A culpa nossa de cada dia

Não sei se hoje escolhi um tema pesado ou se foi ele que me escolheu, o fato é que deu vontade de refletir sobre o significado dessa palavra tão pequena e tão complexa que é “culpa”. Às vezes acredito que esse é o sentimento (se é que podemos chamá-la assim) que mais está presente em nossa vida, desde sempre e até sabe-se Deus quando. Mais do que amor, saudades, raiva, tristeza, alegria, ou, pelo menos, mais intensa. Porque aquilo que sentimos nas mais diversas situações da vida parece vir sempre acompanhado, de perto ou de longe, por uma sensação de culpa.

Eu estudei em colégio católico, entrei para fazer o Pré-Primário por volta dos seis anos. Lembro que desde o inicio tínhamos aula de religião, e aprendi logo cedo a ter medo de Deus… Na época de preparação para a Primeira Comunhão tínhamos que listar nossos pecados e arrepender-nos por tê-los cometido, afinal o arrependimento era o caminho que nos levaria ao perdão e à isenção da culpa. Nós, crianças ainda no final do primeiro septênio, já carregávamos a culpa dos pecados que semanalmente tínhamos que confessar ao padre que nos aguardava na capela do colégio. Ficávamos em fila esperando a nossa vez, e o meu desassossego beirava o desespero. Procurava na memória recrutar os pecados da semana, mas eles eram difíceis de serem achados. Eu era aluna de notas altas, adorava estudar, não tinha como garimpar culpa aí… também era obediente, muito mais por medo do que por índole, não respondia aos meus pais nem à professora, rezava todas as noites assim como fazia a lição de casa sem precisar que minha mãe mandasse, então a sensação era de que eu não tinha o que confessar! Me arrepender do que?…

Nesse ponto batia a culpa; como assim, eu não tinha pecados para confessar??? Que criança horrível eu era por achar que não pecava!! Devia ser orgulho, ou soberba, ou vaidade, um pecado pior que o outro, e de alguém que não conseguia elencar os pecados eu me transformava em pecadora mor, para deleite do meu sádico sentimento de culpa e alívio do padre que tinha como me mandar rezar seis Pai Nossos e seis Ave Marias. E mesmo sendo boa filha e boa aluna já se enraizava em mim a vivência da culpa.

E não deve ter sido muito diferente com vocês, independente de terem estudado em colégio religioso ou não, de terem religião ou não, a culpa permeou a nossa geração, permeia a cultura, reside no inconsciente coletivo, é o algoz dos seres humanos e especialmente de nós mulheres. Passeia livremente na escala das medidas, vai desde a manifestação do desejo sexual até o arroz que ficou com gosto de queimado por ter grudado no fundo da panela. Transita no abandono que sentimos ter feito, seja em relação aos filhos em função do trabalho, seja em relação à carreira profissional em função dos filhos.

Aparece no meio da noite quando acordamos sobressaltadas, culpadas pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer. Nos encara na balança, quando o peso constatado é muito maior do que o pretendido, no ginecologista quando nos sentimos acusadas de irresponsáveis por furarmos a rotina dos exames de rotina… Ela, a culpa, também senta-se ao nosso lado no café da manhã quando nos damos conta que acabou a manteiga e o requeijão, e que não há o que passar no pão.

E pega ainda mais pesado quando percebemos que largamos pelo caminho sonhos, desejos, aspirações, realizações, loucuras não cometidas, prazeres adiados.

A esta altura do baile, já cinquentinhas ou cinquentonas, está mais do que na hora de fazer uma troca e largar a culpa pelo caminho, essa mala sem alça, esse peso que atrapalha nosso caminhar. Abandoná-la não é fácil, afinal ela foi nossa companheira inseparável, mas quer saber? Antes só do que mal acompanhada!

Que possamos reinventar a vida sem o sentimento de culpa, que possamos trocá-lo pela consciência da responsabilidade, das escolhas e suas consequências, do que é possível em determinado momento e do que é preciso deixar para depois.

Que a brisa suave sopre sobre nosso rosto, nosso corpo, nossa alma, e que nossa jornada, daqui para a frente, seja marcada pela leveza de quem já se desapegou do peso desnecessário de carregar!

