ao entrarmos na escola, passamos um longo período com outras crianças que também foram lá colocadas, e naturalmente nos aproximamos de algumas com quem temos afinidades. Depois vem o grupo da faculdade, do estágio, do trabalho, o grupo social, o dos vizinhos, dos colegas de profissão, dos pais dos amigos dos filhos e assim por diante. Próximos ou não, aprendemos a administrar essas relações. Às vezes temos sorte de conviver com pessoas que agregam, às vezes não.

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Depois de percorrer a maratona dos primeiros cinquenta anos, vencidas algumas centenas de obstáculos, conquista-se a possibilidade de desenvolver um olhar novo e diferente sobre nós mesmos e a vida. Parece que há uma apuração do paladar emocional e energético, e já não nos interessa estar com pessoas que não nos toquem e que não possam ser por nós, tocadas.

Há um desejo de trocas mais intensas e profundas que nos ajude a desconstruir armaduras, a abandonar as armas da retórica e das argumentações convictas. Há uma necessidade de calma, de degustar o olhar do outro, sentir sua respiração, silenciar a própria voz para poder ouvir. Já pouco

interessa o embate, a queda de braço, o competir e triunfar sobre; a alma pede por aconchego e partilha.

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Permita-se encontrar sua tribo, mantenha-se longe das pessoas chatas e barulhentas, dos personagens do baile de máscaras, com quem muitas vezes rodamos na pista por um longo tempo, de uma maneira totalmente automática e entediada. Se dê ao direito e ao prazer de estar rodeado por gente que é fruto das escolhas do seu coração, irmãos e irmãs de alma, amigos com quem você possa exercitar-se como ser humano e aprimorar-se nessa categoria.

Depois de tantos tropeços pela experiência adquirida é hora de resignificar relações, restabelecer vínculos , encontrar a si mesmo e ao outro. Encontro é transformação, mudança. E tudo que está vivo cresce e se transforma!

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Encerrando a semana da Princesa

Vocês, que acompanham este blog, perceberam que esta semana escrevemos três textos que convergem para a mesma direção, embora abordando aspectos diferentes. A Escola de Princesas deu o que falar…

Não é para menos: as mulheres, ao longo da história da humanidade, travam uma luta sem trégua em busca de um lugar de equiparação em relação ao universo masculino. Um lugar de reconhecimento e aceitação das diferenças, afinal somos sim diferente dos homens. E ser diferente não implica em superioridade nem em inferioridade, implica apenas em não ser igual. A diferença vai desde a anatomia e constituição física até o funcionamento cerebral, ou seja, a maneira pela qual o cérebro de homens e mulheres processam a linguagem, as informações, as emoções, o conhecimento, etc.

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Na nossa cultura patriarcal e machista essas diferenças tendem a serem vistas como sintomas de inferioridade, o que nos coloca constantemente em situações de subserviência, seja no aspecto pessoal ou profissional. Vocês tem ideia de quantas mulheres foram queimadas em fogueiras na Idade Média? A “caça às bruxas” durou mais de quatro séculos!! E quem eram as “bruxas” em questão? Na maioria dos casos eram parteiras, enfermeiras e assistentes que possuíam vasto conhecimento a respeito da utilização de ervas medicinais na cura de doenças e epidemias e que, portanto, detinham um elevado poder social. Esse conhecimento era passado de geração a geração pelas mulheres da família. As bruxas foram resultado de uma campanha de terror provocada pela classe dominante, de tal maneira que muitas das mulheres acusadas acreditavam serem, de fato, bruxas e possuírem um pacto com o diabo, segundo nos contam alguns historiadores.

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Claro que estamos distantes da Idade Média, mas a história nos descortina uma realidade macabra e medonha! E não podemos negar que, até hoje, sobra um ranço disso tudo em quase todas as culturas, e que aqui no nosso país há diferenças salariais entre homens e mulheres que ocupam a mesma posição, há assédio sexual nos transportes públicos, há maníacos esparramados pelas ruas das cidades, há assédio moral de chefes para subalternas, há maridos que espancam as mulheres e assim por diante.

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Ou seja, não há príncipes nem princesas. Então, para que devemos educar nossas crianças? Ainda acredito que a melhor educação é aquela que ajuda cada ser a tornar-se aquilo que ele é, a extrair o melhor de si mesmo, a encontrar sua vocação e, através da realização nela pautada, encontrar a possibilidade de ser feliz, produtivo e generoso com toda a sociedade. Uma educação para a felicidade, onde a historia vivida possa ser escrita sem nenhum tipo de violação dos direitos e da dignidade que cada ser humano possui, independente do gênero, da preferencia sexual, da cor da pele, da religião, da conta bancária, e de tantas outras situações que nos fazem ser únicos e especiais.

