Machismo e o medo do poder do feminino

Esta semana soube de duas histórias que me motivaram a escolher este tema para inaugurar as postagens de 2019. A primeira é sobre uma notícia que li a respeito de uma selfie que a Xuxa postou, onde aparece seu rosto com o cabelo molhado e ela chama a atenção das pessoas para a cor da água do mar. É evidente que ela está sem maquiagem no auge dos seus cinquenta e poucos anos (acho que 55), e a enxurrada de comentários maldosos, preconceituosos e críticos sobre sua pele e seu envelhecimento me deixaram estarrecida.

Xuxa: imagem de uma mulher real

A segunda história é sobre uma amiga muito querida, mulher inteligente, culta, elegantérrima, com cinquenta e tantos anos, que estava sofrendo de depressão. Foi a um médico neurologista muito bem indicado que, no primeiro contato, mostrou-se bastante simpático e atento ao seu relato. Medicou-a e felizmente ela tem melhorado a olhos vistos; e esta semana fez uma nova consulta, onde relatou  o quanto sentia-se melhor, disposta, motivada, ou seja, em relação à medicação ele acertou em cheio.

Ao final da consulta ele resolveu dizer que ela deveria voltar na próxima vez mais cuidada, que deveria usar batom, maquiagem e mudar o cabelo. Ela ainda teve paciência de explicar que não gostava de maquiagem (só usa delineador nos olhos), e que quanto ao cabelo, havia acabado de fazer uma mudança no visual. Abro um parênteses para contar que há alguns meses ela se deu conta de que estava cansada de usar tintura e resolveu assumir seus cabelos brancos. Fez um corte maravilhoso, bem curto e moderno, e os fios brancos estão misturados aos escuros, em uma harmoniosa combinação de tons grisalhos que emolduram seu rosto e realçam sua beleza. O médico continuou a conversa “anos 50” e perguntou se o marido gostava do cabelo dela assim, ao que ela retrucou que ele talvez não gostasse tanto, mas que ela estava sentindo-se bem e satisfeita com essa escolha, a qual julgava ser exclusivamente dela. Agora vem o pior, preparem-se para ler! Ele disse que se o marido dela preferia o cabelo com a tintura, que ela voltasse a tingi-lo, afinal ele poderia cansar-se de não ser “priorizado” e trocá-la por uma mulher de 30 (anos), que certamente tingiria os cabelos como ele gosta.

Em que século estamos mesmo?

Vou poupá-los da minha opinião sobre essa criatura que tem um diploma pendurado na parede e acredita que isso o torna médico, assim como vou omitir a avalanche de adjetivos que vieram à minha cabeça quando ouvi esse relato. Minha amiga, sabiamente, não levou para o lado pessoal; apesar de estar saindo de uma depressão, não perdeu o discernimento e nem a autoestima. Percebeu a limitação do homem sobrepondo-se à capacitação do médico e lamentou a ignorância e o preconceito que não se rendem nem à informação nem ao conhecimento.

Médicos também podem ser palhaços

Vamos recuperar o poder pessoal ?

Já passou da hora de nós mulheres resgatarmos o poder pessoal que está adormecido dentro de nós, de recapitular quem somos, de onde viemos, a força que corre junto com o sangue em nossas veias. O machismo está a serviço do medo que os homens têm de perder o controle (que julgam ter) sobre o mundo, a sociedade, sobre si mesmos e sobre as mulheres. Eles, os homens, acreditam que podem envelhecer, perder os músculos, a cintura delineada, os cabelos, o respeito, a empatia. E também acreditam que nós, mulheres, temos que nos manter a expressão do desejo deles até a morte, temos que fingir que não estamos envelhecendo, como tivemos que fingir os orgasmos que não sentimos, a fragilidade que não nos pertence, a aprovação que não nos interessa e da qual não dependemos.

Evidentemente não estou me referindo a todos os homens, tão pouco estou denegrindo ou atacando o gênero masculino. Os homens íntegros e conscientes lutam contra a cultura machista que está enraizada em todos nós, independente do sexo. Me refiro ao machismo de alguns homens e mulheres que morrem de medo de olhar para o espelho e verem refletido nele a própria imagem, que se ocupam de ditar regras (para não usar outro verbo…) e de apontar o envelhecimento alheio para não ter que entrar em contato com o próprio envelhecimento, que se agarram à forma porque lhes falta conteúdo, essência, substância.