Dia de Poesia

Affonso Romano é mineiro, escritor, poeta, e na década de 60 participou do movimento de vanguarda literária. É autor do livro “A Mulher Madura”, de onde foi extraído o texto abaixo.

O olho da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

(15.9.85) Affonso Romano de Sant’Anna

O Outono e nós

Sou apaixonada pelo Outono, para mim é a estação do equilíbrio. Nele há de tudo um pouco: luz, calor, frio, vento, brisa, chuvas, todos os elementos se alternam e partilham o tempo e o espaço numa dança harmoniosa e ritmada, como bailarinos sobre um palco. O céu de Outono desfila cores únicas, com nuances e tons pouco vistos em outras estações; o jogo entre luz e sombras é discretamente sedutor. Ele não possui o colorido da Primavera, a intensidade do Verão, a frieza do Inverno. Mais parece um almágama, uma fusão perfeita dos elementos que tecem a trama da vida e da natureza. Não é a toa que o correlacionam com a maturidade. Nós, mulheres aos 50, somos outonais.

Foi-se a necessidade abusiva de marcar território, de precisar pertencer a todo e qualquer círculo para poder sentir-se aceita; de exagerar na aparência, de abrir mão de viver certos prazeres porque o cabelo não está impecável, as unhas não estão feitas. Foi-se a necessidade de “primaverar” todo o tempo, de parecer sempre radiante e florida. Também não há mais aquela intensidade que nos queima por dentro, a ansiedade de beber a vida num único gole, como se não houvesse depois. Talvez tenhamos aprendido a manusear melhor o tempo, transformá-lo em um aliado. Muito embora ele tenha trazido a modificação do nosso corpo e acrescentado marcas que não tínhamos, esse mesmo tempo nos permitiu experimentar tantas coisas diferentes e aprender com elas, que pudemos mudar a maneira de compreender o mundo por estarmos mais próximas de compreender a nós mesmas. A chama interna continua a nos aquecer, os sonhos prosseguem sonhados, mas agora entendemos que é preciso respirar entre um movimento e outro. É preciso dar tempo ao tempo para que a vida flua no seu próprio ritmo e velocidade, e não naquele que tentamos impor.

Somos discretamente sedutoras, e a sedução exercida envolve o olhar que não se acanha em penetrar nos olhos do outro; envolve uma certa serenidade que foi a duras penas conquistada; um rasgo de sabedoria de quem já correu várias maratonas e discrimina um pouco melhor o que vale ou não vale ser conquistado. Envolve um fogo que aquece mais do que queima, e é alimentado pela curiosidade, pelas ideias, pelo aprendizado, pelo desejo de estar melhor consigo mesma e de ser alguém melhor para o outro.

Assim como no Outono as árvores soltam as folhas amareladas, também nós estamos aprendendo a deixar ir o que não agrega mais, nos permitir desapegar do que já foi desgastado pelo tempo e perdeu o viço e a força, e isso vale tanto para pessoas como para conceitos, fórmulas, maneiras de estar no mundo. Sabemos que ficamos desnudas, às vezes esvaziadas, mas esperamos florir novamente assim que o Inverno passar. Talvez essa seja a mais humana das estações, e é preciso sensibilidade para percebê-la. Talvez estejamos em um momento onde seja possível nos aproximarmos mais do humano e do divino que habita em nós, e conciliar essas forças para que, amalgamadas, nos deem abrigo para quando chegar o inverno.

Mulheres maduras

Nós, ditas mulheres maduras, já vivenciamos por meio século, um montante de experiências e aventuras das mais variadas matizes. E tudo que vivemos está registrado em nós, tanto no corpo físico quanto na nossa alma. Somos criaturas pulsantes, buscadoras, corajosas, curiosas. Já fomos mais intempestivas do que somos agora, já nos deixamos inundar pela enxurrada de emoções, já nos deixamos cortar e florescemos novamente. Sabemos o sabor da alegria e também da tristeza, o doce e o amargo, temos aprendido a navegar nas cheias e nas vazantes. Somos seres sensíveis e caminhamos pela vida à luz do sol e à sombra da lua, desejamos compreender a nós mesmas e encontrar o que nos complementa. Já recebemos nossos filhos e, de certa maneira, já os deixamos ir. Fomos filhas e nos tornamos mães de nossos pais. De cuidadas, passamos a cuidadoras. Sabemos nos virar na cozinha, arrumar a mesa, receber os amigos, nos tornamos profissionais em busca de realização e reconhecimento. Também sabemos olhar o céu e nos comunicarmos com as estrelas. Entendemos que a vida é cíclica, uma roda gigante sem começo nem fim, e tentamos desfrutar da subida e nos manter equilibradas nas descidas.