Quando partimos uma laranja ao meio ficamos com dois pedaços separados, e se os juntarmos novamente, isso vai configurar uma laranja inteira. Até onde minha percepção alcança, sei que não somos fruta ou qualquer outra coisa que o valha para procurarmos pela nossa metade.

Somos indivíduos completos em si mesmo, ou, pelo menos, deveríamos pautar nossa busca em função dessa completude; assim sendo poderíamos encontrar um companheiro ou companheira que também fosse um ser humano em busca de si mesmo, e não do outro. Certamente nossas relações afetivas seriam mais saudáveis, as famílias seriam mais equilibradas e não precisaríamos nos preocupar em passar valores para nossos filhos, eles respirariam isso desde a primeira inspiração.

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Formar uma “princesa” pressupõe que ela deva esperar pela chegada do príncipe, e no afã de encontrá-lo pode se atrapalhar e acolher um sapo, e imaginá-lo príncipe. Mas um sapo continua sendo sapo, a despeito do desejo do outro.

Fernando Pessoa, além de ser um dos melhores poetas que já conhecemos, também foi extremamente feliz ao escrever em “Eros e Psique” a seguinte estrofe:

“E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.”
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Princesas? Que princesas?

Vocês já ouviram falar da Escola de Princesas? Trata-se de uma franquia mineira que acabou de inaugurar uma unidade aqui em São Paulo e que tem como lema (polêmico, diga-se de passagem) “toda garota sonha em ser princesa”. A escola destina-se a meninas entre 4 e 15 anos e ministra cursos que abrangem boas maneiras, etiqueta social, corte e costura, culinária, lavanderia e organização doméstica entre outros. Também se propõe ao resgate de valores éticos e morais e considera o matrimônio (sim, a palavra usada não é casamento) como a realização maior de todas as princesas, e a virgindade parece ser um dos tópicos relevantes.

Tempos curiosos esses que estamos vivendo. Quando, na psicologia, estudamos sobre o desenvolvimento infantil, aprendemos que durante o primeiro setênio a criança transita pela linha do desenvolvimento, ou seja, ela avança e recua, faz conquistas e retrocede, sem no entanto perder o que já aprendeu. Pensando nisso acho que nós, como humanidade, ainda não ultrapassamos os sete anos de idade…

Difícil entender o objetivo de tal proposta! Não me refiro ao aprendizado de comportamento social, regras de etiqueta, etc., mas a própria família deveria incumbir-se disso. Quanto ao resgate de valores éticos e morais, cabe questionar a que estamos de fato nos referindo.

Desde o momento que uma criança nasce, seja ela menina ou menino, inicia-se um longo aprendizado dos valores que a família vivencia. A ética e a moral de cada família são transmitidas aos filhos através das relações que se estabelecem, do que essa criança observa no comportamento de seus pais e irmãos, do que é apresentado a ela, valorizado ou rechaçado por essa família; a criança tende a replicar os modelos aos quais diariamente ela está exposta. Imaginar que a escola, qualquer que seja, é a responsável pela transmissão dos valores é, no mínimo, terceirizar a responsabilidade dos pais pela educação dos filhos.

Mas talvez o ponto que mais chame a atenção é o pressuposto de que toda menina sonha em ser princesa, e que há uma escola que vai prepará-la para isso. Dá uma sensação esquisita de que estamos voltando no túnel do tempo, misturada com um cheiro de coisa velha, ultrapassada e retrógrada.

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Vale lembrar que, tirando algumas poucas exceções, as princesas só sobrevivem porque contam com a proteção do arquétipo masculino do pai e do príncipe, provedores e protetores responsáveis pela vida das donzelas frágeis e casadouras. Elas, pobres princesas, não só não escapam do domínio masculino como também criam a ilusão de que a prisão na qual vivem é o castelo cor de rosa dos seus melhores sonhos.

Deveríamos pensar em uma escola do Ser aberta a todas as crianças, independente do gênero, que tivesse como objetivo ajudá-las a desvencilharem-se dessa pesada carga que despejamos sobre elas desde que nascem ou até antes disso, carga feita de corda, amarra, nó cego, muros e cercas. Uma escola que pudesse inspirá-las a procurar pela luz que carregam dentro, essa bússola existencial que aponta para o caminho que levaria cada uma delas a tornarem-se aquilo que verdadeiramente são, únicas e belas!

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Felizmente há uma força de crescimento que não se dobra frente aos nossos pequenos e tolos caprichos; a evolução acontece a despeito da nossa imaturidade.