Envelhecer é um privilégio, tornar-se mais sábio ao longo dos anos é uma conquista para poucos, afinal, para isso é necessário desgarrar-se da mediocridade e do ranço machista que cheira a mofo, a ignorância, a estagnação no processo evolutivo. Assumir a própria idade sem filtros é só para aqueles que aprenderam a gostar de si mesmos e se orgulham do seu percurso, valorizam a vida e são gratos a ela, têm coragem de vivê-la porque seguem seus corações.

Que em 2019 possamos despertar o poder pessoal, cada vez mais e melhor, e expressar quem somos, sem maquiagem e sem medo!

Partidas

Me ausentei do blog nas duas últimas semanas em função da saúde de meu pai, que nos deixou na última segunda-feira. Todos nós, que estamos na faixa dos 50 anos, ou já passamos por isso ou vamos passar. Sabemos, desde a infância, que a vida aqui tem começo, meio e fim; mas só à medida que amadurecemos entramos em contato com o que esse ciclo significa.

Enquanto criança, a morte é uma fantasia ambígua, mistura de medo e magia; há o receio de perder pai e mãe, avós, mas há também o vislumbre de que as pessoas que morrem viram estrelas, e que podemos contemplá-las ao olhar o céu noturno.

Passada a infância, o medo da perda permanece, mas a “magia” nos abandona. O tema ganha nuances bem mais sombrias e pesadas, principalmente para os que vivenciam a perda dos pais ainda jovens, ou de algum amigo tão jovem como nós. Talvez esse seja o momento onde a primeira ficha escorrega, começa a cair ainda que tímida, deslizando sobre nossas emoções e conceitos… quer dizer que tudo pode acontecer, assim, de uma hora para outra?? Quer dizer que não estamos no controle, nem da vida nem da morte??

E aquela onipotência toda, para onde vai? A ilusão da eternidade no plano da matéria? A sensação de que temos todo o tempo do mundo (inesgotável) para fazermos o que quisermos na hora em que desejarmos? O vicio da procrastinação que parece grudado no nosso ser com cola quente ou Super Bonder, que nos faz adiar coisas importantes e nos enche de culpa quando não há mais tempo de vivê-las, como lidar com isso? O que fazer?

Nesse sentido, a morte tem a dura e importante missão de quebrar o espelho que reflete a ilusão infantil a respeito do tempo, da vida, dos ciclos. Ela vem para nos mostrar que a vida é um rio, que brota em uma nascente feito um filete de água, ganha volume à medida em que corre em seu leito, atravessa planaltos e planícies, montanhas e vales, até desembocar no grande oceano, onde deixa de ser rio, morre para essa descrição, e se funde à grande água. Entre o intervalo de nascer e desintegrar-se, há um vasto percurso a ser feito, trabalhado, usufruído. Há incontáveis trocas com todos e tudo que encontramos pelo caminho, há aprendizados, aprimoramentos, acertos e erros que constituem a nossa bagagem.

Meu pai foi um grande e caudaloso rio que atravessou continentes, explorou espaços, fertilizou a terra por onde passou com sua integridade, seu senso de justiça, seu reconhecimento da Divindade, sua fé na vida, seu amor generoso. Agora virou mar, faz parte da Grande Água, mas também virou estrela brilhante no coração da família que ele amou e por quem foi amado.

Somos todos gratos pela sua presença em nossas vidas, e nada nos dói além da saudades, porque exercitamos, na rotina diária da convivência, o amor que sentimos. Que possamos aproveitar nossa passagem por aqui com alegria e consciência, com o propósito de florescer o amor que trazemos no peito, de tal maneira que nossa presença seja uma benção para os que estão ao nosso redor, assim como a dele foi para nós!

“Um guerreiro deve cultivar o sentimento de que já possui tudo que precisa para essa viagem extraordinária que é sua vida… A vida é suficiente e completa em si mesma, e por si mesma se explica.”

Don Juan Matus

Madonna e os 60

Nesta semana que passou Madonna atingiu os 60 anos. Figura pública que é, vive da imagem. Assume a idade, mas não o envelhecimento no sentido literal da palavra; seus cabelos continuam loiros, seu rosto traz poucas rugas e seu corpo mantém-se bem delineado e sarado. O que mostra que ela optou em manter as tintas sobre os fios de cabelo, deve recorrer a vários procedimentos estéticos assim como à assiduidade dos exercícios físicos. Ou seja, está envelhecendo da mesma forma como viveu. Sempre se diferenciou pela ousadia, e dela não abre mão. Segue sendo uma mulher sexy, desafiadora dos padrões estabelecidos, namora rapazes e assume seus romances, trabalha muito e não se acomoda no sucesso conquistado. Em termos musicais, uma das suas características é que continua fazendo novas músicas e shows para apresentá-las, não vive exclusivamente do sucesso do passado.