Continuamos tendo sonhos e medos, protegendo e querendo proteção, alimentando certezas e acalentando dúvidas. Tudo o que fomos permanece em nós, como tintas sobre tela. Com o passar dos anos algumas ficam esmaecidas e outras continuam vívidas, mas nada se apaga no ser atemporal que em nós habita. Somos amadas e amantes, e o tempo nos ensina a necessidade de aproximação com a natureza, uma vez que reconhecemos que fazemos parte dela. O som da chuva e o cheiro da terra nos acalmam, precisamos do mar, das montanhas, do azul e do verde. O vermelho do fogo também nos atrai, e com ele aprendemos a permanecer, a manter acesa a labareda do desejo. Desejo pela vida, por novos trajetos, por percursos ainda a descobrir. Desejo de continuar e viver intensamente cada novo dia, cada nova noite.

Somos assim, nada nos define, nem poderia, porque trocamos de pele sempre, metamorfoses ambulantes. Sabe aquela velha opinião formada sobre tudo? Não temos, se é que um dia tivemos. Compreendemos que sabemos quase nada a respeito desse todo complexo e inatingível. Mas caminhamos, mantemos a marcha, como quem segue por uma estrada cuja paisagem sempre se modifica. Sabe-se lá onde essa estrada vai dar, mas pouco importa. O que importa é o caminhar.

Mudanças de paradigma: beleza x juventude

Isabella Rossellini, atriz e modelo, filha da grande Ingrid Bergman, herdou da mãe o talento e a beleza, e sempre apareceu na mídia através dos filmes e campanhas que participou, sendo que uma das mais importantes foi para a famosa marca de cosméticos francesa Lancôme. Aos 42 anos foi convidada a se retirar, pois a empresa entendeu que ela já estava “velha demais”, e seu rosto já não representava o sonho de beleza e juventude das mulheres. E passados 23 anos desse momento, ela já com 65 anos de idade, é novamente convidada a estrelar campanhas para a Lancôme. Provavelmente isso tem relação com o fato de que quando essa proposta foi feita, a CEO da Lancôme era uma mulher, Françoise Lehmann, que entendeu que as mulheres mais velhas sentem-se excluídas, rejeitadas, e que o conceito de beleza tem que se descolar do conceito de juventude.

Desde tempos a se perder de vista o conceito de beleza ficou circunscrito à idade da mulher, e beleza significa ser ou parecer jovem. Assim foi definido e a juventude transformou-se em referência de beleza feminina, uma vez que para os homens a regra é outra. Homens maduros, grisalhos, continuam vistos como charmosos e interessantes, e continuam alvo de admiração e desejo, se mantém atraentes e valorizados pelas mulheres. Ou seja, os homens podem envelhecer e continuarem bonitos, nós não!

Finalmente aparece uma luz no fim do túnel da ignorância, do preconceito e da ditadura das crenças e formatações que a sociedade nos impinge e que todas nós aceitamos. Podemos envelhecer sim, e podemos continuar bonitas, atraentes e valorizadas. É preciso quebrar com todos os conceitos engessados, dar a eles vida nova e flexibilidade. A beleza é muito mais abrangente do que estamos acostumadas a perceber, e é diferente em cada fase da vida. A criança é linda, a jovem é linda, a mulher madura é linda, cada qual sendo a expressão daquele momento da vida. Que estação é a mais bonita? Não há como responder, cada uma tem seus encantos, e em cada uma há elementos que nos atraem.

lyn slater from blog "accidental icon"

Sejamos mais generosas conosco, vamos nos permitir assumir a beleza da maturidade com todas as suas nuances e seus tons. Quer saber um jeito de permanecer bonita? Seja feliz! Não é a juventude e a beleza que caminham juntas, mas sim a felicidade e a beleza. Quando estamos felizes irradiamos a beleza de todas as estações….

Assista aqui ao vídeo de Isabella Rossellini