 

PS: Na próxima terça-feira publicaremos o post “Sapato de Princesa” e na quinta será a vez de “Princesa ou Mulher Maravilha?“. Porque o assunto dá pano para mangas…

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Empoderamento

Vocês já repararam que o modismo não se restringe a um determinado aspecto do comportamento humano como, por exemplo, a maneira de se vestir, mas é muito mais abrangente e abarca usos e costumes, inclusive na linguagem falada e escrita? Pois é, é exatamente o que está acontecendo com a palavra empoderamento.

Cada vez que surge um modismo parece tratar-se de uma novidade, mas, via de regra, não é assim. Muitas vezes é só uma roupagem diferente para alguma coisa que de nova não tem nada, mas é válido quando nos dá a possibilidade de resignificar uma ideia, tornando-a inclusive mais forte.

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O que mais se ouve e se lê atualmente é sobre o empoderamento da mulher, como se tivéssemos recém descoberto um poder que vem de fora, da sociedade, e que é dado às mulheres como um presente ou uma maneira de reconhecimento do seu valor. Aliás, um dos significados que o dicionário traz é a “socialização do poder entre os cidadãos, inclusão social e exercício da cidadania”. Mas Paulo Freire, um dos principais educadores brasileiros, traduziu o termo empowerment para o português como sendo “a capacidade do indivíduo realizar, por si mesmo, as mudanças necessárias para evoluir e se fortalecer”.

Podemos pensar que empoderar-se é um processo de emancipação, de libertação dos parâmetros que restringem, limitam, cerceiam, tanto externos quanto os internalizados. É aventurar-se dentro de si mesmo como quem parte para uma expedição e descobrir os próprios recursos, potenciais, atributos; e a partir dessa descoberta, assumi-los plenamente. Não há melhor escolha a se fazer do que assumir ser quem se é, desfazendo-se dos personagens vitimizados que acabamos encenando durante a vida.

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Na estação da maturidade descobrimos a força da mulher sábia que habita em nós, o poder que ficou oculto sob o véu da repressão, da opressão, da depressão; o poder que tantas vezes delegamos ao outro, invejamos no outro, desejamos do outro, como se nós não o carregássemos no ventre, na alma, no coração.

O poder está em nós, e esse poder é o elemento de transmutação da vida passiva para a ativa, da vida lamentada para a desejada, a ponte que nos faz partir da dor em direção ao prazer. Esse poder é um direito, uma conquista e uma responsabilidade que temos em relação a como vamos transitar por este planeta enquanto estivermos por aqui. É através desse exercício que mudamos de lugar, abandonamos a plateia e subimos ao palco para sermos a protagonista da nossa vida!!

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Sobre todas nós

Hoje faz uma semana que conseguimos colocar este blog funcionando, e um pouco para comemorar, um pouco para conversar sobre ele, nós três, que nos aventuramos nessa empreitada, saímos para almoçar.

Um encontro entre amigas é sempre algo muito interessante; os assuntos pipocam e estouram feito milho em óleo quente, um atrás do outro, ao som de muitas risadas e com um jeito de travessura. Falamos de tudo um pouco, desde relembrar coisas que fizemos no decorrer da vida (a maioria delas engraçada, claro) até o que estamos vivenciando hoje, nesta estação da maturidade.

Ao escrever isso vem um verso de Caetano: “Não me venha falar na malícia de toda mulher, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sabem de uma coisa? A delicia é maior do que a dor, infinitamente maior!! Nós mulheres aprendemos desde muito cedo que a sensibilidade é uma vantagem porque ela nos possibilita adentrar no universo dos relacionamentos como quem mergulha no mar num dia quente, cheias de vontade, alegria e prazer.

E na medida em que o tempo passa e vamos nos libertando dos afazeres em excesso, maior ainda é a vontade de mergulhar.

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Cada fase da vida tem seu custo e seu encanto; se por um lado não temos mais aquele corpinho de dar inveja e, como bem escreveu Rubem Alves, a quantidade de jabuticabas que já comemos é maior do que as que ainda restam na bacia, por outro vivemos um momento onde já não se faz importante provar a nós mesmas ou a quem quer que seja, quem somos. Disso já temos vaga ideia… Nossas carreiras já estão consolidadas, nossos filhos cresceram e não somos mais imprescindíveis, conseguimos sair de casa mesmo que o cabelo não esteja impecavelmente arrumado e somos até capazes de aceitar um convite para um encontro de última hora com amigos queridos mesmo sem termos ido à manicure, não é fantástico isso?

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A vida sempre vale a pena, e a maturidade traz de presente para nós um olhar mais tranquilo e mais seguro em relação à vida, afinal já atravessamos tantas tempestades e sobrevivemos a todas elas… e melhor ainda, já sabemos que o amanhecer do dia seguinte é um espetáculo imperdível, cheio de cores, ensolarado como nunca!

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