Independente de gostarmos dela ou não, Madonna traz uma coerência interessante no seu comportamento ao longo da vida e durante o envelhecimento, ou seja, ela não ficou velha, apenas envelhece. E não é assim que deveria ser? Os anos passam, esse é o processo natural. O corpo físico tem perdas importantes que necessitam de cuidados, há mudanças sim que precisam ser reconhecidas para serem respeitadas. Há que se cuidar da alimentação, do sono, do ritmo da vida, da atividade física e mental mais e melhor do que fizemos ao longo do tempo. É preciso estar atenta aos sinais que o corpo nos envia, ele sinaliza o que necessita.

Mas o corpo físico também responde ao corpo emocional, e o que pensamos e sentimos sobre nós mesmas exerce influência direta sobre a saúde; tenho para mim que esse é o pulo do gato! Se envelhecer é obrigatório enquanto estamos vivas, ficar velho é opcional, depende das escolhas que fizemos e que continuamos fazendo.

Acho que ficar velho é abandonar a vida e seus atrativos, e é, na verdade, abandonar a si mesmo. É acreditar na obrigatoriedade da juventude e em todas as restrições que nos são impostas quando já saímos dela. Como se só pudéssemos ser felizes enquanto jovens, e só tivéssemos direito a uma série de escolhas até os 30 anos.

Felizmente temos acordado dessa hipnose que a sociedade tende a exercer sobre nós. Conheço várias mulheres que, passados os 50, resolveram mudar o rumo de suas vidas. Há as que se divorciaram por perceberem que a antiga relação já havia se esgotado e não tiveram medo de separar mesmo não sendo tão jovens. Há as que se apaixonaram novamente, e se entregam a essa paixão sem receios. Há as que descobrem o prazer de estarem com elas mesmas, e não há aqui sentimentos de solidão. Há as que foram fazer um curso fora do país, se permitiram viver uma experiência que foi sonhada no passado e não pode ser concretizada em função dos inúmeros deveres de mãe e esposa. Há as que abandonaram as tintas do cabelo e assumem seus brancos sem perder a vaidade. E há aquelas que continuam casadas, desenvolvendo as mesmas atividades.

Ou seja, a idade não é um empecilho para mudanças nem tão pouco uma exigência para que elas aconteçam, depende do desejo de cada uma de nós. O que nos limita não é a idade, mas o sistema de crenças que incorporamos e repetimos; a jovialidade é uma conquista que implica em abrir mão dos preconceitos, da rigidez, dos julgamentos, e jamais da alegria e dos prazeres. Da vontade de aproveitar a vida e aprender com ela, da curiosidade que não morre. Há um grande privilégio em envelhecer, que possamos honrá-lo devidamente!

Criatividade, vida e prazer

Vida é movimento, concorda? Tudo que está vivo pulsa, respira, cresce, expande, manifesta-se. Quando somos jovens sabemos bem disso, os jovens movimentam-se até não poder mais, o dia é curto (e a noite também…) para tudo o que se quer fazer, peca-se pelo excesso. Excesso de atividades, compromissos, ideias, desejos, criações, encontros, sonhos, tudo que nos liga à vida transborda, quanto mais, melhor. É claro que há muita energia disponível nessa fase, e ela é o combustível para alimentar tantos movimentos.

Como costuma-se dizer, envelhecer é inevitável, mas ficar velho é opcional. Infelizmente, dentro desta estrutura de sociedade na qual vivemos, não há suficiente conscientização da necessidade de ressignificar a vida com a passagem dos anos. Vivemos como se fôssemos imortais, procrastinar virou hábito, deixamos tudo para um dia que nunca chega. E mal percebemos que, de tanto adiar a própria vida, nossos movimentos tornam-se mais lentos e escassos, tanto os internos como os externos.

É preciso estar atento para não permitir que nossos conceitos e percepções se cristalizem, para não entrarmos na zona de conforto e lá estacionarmos para todo o sempre. Ficar velho é escorregar no tempo e mergulhar no poço das certezas e das limitações; as primeiras impedem o aprendizado, as segundas nos convencem que não somos capazes de fazê-lo.

Meditating At Home

Permanecer jovem implica em flexibilidade, abertura, criatividade, ação. É trabalhoso porque demanda desplugar-se do passado e ater-se ao momento presente, na busca incessante dos recursos que estão adormecidos dentro de nós, das potencialidades que permanecem virgens ou foram pouco exploradas, das realizações que nos negamos e das vivências que roubamos de nós mesmos sob pretextos diversos. Certamente, ao dobrar a curva do meio século de vida, não podemos reeditar tudo que fizemos ou que gostaríamos de ter feito nos primeiros 30 anos de existência, porque há um tempo para todas as coisas acontecerem. A questão não é voltar ao passado, seja para lembrá-lo com saudades, seja para lamentar o que deixamos de fazer. A questão é ter a coragem de mergulhar em si mesmo e descobrir o que desejamos agora, sim, porque o desejo permanece, a vontade permanece, o apetite pela vida não diminui com a idade. Se isso ocorre significa que nos deixamos convencer de que a vida só acontece em uma determinada fase da jornada sobre esse planeta, o que não é absolutamente verdade.

Quanto mais vivemos conscientes dos processos que atravessamos, mais nos tornamos inteiros para buscar a vida na sua inteireza também, na sua diversidade, complexidade e beleza. A ampliação da percepção e da consciência nos coloca em vantagem, porque nos torna capazes de intuir o que os olhos não veem, o que não consta da descrição do mundo mas está impregnado na sua alma e na nossa. Isso abre a possibilidade de escolhas mais verdadeiras, de assertividade nos movimentos, de determinação porque temos um prazo para vivenciar o que desejamos, e agora nos apropriamos disso.

Teoricamente temos menos tempo para viver do que já tivemos, mas se soubermos lidar com ele de maneira diferente, teremos a oportunidade de vivê-lo como jamais fizemos, com arte, com graça, com sabedoria, com vivências profundas e transformadoras, nos permitindo as alegrias, grandes e pequenas, que a intensidade da juventude nos impediu de saborear!

Maturidade e aprendizado

É claro para todas nós que o envelhecimento não traz, por si só, sabedoria. A vantagem única da passagem do tempo está na diversidade de experiências que podemos ter, na possibilidade de observação de nós mesmas, dos eventos, das nossas respostas em relação a eles. O tempo pode ser um grande mestre, na medida em que nos coloca frente a frente com a vida em suas inúmeras faces, mas tudo depende da disponibilidade interna de aprendizado de cada uma de nós.

Se pudermos desenvolver uma postura de humildade frente a este vasto Universo, no sentido de nos colocarmos como eternas aprendizes dos mistérios da vida, teremos muito mais chances de compreender a natureza humana e tudo o que está a ela relacionado. Essa compreensão está ligada à esfera intuitiva, uma vez que entender racionalmente alguma questão está longe de significar elaboração interna; para tanto precisamos de um insight, aquele click que faz com que tudo se encaixe em nós como um quebra cabeças perfeito.

De insight em insight construímos uma percepção dos processos, que nos auxilia a navegar pelas águas das emoções sem naufragar. De vez em quando tomamos “um caldo”, e nem poderia ser diferente, pois continuamos aprendizes, mas já com alguma expertise que nos permite por a cabeça para fora e respirar.

Já temos algum conhecimento dos ventos do tempo, somos capazes de discriminar que no olho do furacão a atitude possível é aquietar-se e abrigar-se, ou seja, saber esperar com paciência que o furacão passe para depois colocar cada coisa em seu devido lugar. O aprendizado nos torna aptas a avaliar as diferentes intensidades de força, e fazer escolhas apropriadas que não apenas nos livre dos riscos desnecessários, como também nos permita desenvolver estratégias para termos sucesso no que desejamos empreender.

Talvez o amadurecimento esteja mais vinculado a escolhas do que a impulsos, a gestar ideias e planos de como realizá-las, no lugar de sair fazendo qualquer coisa de qualquer jeito. Qualquer coisa já não serve mais, há um refinamento dos paladares pela vida. Não há interesse em qualquer filme, qualquer livro, qualquer pessoa. As luzes do mundo interno se acendem, parece que é um tempo propício para nos aproximarmos da nossa essência, e ela se torna a referencia para as escolhas.

Isso não significa que a maturidade seja melhor que a juventude, ou vice-versa. Não dá para dizer que a primavera é melhor que o outono, ou o inverno pior que o verão. Cada estação do ano e da vida tem seu propósito e seu encanto, e todas são necessárias para que a natureza se expresse em toda sua beleza e exuberância.

Que possamos honrar a nós mesmas em cada uma de nossas estações, aproveitar o que elas têm de melhor e trabalhar para que possamos sempre crescer e aprender, mesmo que isso signifique deixar cair as folhas mortas, deixar ir o que não agrega mais, para poder mais pra frente florescer de novo, e sempre!